03 de setembro de 2018, 18h44

O narcisista de direita

O narcisista de direita não se importa com museus ou galerias de arte e chama de mito um candidato que ignora a história de seu país

Foto: Reprodução/Facebook

A personalidade triunfa sobre as classes em uma sociedade narcisista. As pessoas agem irracionalmente perante a personalidade coletiva, esquecem seus próprios interesses e ficam hipnotizados pelas palavras imponentes do orador. A retórica dele impõe o silêncio dos outros. Todos movem-se fascinados, mulheres tornam-se antifeministas, gays homofóbicos, negros racistas, trabalhadores burgueses, funcionários públicos privatistas, adultos crianças.

A personalidade política se transforma em uma pessoa coletiva, fazendo com que as pessoas acreditem mais nele que nas ideias. E, por sua vez, “a comunidade política se torna moralista, mais do que ideológica”. Richard Sennet destaca que “aqueles que reconhecem a si mesmos nesse indivíduo não precisam falar diretamente uns com os outros”.1 Na cultura narcisista não se pensa mais na ideia, mas na pessoa.

Vivemos em uma era em que as massas resolveram falar de política, justamente em um momento narcisista onde os interesses individuais sobrepõem-se ao interesse coletivo. Este último nem existe mais. Encontramos esses elementos tanto nas esquerdas quanto nas direitas. Os primeiros passaram a valorizar o mercado livre do eu. Luta-se pelo direito de ser reconhecido. O gay, o negro, a mulher, tais causas são fruto da cultura narcisista que formou a nova esquerda. É a luta pela identidade. “A política degenera em uma luta, não para uma mudança social, mas para a auto-realização”.2

O narcisista de direita se encontra na nova classe C que se ampliou durante o governo Lula. E uma analogia intrigante pode nos ajudar a compreender esse novo ser. Christopher Lasch nos mostra que em uma cultura narcisista há um grande horror à velhice e à morte: “o envelhecimento implica um terror especial para os que temem a dependência e cuja autoestima requer a admiração geralmente reservada à juventude, à beleza, à celebridade ou ao encanto pessoal”. O narcisista é incapaz de aceitar que uma geração mais jovem possui “agora muitas gratificações, antes apreciadas, de beleza, riqueza, poder e, particularmente, de criatividade”. E faz de tudo para se manter jovem, em forma, não quer ser deixado para trás, jamais se convencerá que está na hora de dar a vez.

O narcisista de direita pensa a mesma coisa em relação as classes subalternas. Em meio ao cenário de crise, à medida em que vai perdendo seus privilégios, não aceita ideia de que os mais pobres possam chegar onde chegaram. Eles não podem ter “facilidades”, seria como se estivessem furando a fila rumo ao sonho americano. 3 A crise econômica vem prejudicando o poder de compra dessa classe média, ameaçando sua glória, como a velhice que tira paulatinamente a disposição juvenil. Essa classe não vê problema algum em fechar as portas que dão acesso ao andar que povoa, pensa apenas em não regredir a condição de pobre de onde veio. Reina agora a ética da autopreservação. É a favor do corte de gastos públicos, e acredita que todo o mal reside no bandido, o demônio que não o deixa usufruir dos elementos narcísicos que geram sua felicidade.

Depois que se atingiu certo patamar, não se importa mais com os conflitos sociais, substitui o termo “classe” por “cidadão de bem”. Não existe mais classe dominante e dominada, apenas o cidadão de bem e os que impedem a realização deste projeto narcisista. A questão não é mais econômica, mas moral. Portanto, não existe mais ideologia, apenas moralismo. Sem o conflito de classe, a questão é apenas a ira contra os que impedem o eu de se realizar na figura do cidadão de bem, trabalhador (não existe mais patrões), consumidor. A história deixa de ser movida pelas lutas de classes, e passa a ser entendida como a luta pela realização do eu. Não existe mais humanismo. Não se pensa mais no ser humano, mas no cidadão de bem e, caso não se encaixe nessa categoria, lhe é desejada a morte. Não deve mais existir políticas para os pobres, mas para o cidadão de bem. Será que um dia esse conceito irá substituir o já deprimente conceito de nação?

O narcisista de direita projeta sua personalidade em um representante que se identifica com ele, que fale o que ele falaria olhando para o espelho. Ele não quer progresso social, quer apenas ser reconhecido como um cidadão de bem.

Observa-se também o fato de a “militância” de direita hoje ser forte nas redes sociais. Esse é o lugar do narcisista, seu lar por excelência, pois os que entram nesse ciberespaço sabem que estão sendo vigiados e assim desejam. Ali se expõe a vida íntima valorizando de forma fanática a felicidade, o corpo e o prazer. As enquetes realizadas nas redes sociais colocam o candidato de direita em primeiro lugar.

Essa classe média não pensa mais no autocrescimento, mas na autopreservação. Dane-se o futuro, dane-se o passado, tudo deve ser feito para a manutenção da condição presente. É nesse momento que, segundo Paulo Freire, “se instaura um clima de ‘irracionalidade’, que gera novos mitos auxiliares para a manutenção do status quo”.4 Assim, o narcisista de direita transforma imediatamente seu líder em mito.

Desta forma ele jamais estudaria para obter conhecimento. O investimento nos estudos está na necessidade de preservação enquanto classe média, no arranjar um bom emprego, bem remunerado. Não se pensa na ciência ou na história. Estuda-se com um objetivo externo ao conhecimento; é o saber alienado. Por isso, não se importa com museus ou galerias de arte. Pode parecer até triste ver estas instituições em chamas, mas o aumento do preço da gasolina é pior, qualquer boato de paralisação dos caminhoneiros fará esquecer qualquer tragédia cultural, porque afeta o consumo, a principal ferramenta do homem narcisista.

O narcisista de direita era até pouco tempo o analfabeto político. Até pouco tempo estufava o peito dizendo que odeia a política. “Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais”, como bem descreveu Bertolt Brecht.

E aqui há um culto a todas as espécies de ignorância. Chama-se de mito um candidato que ignora a história e a economia de seu país. Que é ignorante no sentido vulgar do termo que confunde falta de conhecimento com o comportamento rude, grosseiro e truculento. Outros cultuam sua ignorância por se fazer de inocente, ingênuo, sem maldade, diferente de todos os políticos. A ignorância é a máxima do narcisista de direita.

Mas a história que hoje está de luto devido a falta de investimento, sempre registrará os fatos. Analisará os conceitos e refletirá sobre essa época. Observará o espírito, as contradições materiais e os conflitos de interesse que fizeram desse tempo um caldeirão de tragédias, manipulação e ódio. E para vós de um tempo vindouro, de um “momento em que o homem seja bom para o homem, lembrai-vos de nós com indulgência”.5

 

1 SENNET, Richard. O declínio do homem público. Trad: Lygia Araujo Watanabe. Rio de Janeiro: Record, 2014. p. 347

2 LASCH, Christopher. A cultura do narcisismo. Rio de Janeiro: Imago, 1983. P. 51.

3 https://diplomatique.org.br/como-a-direita-seduziu-o-eleitorado-popular/

4 FREIRE, Paulo. Educação e mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p.54.

5 BRECHT, Bertolt. Aos que vierem depois de nós.