19 de setembro de 2018, 17h38

O mito do pobre de direita e o eleitor de Bolsonaro

"A ignorância do eleitor que nunca foi simpático aos assuntos políticos em distinguir princípios éticos de princípios políticos o aproximou da perspectiva conservadora proposta pelo deputado do PSL"

Reprodução/TV Globo

O jogador Lucas Moura do Totteham rebateu a um seguidor do Twiter que havia dito que o deixaria de seguir devido ao seu apoio ao candidato do PSL Jair Bolsonaro da seguinte forma: “Só segue quem tem a mesma opinião que você”. Muitos que defendem Bolsonaro utilizam esse argumento, esse lugar comum de que é apenas uma opinião. Mas será que essas pessoas sabem o que é realmente uma opinião? Ou melhor, será que eles realmente possuem uma opinião política?

Para o sociólogo Pierre Bourdieu, a opinião pública não existe. E uma das razões para isso (dentre as várias que enumera) é o fato de que “para responder adequadamente uma pergunta política é ser capaz de constituí-la enquanto política”.1 Não temos que, portanto, se quisermos agir sabiamente, pressupor que todas as pessoas possuem uma opinião política sobre um determinado tema.

Bourdieu, por meio de diversas pesquisas tanto na França quanto nos Estados Unidos, observou que diante de problemas relacionados a moral doméstica, relações entre os sexos etc.. as classes populares tem a tendência a adotar uma posição mais severa. “Ao contrário, sobre as questões de estrutura política, que colocam em jogo a conservação ou transformação da ordem social, e não apenas a conservação ou transformação dos modos de relação entre os indivíduos, as classes populares são muito mais favoráveis à inovação, isto é, a uma transformação das estruturas sociais”. Daí surge uma confusão tremenda. Há uma “oposição entre dois princípios da produção de opiniões: um princípio propriamente político e um princípio ético, sendo o problema do conservadorismo das classes populares produto da ignorância desta distinção”.

Quando um indivíduo expõe sua posição nas redes sociais, em muitos casos, ele reproduz essa ignorância, respondendo e dando sugestões políticas a partir de seus princípios éticos. A sua simpatia ao deputado Jair Bolsonaro (lógico que não me refiro aqui aos empresários interesseiros e aos jornalistas de aluguel) surge através dessa questão. O presidenciável construiu seu ethos político a partir do moralismo antes mesmo de expor suas propostas políticas, que ainda hoje, com menos de um mês antes das eleições, são um tanto vagas. A ignorância do eleitor que, por sua vez, nunca foi simpático aos assuntos políticos, em distinguir princípios éticos de princípios políticos o aproximou da perspectiva conservadora proposta pelo deputado. Hoje, no nível irracional que a adesão a sua pessoa atingiu, se o político defender qualquer aberração política, seus seguidores aceitariam sem refletir.

O curioso é que acreditam estar dando uma opinião política ao defender um regime que põe em risco a opinião política como o caso da ditadura militar. Acreditam estar dando uma opinião mas se trata apenas de uma relação de simpatia criada pela habilidade do orador de construir um ethos específico. Nesse processo, como explica Roland Barthes, “o orador enuncia uma informação e, ao mesmo tempo, diz: eu sou isto, não sou aquilo”.2

A autoridade pessoal do orador é formada de três “jeitos”. O primeiro é escolher o lado do “bem” (o cidadão de bem, por exemplo) depois de criar uma definição clara o que é o bem e mal. O segundo é a exibição “de uma franqueza que não teme as consequências e se exprime mediante asserções diretas, impregnadas de uma lealdade teatral” (dizer que não entende de economia, por exemplo). E a última é não entrar em choque, não provocar, “ser simpático, entrar numa cumplicidade complacente com relação ao auditório” (adotando a estética da zoeira, por exemplo).3 Assim Bolsonaro consegue dizer aos seus eleitores: sigam-me, estimem-me e gostem de mim.

Portanto, não podemos dizer que se trata apenas de uma questão de opinião, porque o seguidor de Bolsonaro não tem uma opinião, pelo menos uma opinião política. Ainda podemos entender que a ignorância em confundir os dois tipos de opiniões pode acarretar em algo novo, isto é, em uma ausência completa de opinião.

Podemos constatar esse aspectos em outros eleitores? Não tanto quanto nos eleitores de Bolsonaro. Os outros candidatos também constroem um ethos e tenta persuadir através deles, mas as suas propostas são muito mais evidentes. Alguns tem repulsão ao Alckmin por causa das privatizações, outros apoiam o Lula e PT pelo o que fizeram pelo Brasil, principalmente no nordeste. A adesão e a repulsa nestes casos não são baseadas apenas em princípios éticos. Isso explica, inclusive, o crescimento de Haddad nas últimas pesquisas entre a população mais pobres e no nordeste do país.

Não se trata de ser pobre ou não, mas da ignorância em separar princípios políticos de princípios éticos. Caso o indivíduo não for um empresário, grupo que sairá beneficiado com a política que tira os direitos trabalhistas, ou com as privatizações etc., o voto em um representante conservador acaba estando atrelado a questões morais. É disso que se trata.

Sendo assim, o eleitor que pretende ser consciente precisa esforçar-se ao máximo para por de lado (ainda que de forma equilibrada) os aspectos inconscientes. Precisa separar o joio do trigo. As pesquisas por sua vez também precisam considerar esses aspectos morais, porque se não somos obrigados a concordar com Bourdieu de que a opinião pública não existe.

 

1 BOURDIEU, P. A opinião pública não existe. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/1464421/mod_resource/content/1/A_Opini%C3%A3o_P%C3%BAblica_N%C3%A3o_Existe_%28Pierre_Bourdieu%29.pdf

2BARTHES, Roland. A aventura semiológica. Trad: Mário Laranjeira. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 78.

3 Id.