08 de outubro de 2018, 12h48

O jogo político sombrio para eleger Bolsonaro

A lógica ilógica é a seguinte: cometer crimes para acabar com a criminalidade; criar mentiras para combater a mentira; usar a violência para combater a violência. É assim que se acabará com a corrupção e com a violência no país. A técnica é da Gestapo

Foto: Reprodução

Uma coisa é um Enéias ter a maioria dos votos para deputado federal, Tiririca etc. O problema é ter um homem branco que posa com armas na mão, camisa de torturador, incentivando os seus eleitores a cometer um crime: o de filmar a urna no momento do voto. É a vitória dos nanicos, da extrema direita, mas também de Davi contra Golias.

A nossa noção de violação é muito turva. Racismo não é um crime capaz de denegrir a imagem de alguém, violar as leis do TRE no processo  eleitoral, criar fake news etc.. Nada disso é considerado imoral ou ilegal se for em nome da legalidade. Essas formas de corrupção dos valores e da lei são, reconhecidamente, formas válidas de combater a corrupção.

A lógica ilógica é a seguinte: cometer crimes para acabar com a criminalidade; criar mentiras para combater a mentira; usar a violência para combater a violência. É assim que se acabará com a corrupção e com a violência no país. A técnica é da Gestapo.

A mídia nada diz, apenas comenta superficialmente, a Justiça, por sua vez, faz apenas declarações rasas, mas não pune as irregularidades  que conduziram a campanha dos candidatos do PSL. E o candidato que quebrou a placa em homenagem a Marielle é o mais votado para a Alerj, assim como Eduardo Bolsonaro, o aliciador de crime eleitoral, que acabou sendo o deputado federal mais votado da história. Enfim, existe um jogo de poder nas sombras.

Não se trata de fascismo ou de ditadura. Trata-se da proposta econômica mais interessante para aqueles que bancam os que tem direito à fala pública. Os mesmos que bancam a campanha de Bolsonaro são os que bancam a grande mídia, como o agronegócio, as multinacionais, igrejas, empresários, banqueiros etc.. Se foi a Internet que colocou Bolsonaro no segundo turno, é porque a Globo é a corporação que tem mais notícias compartilhadas nas redes sociais, seguida da UOL, Record etc..

Quem escuta as rádios dos conglomerados midiáticos, as notícias da sua imensa cadeia, percebe a posição da corporações milionárias em favor da privatização, da redução do Estado e outras propostas defendidas pelo candidato do PSL. Eles insistem, por meio de uma eloquência pobre, que Bolsonaro precisa mudar o discurso, mas nunca falam (de forma clara) que ele deve mudar as propostas econômicas.

No sentido moral, as elites sabem que o problema não é Bolsonaro, mas os seus seguidores. Não será aprovada nenhuma lei racista, homofóbica etc., o máximo que pode vir a acontecer (e o que seria igualmente uma catástrofe) seria algo similar ao que aconteceu com Hitler, onde a SS matava judeus sem que houvesse uma lei para isso. Num primeiro momento, é possível que haja uma perseguição insana à esquerda, às travestis, índios e terreiros de candomblé, mas a Justiça, que não precisará ser mais negligente, porque o seu candidato já estará no poder, irá finalmente atuar.

Há em tudo isso uma questão de orgulho dos togados. “Como o PT vai vencer se nós prendemos o seu principal líder? Nossa autoridade não serve de nada?”. Isso jamais poderia acontecer.

Existe uma arquitetura política inebriante. As elites desejam a privatização e é isso que o candidato do PSL fará: “Agora, (nós temos mais de) 140 estatais, acredito que mais de 100 dá para privatizar tranquilamente”1, afirmou. Mas como uma massa de servidores públicos deixam de pensar nos direitos que possui agora, depositando, cegamente, a fé em Bolsonaro?

As elites usam a fé religiosa do povo para poder difundir seus interesses políticos. A Assembleia de Deus e a IURD, são as denominações religiosas que mais cresceram nos últimos anos. É praticamente impossível impedir sua chegada ao poder. Todos os partidos com vínculos religiosos propagam a venda das estatais, fim dos direitos trabalhistas e outras pautas que agradam o empresariado. Por isso, temos que levar em consideração, como nos alerta a historiadora Aline Coutrot, que as forças religiosas “fazem parte do tecido do político, relativizando a intransigência das explicações baseadas nos fatores sócio-econômicos”.

Uma coisa é certa: Bolsonaro é o maior fenômeno político popular desde Brizola. Ele não leva ninguém enganado. Diz que vai privatizar, que vai tirar os direitos e o seu eleitor concorda plenamente com o que ele afirma. Este último foi persuadido por simpatizar da religião e da fala segura do candidato que parece sempre estar dando uma bronca no filho toda vez que enuncia suas posições.

Agora ele terá apoio de vários corruptos da Lava Jato, será financiado pelo agronegócio que odeia a consciência ecológica que, segundo o latifúndio, prejudica a produção. Várias indústrias que fabricam fertilizantes atualmente proibidos em vários lugares do mundo estão esperando (e financiando) a vitória de Bolsonaro para começar a vender por aqui, intoxicando crianças e adultos.2

Ao ouvir alguns eleitores de Bolsonaro é possível identificar a posição favorável ao fim do 13° salário e de outros direitos trabalhistas. Eles se apoiam no modelo norte-americano. O mesmo vale para as privatizações. Eles jamais conseguirão entender a diferença entre uma economia dependente, que é o Brasil, e a economia imperialista norte-americana. E por quê? Porque foram convencidos de que não existe diferenças no mundo, nem entre héteros e homos, brancos e negros, homens e mulheres etc. Esse raciocínio moral (que também é religioso) foi usado para pensar a economia.

O salário nos EUA é maior, as empresas são americanas etc. Aqui nós nos venderíamos para eles, já que não foi proposto nenhum investimento no microempreendedor. Empregaria-se menos porque o trabalhador teria de fazer mais atividades e com uma carga horária maior. Ou seja, precisaria de um menor número de trabalhadores. Bolsonaro, portanto, prega o desemprego, a desvalorização do trabalho em nome da valorização do lucro e da mercadoria.

Outra coisa precisa ser dita: o totalitarismo não vem de cima. As instituições brasileiras que produzem o discurso popular, já são fascistas. A mídia, as igrejas, o mercado, a Justiça… Como um candidato que induz o seu eleitor a cometer um crime não é punido com a impugnação de sua candidatura? As instituições precisam agora de um líder como elas, e farão de tudo para tê-lo.

A vitória da direita e dos partidos nanicos lembra a vitória de Davi contra Golias, porque Deus e outra forças interesseiras estão com eles.

 

1 https://www-correiobraziliense-com-br.cdn.ampproject.org/v/s/www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2018/09/04/interna_politica,703981/amp.html?amp_js_v=a2&amp_gsa=1&usqp=mq331AQCCAE%3D#referrer=https%3A%2F%2Fwww.google.com&amp_tf=Fonte%3A%20%251%24s&ampshare=https%3A%2F%2Fwww.correiobraziliense.com.br%2Fapp%2Fnoticia%2Fpolitica%2F2018%2F09%2F04%2Finterna_politica%2C703981%2Fbolsonaro-pretende-unir-ministerios-diz-30-saude-vai-para-o-ralo.shtml

2 https://diplomatique.org.br/dependencia-dos-agrotoxicos/