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15 de abril de 2019, 16h51

O melhor de Jorge Mautner em “Não há abismo em que o Brasil caiba”

Em seu novo álbum de inéditas, Mautner homenageia Marielle Franco e discorre sobre os novos/velhos tempos oscilando entre a esperança e a desolação

Jorge Mautner. Foto: Gustavo Peres/Divulgação
A melhor definição do novo álbum do cantor e compositor Jorge Mautner veio do amigo e colega Péricles Cavalcanti: “Reencontrando, ouvindo e curtindo, agora, o ‘jeito’ Jorge Mautner de compor e cantar (e ‘discorrer’, livremente, sobre tudo!) nesse seu novo álbum, “Não há abismo em que o Brasil caiba”. Há também uma inversão na frase de Péricles. Na verdade, bem próximo de completar inacreditáveis 80 anos, Mautner também se reencontrou com o seu melhor. Com o velho e bom vigarista Jorge que, ao lado do inseparável parceiro Nélson Jacobina, fez algumas das canções mais luminosas, inusitadas e modernas da nossa...

A melhor definição do novo álbum do cantor e compositor Jorge Mautner veio do amigo e colega Péricles Cavalcanti: “Reencontrando, ouvindo e curtindo, agora, o ‘jeito’ Jorge Mautner de compor e cantar (e ‘discorrer’, livremente, sobre tudo!) nesse seu novo álbum, “Não há abismo em que o Brasil caiba”.

Há também uma inversão na frase de Péricles. Na verdade, bem próximo de completar inacreditáveis 80 anos, Mautner também se reencontrou com o seu melhor. Com o velho e bom vigarista Jorge que, ao lado do inseparável parceiro Nélson Jacobina, fez algumas das canções mais luminosas, inusitadas e modernas da nossa música.

Foto: Divulgação

“Não há abismo em que o Brasil caiba”, a começar pelo nome, é Mautner no esplendor da criatividade do começo ao fim. O título veio de uma exclamação do filósofo português, Agostinho da Silva, morto em 1994. Em Lisboa, ao ser informado sobre a crise do governo Collor, o filósofo disse: “o Brasil tem um destino tão grandioso, tão grandioso, que não tem abismo que o caiba”.

Discursivo, polêmico, repleto de ‘kaos’ e esperança, o álbum traz um autor reflexivo, desolado e, ao mesmo tempo, exaltando à unha personagens e situações que revigoram e florescem o dia a dia no coração do deserto. Entre elas, a encantadora professora “Catulina”:

Dona Catulina, é uma professora de já certa idade
e ela monta em seu burrico, no jumento
E eles vão trotando 40, 80, 120km
Só pra ela descer do burrico
e ensinar as criancinhas a ler e escrever.

Com saltos entre o ancestral e o contemporâneo, sagrado e profano, injustiça e misericórdia, Mautner relembra e surpreende em uma quase notícia de jornal:

É preciso arrancar
Da medula dos ossos
Dos nervos até a epiderme da pele

Este medonho cancro
Que matou Anderson Gomes
E que matou Marielle Franco

Repleto de referências ao candomblé, religião que encantou o compositor desde cedo, por conta de sua babá Lúcia, que era ialorixá, “Não Há Abismo em que o Brasil Caiba”, foi produzido pelo grupo Tono, que é formado por Bem Gil, Rafael Rocha, Bruno di Lullo e Ana Cláudia Lomelino.

Uma das melhores, mais encantadoras e contundentes canções do álbum é “Bang Bang” onde o poeta e escritor volta ao seu melhor do melhor:

A bala perdida
Lá do bang bang
Abre uma ferida
De onde escorre o sangue

Que se esvai e vai
E a pessoa morre gritando
Ai, ai, ai, ai, ai

É tristeza em tom absoluto
Parece que ninguém se lembra
De Joaquim Nabuco

No final das contas, “Não há abismo em que o Brasil caiba” é mais um belo resumo da capacidade que Jorge Mautner tem em traduzir para todos, de forma alegre e extremamente brasileira, a sua verve e seu conhecimento descomunal em assuntos díspares vindos de todas as partes.

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