17 de setembro de 2018, 15h33

“O Grande Circo Místico”, o melhor disco da década de 80, está de volta no filme de Cacá Diegues

Canções de Edu Lobo e Chico Buarque, feitas para um balé na década e 80, estão de volta no filme que vai representar o Brasil no Oscar

A capa do álbum "O Grande Circo Místico". Foto: Reprodução

O filme “O Grande Circo Místico”, de Cacá Diegues, que vai representar o Brasil na disputa do Oscar de 2019 de melhor filme estrangeiro tem um grande trunfo: a sua trilha sonora. Ao que tudo indica, foram preservadas as mesmas gravações do antológico espetáculo montado pelo Balé Teatro Guaíra, dirigido por Naum Alves de Souza, baseado no poema homônimo de Jorge de Lima.

O disco “O Grande Circo Místico”, lançado em 1983, veio para redimir uma geração. Nós, que estávamos lá pelos vinte e poucos anos naquele período, já estávamos fartos de ouvir dos mais velhos que, em nossa idade adulta, não contávamos com nenhum álbum de música brasileira de fato genial.

E era verdade. Por melhores que fossem os lançamentos, nada chegava aos pés dos antológicos discos de Caetano, Gil, Paulinho da Viola, Milton Nascimento e os próprios Edu Lobo e Chico Buarque das décadas anteriores. Quando “O Grande Circo Místico” chegou, o brandíamos feito bandeira. Era, sem a menor sombra de dúvidas, o melhor álbum que a nossa música produziria naquela década.

O disco era todo formado por canções perfeitas, a quintessência de dois compositores em plena forma. Por mais incrível que aquilo poderia parecer, Edu Lobo jamais havia escrito melodias tão refinadas e lindas ao mesmo tempo em que Chico Buarque, o grande poeta da nossa canção, se superava fartamente.

Como se tudo isso não bastasse, foram escolhidos a dedo intérpretes que davam a impressão de terem nascido cantando aquelas canções. É impossível dissociar a linda “Beatriz”, da voz de Milton Nascimento; “Sobre Todas as Coisas” da intensa interpretação de Gilberto Gil, onde apenas voz e violão dão um sentido épico e profundo ao todo.

A coisa ia ainda mais longe. Tim Maia, que até então não fazia parte muito próxima daquele clube, reinventou a curiosa canção “A Bela e a Fera”, em uma interpretação ao mesmo tempo irônica e lírica. O disco transbordava em beleza e acuidade. Gal Costa realizou outra das interpretações que perpetuou a sua carreira à canção “A história de Lily Braun”, conseguindo leveza, sensualidade e uma certa melancolia.

Jane Duboc, talvez a única de todo o elenco que injustamente não se tornou uma grande estrela, acerta em cheio na “Valsa dos Clowns”; Simone canta lindamente “Meu Namorado” e Zizi Possi está definitiva na canção título “O Circo Místico” que, de certa forma, previa a grande guinada que ela daria na sua carreira.

O disco ainda conta com outras pérolas, entre elas a “Ciranda da Bailarina”, cantada por um coro infantil; “Opereta do Casamento” por um coro e “Na Carreira”, a única interpretada pelos autores. Na sua versão original, a única faixa instrumental era “A Abertura do Circo”. À medida em que outras versões foram aparecendo, tanto em CD quanto nas plataformas de música por demanda, várias outras versões que compunham o balé foram sendo anexadas.

O disco ainda guarda mais um trunfo, que são as orquestrações e regências do maestro Chiquinho de Morais. Além, é claro, dos grandes músicos envolvidos em sua gravação.

O resultado final é um álbum primoroso de ponta a ponta, onde o único defeito da gravação original são as intervenções da censura, com o corte de algumas palavras, entre elas “pentelho”, da “Ciranda da Bailarina”.

Uma grande obra prima que volta com o filme de Cacá Diegues.