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17 de junho de 2018, 03h43

O João Sem Medo que peitou os militares às vésperas da Copa do Mundo

Um dos maiores nomes da história do jornalismo esportivo brasileiro. Um dos raros jornalistas a vencer como técnico de futebol.

Foto; Acervo EBC
O ano era 1970. O Brasil, forte favorito a conquistar o tricampeonato no México com uma campanha arrasadora nas Eliminatórias. Mas havia naquela delegação alguém que irritava o comando do país. Um comunista que não batia continência para general. João Saldanha, ou o João Sem Medo, apelido dado pelo amigo Nelson Rodrigues, conduziria a Seleção Brasileira, ou melhor, as “Feras do Saldanha” para a consagração. Mas, pouco antes da Copa do Mundo, ele acaba derrubado. Duas semanas depois de afrontar o presidente Médici com uma declaração que entrou para a história. Um regresso no tempo ajuda a contar como a...

O ano era 1970. O Brasil, forte favorito a conquistar o tricampeonato no México com uma campanha arrasadora nas Eliminatórias. Mas havia naquela delegação alguém que irritava o comando do país. Um comunista que não batia continência para general. João Saldanha, ou o João Sem Medo, apelido dado pelo amigo Nelson Rodrigues, conduziria a Seleção Brasileira, ou melhor, as “Feras do Saldanha” para a consagração. Mas, pouco antes da Copa do Mundo, ele acaba derrubado. Duas semanas depois de afrontar o presidente Médici com uma declaração que entrou para a história.

Um regresso no tempo ajuda a contar como a relação entre o jornalista e treinador vinha desgastada com o Regime Militar. João Saldanha ajudava exilados políticos em viagens no exterior com a Seleção. “Saldanha era pombo-correio do Partidão e levava dinheiro para os exilados no Chile e no México. Evidente que a polícia política brasileira olhava ele, grampeava o telefone dele”, contou o sobrinho do jornalista e doutor em História pela USP, Raul Milliet Filho.

Saldanha sabia que a militância no Partidão poderia custar o cargo de treinador na Seleção Brasileira, mas entendia que havia uma causa maior acima do esporte. “Ele sabia que corria riscos. Mas o mais importante para a vida do meu tio não foi o futebol, foi a atividade política dele. Tanto que ele aproveitava o esporte para fazer a atividade política”.

Em 1969, morre um dos grandes amigos do João Sem Medo, o guerrilheiro Carlos Marighella. A morte do companheiro do Partidão intensificou a vontade de revelar ao mundo os horrores do período militar. Saldanha entregava aos jornalistas, em viagens como treinador da Seleção, listas de mortos e desaparecidos políticos. Uma das relações apresentava mais de 3 mil nomes. “Saldanha ficou com muita raiva da forma como Marighella foi assassinado. Ele denunciava prisões políticas de outros companheiros, de todas as organizações de esquerda. Embora o PCB fosse contrário à luta armada. Conversando com os jogadores isso via à tona. Principalmente com o Tostão”.

O jornalista e treinador denunciou a jornalistas de todo o mundo nomes de presos, mortos e desaparecidos políticos. Foto: Acervo EBC

O apelido João Sem Medo vinha da forma impetuosa como o jornalista apresentava as opiniões em crônicas no Jornal do Brasil, no rádio e na televisão. Não foram raras as vezes que Saldanha “trocou gentilezas” com o jornalista Armando Nogueira, colega de bancada na até hoje apontada como a mais importante mesa redonda do futebol na televisão, a ‘Resenha Facit’. Um dos programas por pouco não acaba em tragédia. O bicheiro Castor de Andrade, na época o homem forte do time do Bangu, invadiu armado o estúdio de televisão para tirar satisfações com Saldanha. Em outra ocasião, o goleiro Manga teve de sair fugido da comemoração de um título porque o então treinador havia ficado insatisfeito com a atuação do jogador na partida e disparou tiros para o alto.

