Cinegnose

por Wilson Ferreira

15 de abril de 2015, 15h43

O Homem-Aranha e a auto derrota do PT

Em uma das suas intermináveis lutas na franquia Homem-Aranha, o super-herói, cansado e perplexo depois de mais uma batalha contra vilões bizarros, desabafa: “de onde vem toda essa gente?”. Diante das manifestações Anti-Dilma as esquerdas parecem tentar responder à mesma pergunta perplexa do Homem-Aranha:de onde vêm os manifestantes? Eleitores do Aécio? Classe média branca? Conspiração de magnatas do petróleo dos EUA de olho no pré-sal? Há um “elemento de auto derrota” histórico nas esquerdas, como afirmava o filósofo Herbert Marcuse – o pragmatismo e o economicismo que ignoram a base imaginária e psíquica do funcionamento das ideologias. Enquanto isso, a Direita sabe “de onde vem toda essa gente”: ouve a sociedade profunda por meio de pesquisas etnográficas que perscrutam os novos perfis psicográficos chocados pelo neodesenvolvimentismo do PT.

Depois de enfrentar o Homem-Areia que tentava roubar o dinheiro de um carro-forte, o Homem-Aranha dispara sua teia e salta para um topo de um prédio. Exausto, tira sua máscara e as botas cheias de areia depois de ter sido obrigado a se engalfinhar com o vilão. E então, o herói desabafa: “de onde vem toda essa gente?…”. 

Essa é uma sequência do filme Homem-Aranha 3, mas o estado de espírito do herói ao mesmo tempo cansado e perplexo guarda suas analogias com as reações das esquerdas ao ver a escalada neoconservadora que culminou com os protestos anti-Dilma do dia 15 de março.

Homem-Aranha: “De onde vem toda essa gente?”

E o principal deles, na Avenida Paulista em São Paulo, onde milhares de manifestantes revelaram uma bizarra combinação de tipos humanos: militantes da TFP (Tradição, Família e Propriedade – organização católica tradicionalista) recolhendo assinaturas em defesa da Família Brasileira; pessoas dando parabéns a policiais militares e pedindo a eles que dessem um golpe na presidenta Dilma; famílias que entre alguns gritos de slogans raivosos davam um tempo para selfies como se estivessem em algum parque temático político;  jovens que em conversas confundiam os conceitos políticos de Direita e Esquerda (dislexia política?); outros protestavam contra a ameaça da “ditadura comunista” e da “ditadura gay” (o que deve ter chamado a atenção dos militantes da TFP, sempre ávidos por mais assinaturas para seu abaixo-assinado), um manifestante carregando uma bandeira do movimento integralista pedia o fim dos partidos e sindicatos…

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O elemento de auto derrota

De onde vem toda essa gente? Talvez a primeira pista esteja na fala do filósofo Paulo Arantes, durante o encontro dos seminários da FFLCH-USP. Remetendo a uma tese clássica da esquerda europeia dos anos 30 de que o fascismo é uma expressão da derrota da esquerda, afirmou: “Se você tem uma massa revoltada, proletária e que vai te massacrar é porque você perdeu. A outra coisa que nos dá medo é o que nós perdemos”.

Isso lembra as reflexões de outro filósofo, Hebert Marcuse, que em seu livro Eros e Civilização de 1966 apontava para um “elemento de auto derrota” em todos os movimentos revolucionários que tentaram abolir formas de dominação e exploração: “Em todas as revoluções parece ter havido um momento histórico em que a luta contra a dominação poderia ter saído vitoriosa… mas o momento passou. Um elemento de autoderrota parece estar em jogo nessa dinâmica. Nesse sentido, todas as revoluções foram revoluções traídas” – MARCUSE, Herbert, Eros e Civilização, Zahar Editores, 6a edição, 1975, p.92.

Antes de entender esse “elemento de auto derrota”, as esquerdas buscam rapidamente racionalizações para, talvez no íntimo, encontrarem explicações tranquilizadoras para uma derrota anunciada.

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Segredos de polichinelo: magnatas do petróleo de olho no pré-sal – conspirações como álibi da auto derrota

Por exemplo, nas denúncias de que os magnatas do petróleo e da extrema-direita dos EUA, os irmãos Koch, poderiam estar bancando os “Estudantes Pela Liberdade”(EPL) ou as denúncias das supostas conexões do empresário Rogério Chequer, líder do grupo “Vem Pra Rua”,  com empresários brasileiros e com nomes do setor financeiro dos EUA.

Magnatas do petróleo de olho no pré-sal e empresários financiando movimentos golpistas? Ahh!!! Vááá!!!! Segredos de polichinelo que surgem como denúncias bombásticas para encontrar um álibi racionalizador que esconda esse “elemento de auto derrota” – auto-piedade e auto-indulgência que parecem sempre assombrar as esquerdas nos momentos decisivos de tentar consolidar projetos ou vitórias.

A instituição imaginária da sociedade

Mas o que é esse “elemento de auto derrota”?. Acredito que a resposta esteja conectada com a reposta da pergunta que faz o perplexo Homem-Aranha: de onde vem essa gente? Poderíamos então acrescentar: Qual serpente chocou os ovos de onde veio toda essa gente?

Cornelius Castoriadis

Marcuse, assim como outro filósofo chamado Cornelius Castoriadis (1922-1997), apontavam para displicência das esquerdas em relação à necessidade de compreender do funcionamento imaginário da sociedade: presos que estão ao pragmatismo da ação política e do economicismo, ignoram as bases simbólicas ou psíquicas do funcionamento das ideologias nas quais se fundamentam a instituição imaginária da sociedade.

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Por exemplo, Castoriadis   lembrava que a aplicação da chamada administração científica e dos métodos fordistas na Rússia pós-revolução bolchevique para acelerar o desenvolvimento econômico reproduziram as estruturas verticais de poder burguesas, contaminando a experiência socialista soviética, levando-a à ditadura stalinista – veja CASTORIADIS, Cornelius, A Instituição Imaginária da Sociedade, Paz e Terra.

Da mesma forma, a estratégia economicista ou neodesenvolvimentista dos governos petistas com a  inclusão de grande parte dos brasileiros na sociedade de consumo resultou nos ovos chocados pela serpente cujos filhotes agora armam o bote. Acreditava-se que, por si mesmo, a inclusão na sociedade de consumo significaria inclusão social e desenvolvimento da consciência de cidadania. 

Novos perfis psicográficos

Bem diferente disso, a última década mostrou o surgimento de uma variedade de novos perfis psicográficos ou tipos-ideais que esse humilde blogueiro vem mapeando em postagens recentes: – simples descolados, coxinhas, coxinhas 2.0, novos tradicionalistas, rinocerontes etc. – sobre esses tipos-ideais clique aqui e aqui.

A Direita compreende os novos perfis psicográficos

O crédito público educativo do FIES colocou milhares de brasileiros em faculdades privadas. Se por um lado proporcionou a oportunidade de inclusão e melhoria de vida, por outro permitiu que fossem, durante quatro anos de curso, diariamente doutrinados nas salas de aulas dentro da ideologia da meritocracia e empreendedorismo – a percepção de que o sucesso é puramente individual, ignorando de que também é o resultado de um investimento da sociedade no indivíduo.

 

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