14 de setembro de 2018, 13h28

“O mundo esquece tanto que nem sequer dá pela falta do que esqueceu”

Monica Benicio cita frase do escritor português José Saramago para relembrar os seis meses da execução da companheira Marielle Franco, até agora um crime sem solução

Foto: Arquivo pessoal

Cento e oitenta e quatro dias; seis meses; metade de um ano. Essa é a mensuração do tempo da execução de Marielle. Para mim, uma vida toda levada. O amor da minha vida, arrancado de mim. Desde então, os dias se confundem, alguns são longos demais, outros curtos para o tamanho da jornada sem ela. Não há mais distinção entre semana, feriado e finais de semana. Todos têm o mesmo propósito: lutar e seguir. Às vezes, essa luta parece estar acontecendo há tanto tempo que pesa, a dor se torna física, o corpo reclama. Outras vezes parece estar apenas começando, e a alma dilacerada sofre como no primeiro dia. Quando nos arrancam barbaramente aqueles/as que amamos, nossa contagem do tempo nessa vida é zerada. É como se nos reiniciassem todos os dias. O tempo é ressignificado para nós que ficamos.  Passamos boa parte dele buscando apenas seguir com a dor que temos. Mas, como tenho dito repetidamente: a dor é de que tem. E esse texto não é para falar da minha, mas da nossa dor. Dos que têm memória e dos que buscam, através dela, construir uma sociedade melhor.

O assassinato de Marielle chocou o mundo e provocou uma enorme consternação entre as pessoas. A forma como ocorreu, a audácia e a crueldade dos criminosos, mas, principalmente, por se tratar uma figura que tinha apelo popular, levaram sua execução a ganhar destaque. Diferentemente da maioria dos representantes políticos do nosso país, sua identidade era da mulher negra, favelada, batalhadora, comprometida e que fazia um trabalho sério em defesa das ditas minorias. Era vista como “gente como a gente”. Com certeza, isso contribuiu para a tristeza e o abatimento coletivo com sua morte. Ela representava para a maioria das pessoas, que nem a conheciam, mas que por essa identidade se sentiam próximas, a esperança tímida na mudança.

Desde então, foram inúmeros atos, homenagens das mais diversas possíveis, produção de materiais, músicas, filmes, textos e muitas palavras de ordem nas ruas: Marielle presente! Nas redes sociais, muitas hashtags e muitos posts de solidariedade com a família. E, sim, todas essas manifestações foram e são fundamentais, tanto na esfera pessoal, para nos dar energia e força para seguir, quanto publicamente, na cobrança por justiça. Mas hoje chegamos a um momento divisor de águas para que sua execução não se torne mais um “caso”, para que essas ações em sua homenagem não se tornem protocolares e que gritar “Marielle presente” não perca seu real sentido.

São seis meses sem resposta. Sem que o Estado brasileiro consiga, de fato, apresentar o resultado das investigações. Solucionar seu assassinato, julgar e prender seus mandantes e executores, é o primeiro e fundamental passo para que se faça justiça. E aí temos que nos perguntar o que estamos fazendo em relação a isso? A imprensa tem cumprido seu papel? Como nossos parlamentares estão atuando? E os movimentos? Ainda estamos nas ruas exigindo justiça? A conjuntura é dura, temos um ano eleitoral e muitos golpes sendo dados contra nós todos os dias, mas não podemos permitir que isso diminua nosso empenho e compromisso com esta luta, que não é minha, apenas porque perdi minha companheira, mas de todos que se levantam para dizer que todas as vidas importam, que reivindicam a construção de outra sociedade.

Outro passo importante é a manutenção de sua memória. E isso se faz com o prosseguimento a seus projetos, à sua luta política, na defesa do que ela morreu acreditando: uma vida mais justa para todos e todas. E não com o uso e a exploração de sua imagem. Legado não é sinônimo de substituição. Não substituímos aqueles/as que tombam em batalha. Nós damos seguimento à luta. É o que hoje esperamos, quando, por exemplo, apoiamos as candidaturas de mulheres e, especialmente, mulheres negras. Ocupar os espaços da política institucional é um caminho essencial para a construção do seu legado.

“Um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado”. Temos recebido muito apoio internacional e nesses últimos meses estive em muitos países conhecendo histórias de luta e construção de memória. Aprendendo que não nos esquecermos de nenhum de nós e não banalizarmos qualquer perda deve ser estruturante de nosso projeto de sociedade. “Justiça por Marielle” é, portanto, uma luta importante daqueles e daquelas que desejam construir essa sociedade mais justa, igualitária, definida pelo amor e não pelo medo. Eu não esquecerei. Nós não esqueceremos.  E seguiremos com esperança, pois: “Num país como o Brasil, manter a esperança viva é, em si, um ato revolucionário” (Paulo Freire).