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08 de janeiro de 2019, 13h11

O grito dos que não se rendem: “Quem matou Marielle?”

Monica Benicio, sobre os 300 dias do assassinato da ex-vereadora: “Não apresentar resposta a um crime político, bárbaro e hediondo como o de Marielle é, dentre muitas coisas, a confirmação da barbárie que se instaura em nosso país”

Foto: Reprodução

Há dez meses, nas bandeiras da pátria livre, uma submetralhadora, quatro tiros e ela partia.

Seu assassinato foi manchete e causou indignação em todo o mundo. Impactou e sensibilizou brasileiros e brasileiras de todas as regiões. Gerou inúmeras homenagens, debates e atos. Foi comentado e discutido em cada casa, em cada esquina. Já virou tema de artigos, pesquisas e monografias. Nesses trezentos dias, sua morte foi um dos temas mais comentados nos veículos de comunicação, virou peça de teatro na Itália, nome de rua na Alemanha e seu nome foi imortalizado. Houve tempo para que tudo isso acontecesse, mas não para que os mandantes do crime e seus executores fossem identificados e a justiça fosse feita.

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A quem diga que nunca saberemos o que de fato ocorreu. Outros que acreditam que saber quem matou não fará diferença, ou porque que não diminui a dor, ou porque não acreditam em nossa justiça.  Há também os que não se importam. Aqueles e aquelas que não compreenderam a dimensão de seu assassinato, que não possuem nenhum grau de empatia ou que compartilham dos ideais e práticas de seus assassinos. Mas há ainda os que não se rendem, os que teimam em perguntar quem mandou matá-la e por quê. Os que insistem que se faça justiça e assim se respeite sua história e sua memória. Esses somos nós.

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Nós, sujeitos e sujeitas, que como ela, nunca deixamos de sonhar com uma vida melhor, menos desigual. Que não perdemos a mania de acreditar no próximo, no ser humano. Que mesmo com tanta crueldade, injustiças e violência contra os nossos, seguimos lutando. Nós, que nos reconhecemos em nossas diferenças, que discordamos, brigamos, rimos, fazemos carnaval e choramos juntos. Que em meio a um luto profundo conseguimos nos tornar mais humanos, mostrar o melhor de nós.

Sua morte representa um marco em muitos aspectos, mas com certeza um deles foi a ressignificação que trouxe para as relações, para o sentido de solidariedade, de empatia. Em meio a tanta dor, nós, família, amigos e seus companheiros de militância descobrimos uma rede de afeto sem precedentes. Mãos, ombros, colos e inúmeros gestos de acolhimento que marcaram estes trezentos dias. A famosa frase de Che: “Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros” também foi ressignificada. Hoje, sem nenhuma arrogância, podemos dizer que se você se indigna com seu assassinato e não se rende, então estamos do mesmo lado, somos companheiros e companheiras.

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E seguiremos, companheiros e companheiras, perguntando todos os dias quem mandou e por que mandou matá-la.  Faremos isso de muitas formas, em diferentes espaços, canais e instâncias.  Não nos rendemos. Vamos insistir, persistir e seguir afirmando que identificar mandantes e assassinos é parte fundamental para mantermos a crença na justiça. Mas para além disso, é o respeito a sua história, a tudo que marcou sua existência. É também o direito de podermos seguir. De seguirmos com nossa dor que nunca deixará de existir, com sua memória que nunca se apagará e mesmo assim seguiremos.

Não apresentar resposta a um crime político, bárbaro e hediondo como o de Marielle é, dentre muitas coisas, a confirmação da barbárie que se instaura em nosso país. É uma tentativa explícita de fazer a gente desistir, aceitar que tirem nossas casas, empregos, nossos filhos, nossa dignidade, de amar quem quisermos e viver como quisermos, que nos matem e que calem os que ficam. Mas uma tentativa em vão. Porque não nos rendemos, nem nos últimos trezentos dias, trezentos anos e nem nos próximos.  Nosso grito ecoou e sempre ecoará: “Negro entoou, um canto de revolta pelos ares – Quem matou Marielle”?

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