Ativismo de Sofá

por Flávia Simas, Kel Campos e Thaís Campolina  

12 de março de 2016, 14h46

O não também nos pertence

Texto de Thaís Campolina

A cada uma hora e meia, uma mulher morre vítima de violência masculina no país. Nas notícias de vários feminicídios lemos “inconformado com o fim do relacionamento”, “a vítima não aceitou começar um namoro” ou “insatisfeito que a ex não quis voltar com ele” e tais frases mostram como os agressores não aceitam o “não” de uma mulher.

Esse desrespeito ao direito de dizer “não” existe porque esses caras encaram a nossa negativa como uma afronta, uma humilhação, porque eles nos vêem como inferiores. Tão inferiores que, para eles, isso é o suficiente para “justificar” um assassinato, um estupro, um soco ou a divulgação de imagens íntimas de uma mulher na internet para que ela seja humilhada e xingada.

Tais crimes não são uma questão de amor demais, de paixão ou de doença. Não são casos isolados, são casos que acontecem rotineiramente contra um grupo específico de pessoas: as mulheres. E é preciso reconhecer isso.

Mulheres são vistas como posse, como objeto, como seres que devem obediência aos homens e é o machismo que é o responsável pela visão da mulher como ser que vale menos. Ignorar a questão de gênero presente nesses crimes impossibilita um combate efetivo contra eles.

O não de uma mulher revolta quem nos vê como “segundo sexo”, porque a negativa representa que temos vontades, que temos sentimentos, que sabemos que não devemos submissão a ninguém. O não é visto como uma afronta porque ele representa a prova de que a gente se vê como seres humanos, como indivíduos, como gente e isso incomoda quem não nos vê assim. E esse incômodo pode, num nível extremo, se transformar em crimes. É preciso reconhecer que crimes de gênero são vistos como uma forma de punir a ousadia de acharmos que valemos o mesmo tanto que eles.

O feminismo nunca matou ninguém O machismo mata todos os dias

O feminismo nunca matou ninguém
O machismo mata todos os dias

A concretização de um crime contra uma mulher, especialmente de um assassinato, é uma consequência extrema do machismo e da misoginia. Por trás desses crimes, tem uma sociedade que culpa a vítima dizendo que ela deve ter dado a entender alguma coisa, que diz que ela deveria observar melhor com quem ela se relaciona, que diz que ela deve ter provocado. Por trás desses crimes, tem uma sociedade que romantiza relacionamentos abusivos, que diz que ciúme é demonstração de amor e que fala que é normal um cara controlar com quem você conversa e as roupas que você usa. Por trás desses crimes, tem uma sociedade que fala que mulher é inferior, que tem que pagar menos paras mulheres mesmo e que mulher tem mais valor quando está acompanhada por um cara.

É preciso ensinar os homens que temos direito a dizer não e que mulher nenhuma deve um sim para eles. E que um sim uma vez não significa que ele vale para sempre. A verdade é que é preciso ensinar os homens a verem mulheres como gente. E ignorar que o cerne da questão é esse não ajuda a gente impedir que esses crimes aconteçam, pelo contrário, o não reconhecimento disso é uma negligência.

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