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Se não havia medo ao tecer comentários incisivos nos veículos de comunicação, Saldanha temia o que as consequências da atividade política poderiam trazer para a família. A filha do jornalista, Ruth Saldanha, contou à reportagem que viveu com nove anos de idade e que retratava o medo de ser mais uma vítima da repressão no Brasil. “Ele pediu para eu pegar jornais que estavam em bolsas de supermercado e queimar no tanque de casa. Eram jornais clandestinos. A gente foi tirando aos poucos e queimando tudo. Eu fiz isso por muitos dias. Era um período muito tenso. De conhecer pessoas e nunca mais vê-las”, recordou.

“O comentarista que o Brasil consagrou”

Diante de um período de caça aos comunistas, o leitor que não viveu aquele período poderá se perguntar como um comunista foi parar no comando da Seleção Brasileira. Nos anos 60, o país respirava futebol e a vitória ou derrota da Seleção Brasileira determinava o humor do brasileiro com o país. O escrete comandado por Vicente Feola fez uma de suas piores exibições em Copas do Mundo em 1966. Era necessário o reencontro com o povo. O nome do “comentarista que o Brasil inteiro consagrou”, forma como era anunciado no rádio, surgiu como a solução perfeita para a recuperação do prestígio perdido.

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A solução se revelou um sucesso no campo. Saldanha já havia experimentado a consagração como treinador campeão pelo Botafogo. Ao chegar à Seleção, trouxe novos jogadores e mudou a forma de o Brasil jogar. A campanha nas eliminatórias foi demolidora: 23 gols marcados e apenas dois sofridos. Um jogo, que parecia ser fatura liquidada antes da bola rolar, começou difícil para a seleção. O primeiro tempo contra a fraquíssima Venezuela acabou 0 a 0.

“Pra jogar essa porcaria, vocês fiquei aí no campo”, disse Saldanha a Pelé, Gerson e cia. no intervalo do jogo contra a fraca Venezuela. Foto: Acervo EBC

“O time venezuelano era pior do que é hoje. O Brasil fez um primeiro tempo horroroso, perdeu vários gols feitos. O João chamou o time e disse pra eles: “Pra jogar essa porcaria vocês fiquem aí em campo” e jogou a chave do vestiário fora . Além de entender de tática, ele sabia mexer com o brio dos jogadores. O jogo acabou 5 a 0 pra nós”, lembrou Milliet.

Chegamos a março de 1970, duas semanas antes da viagem para a Copa do Mundo no México. João Saldanha havia viajado algumas vezes ao país sede da Copa ao lado de um militar da Escola de Educação Física do Exército para preparação dos jogadores quanto ao clima, altitude e horário dos jogos.

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Circulava no meio esportivo o burburinho da exigência da escalação do atacante Dario por parte do então presidente da época, o general Emílio Garrastazu Médici. O jogador do Atlético Mineiro era um atacante preciso, mas sem a categoria das “Feras do Saldanha”. Em uma viagem ao Rio Grande do Sul, estado natal, Saldanha saiu com a seguinte resposta a um radialista sobre a insistência do general.

“Eu e o presidente temos muitas coisas em comum. Somos gaúchos, somos gremistas, gostamos de futebol. Nem eu escalo o ministério e nem ele escala time. Você vê que nós nos entendemos muito bem”. Duas semanas depois, a CBD presidida por João Havelange anunciava a demissão de João Saldanha. Em um artigo, Nelson Rodrigues escreveu: “A demissão de João Saldanha foi uma manobra digna de nosso vômito”.

Engana-se quem pensa que a demissão da Seleção deprimiu o treinador. O homem que liderou uma guerrilha de camponeses contra senhores de terra, em 1950, no Paraná e, um ano antes, tomou um tiro da polícia no pulmão em uma invasão da sede da UNE no Rio, voltou a fazer o que mais gostava: jornalismo e política. Chegou a ser candidato a vice-prefeito no Rio de Janeiro, em 1985. Dois anos depois, concedeu uma entrevista ao programa “Roda Viva”. Saldanha definiu o presidente militar que ousou enfrentar em apenas uma frase.

“Eu considero Médici o maior assassino da História do Brasil”.

João Saldanha morreu em 1990, na Itália, vítima de enfisema pulmonar durante a Copa do Mundo que comentava para a Rede Manchete de Televisão .

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