12 de outubro de 2018, 20h31

O ódio a Lula e ao PT completa 40 anos de porradas da imprensa, sem tréguas

Mesmo sem nunca terem prejudicado ninguém que fica na parte de cima da pirâmide, Lula e o PT sofrem de um ódio incansável, irracional e totalmente sem explicação

Foto: PT

Desde a sua estreia como liderança sindical, em 1978, e, posteriormente política, em 1980, Lula foi sistematicamente achincalhado pela imprensa. Orquestrado por grande parte dos seus patrocinadores – o maior parque automobilístico do país –, o jornalismo brasileiro chapa branca se encarregou de criminalizá-lo, sem tréguas, desde então e até hoje. A ele e ao Partido dos Trabalhadores.

Lula, portanto, completa em 2018, 40 anos de porradas, sem tréguas.

A sua primeira imagem icônica foi a aparição em capas de jornais e revistas semanais por ocasião de sua prisão, em 1980, enquadrado pela Lei de Segurança Nacional, durante a última grande greve dos metalúrgicos no ABC. A foto do operário sério, barbudo e cabeludo, com a placa do Departamento de Ordem Político e Social, o temido Dops, pendurada no pescoço, até hoje ressurge em publicações.

A imagem de Lula, com o olhar sério e resoluto direto para o centro da câmera, o cenho franzido e o corpo levemente arcado, tem o poder de magnetizar os dois lados. Tanto os que o odeiam desde sempre quanto os que passaram a vê-lo como uma nova opção política.

Foto: Reprodução

Na ocasião, Lula recebeu um indulto para participar do enterro de sua mãe, a Dona Lindu, e depois voltou para a sua cela. O episódio encerra o filme “Lula, o Filho do Brasil”, de Bruno Barreto e Marcelo Santiago.

Um mês depois disto, Lula foi libertado e participou da fundação do Partido dos Trabalhadores.

Vote no três que o resto é burguês

O ódio ao Partido dos Trabalhadores já existia, portanto, desde sempre. Nascia com o seu maior líder e esperava pela sua fundação, em 1980, no Colégio Sion, em São Paulo. Disseminado em conversas, frases soltas, e toda a sorte de sinalizações, ressoou Brasil afora, concomitantemente ao partido, o operário sem dedo, o analfabeto, baderneiro etc. etc. e etc.

Naqueles primeiros anos, o Partido dos Trabalhadores, que ainda usava o número três, tinha como palavra de ordem: “Vote no três, que o resto é burguês”. Seguido à frase, nos primeiros programas de TV, ainda congelados pela Lei Falcão, que permitia aos candidatos apenas uma foto e um breve currículo, vinham as pérolas: “Benedita da Silva, mulher, negra, favelada”; “Altino Dantas, ex-guerilheiro, preso pela ditadura” e por aí afora.

A grande imprensa, que até pouco antes, havia apoiado incondicionalmente o golpe militar de 64 – e que depois veio a se arrepender – começou uma caçada sem tréguas ao partido de esquerda que surgia, ainda pequeno, mas que não parava de crescer.

Com participação antológica em debates de televisão, Lula ficou em quarto lugar em sua primeira campanha, para o governo do estado, em 1982, ano em que Franco Montoro foi eleito. Para horror de alguns e delírio de outros, o operário falava sem papas na língua, em um português totalmente enviesado, tudo o que estava engasgado na garganta de enorme parcela da população trabalhadora do país.

Erundina, a primeira grande prefeitura

Anos e anos e muitas pauladas depois, em 1988, o PT chegava ao seu primeiro grande triunfo eleitoral e consegue eleger prefeitos em 36 cidades, entre elas São Paulo, com Luiza Erundina, Porto Alegre e Vitória. Era o começo da era de ouro do partido. E também do recrudescimento de seu grande calvário. Erundina passou seus quatro anos de gestão sob o cerco do Ministério Público e da grande imprensa. Um prenúncio inevitável do que viria a seguir.

A edição do debate

Foto: Reprodução

No ano seguinte, o inevitável aconteceu e o monstro mostrou todas as suas guerras possíveis e até mesmo as não imaginadas. Lula foi para o segundo turno da eleição presidencial com o então candidato Fernando Collor de Mello, um obscuro governador de Alagoas, de família proeminente na política e proprietária da retransmissora da Rede Globo no seu estado.

O papel da imprensa de forma geral, mas sobretudo o da própria Rede Globo, virou assunto de documentários e um dos maiores “cases” de comunicação eleitoral da nossa história. Dois grandes episódios e o tratamento dado pela imprensa a eles foram determinantes para o resultado.

O primeiro deles foi a edição do último debate entre os candidatos pela Rede Globo, quando já não havia mais programa eleitoral para responder. Mostrado como os melhores momentos de um jogo, a TV dos Marinho transformou a contenda em uma goleada, onde Collor teria, supostamente, massacrado Lula, o que não correspondia nem de perto à verdade.

O outro episódio ocorreu no dia do segundo turno. O empresário Abílio Diniz havia sido sequestrado no dia 11 de dezembro e foi libertado uma semana depois, no dia exato da eleição do segundo turno, 17 de dezembro. A imprensa relacionou o fato ao PT. Conforme notícia do Globo: “(Romeu) Tuma assegurou que os terroristas integram duas organizações de extrema esquerda no Chile – Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR) e Organização de Resistência Armada (Ora) e que em poder dos que foram presos foi apreendido material de propaganda política do PT”.

Lula, como todos sabem, perdeu a eleição.

Lula Presidente

Foto: Agência Brasil

Mas, em cima do desgaste dos governos FHC e a partir de um grande pacto nacional, veio a vencer a presidência, em 2002, e novamente em 2006 e ainda elegeu e reelegeu a sua sucessora, Dilma Rousseff, que veio a sofrer um golpe, como se costuma chamar jurídico, político e, é claro, midiático.

Apesar do grande sucesso dos seus governos, Lula não teve trégua da imprensa em momento algum. Os resultados que obteve na economia e nos índices sociais, no entanto, foram tamanhos que o então presidente, não só sobreviveu ao chamado escândalo do mensalão, como se reelegeu. Mas, ainda assim, debaixo de porrada.

O Manchetômetro

No período de surgimento do PT e de Lula na vida pública, os mecanismos para medição do comportamento da imprensa eram puramente intuitivos. Hoje, no entanto, são facilmente mensuráveis. O “Manchetômetro”, por exemplo, projeto de monitoramento das páginas brasileiras que lideram a difusão e circulação de assuntos relacionados à política no Facebook, mídia social que desde 2011 tem sido a preferida dos brasileiros, faz isso com muita facilidade.

O usuário pode digitar nele o nome de quem procura, os veículos que deseja averiguar e a data e pronto, tudo aparece. O gráfico relacionado ao ex-presidente Lula, com o índice totalmente desequilibrado de matérias negativas nos veículos Estadão, Folha, Jornal Nacional, Valor Econômico e O Globo pode ser visto abaixo:

Foto: Reprodução

A imprensa nanica e os blogueiros sujos

“Blogueiros sujos” entrevistam Lula. Foto: Instituto Lula

As únicas alternativas às informações que circulam nesses veículos hoje são os sites como a Fórum, Brasil 247, DCM, GGN, Nocaute, Viomundo, Cafezinho, Brasil de Fato, Rede Brasil Atual, Vermelho entre alguns outros, apelidados pelo então candidato José Serra (PSDB) de “blogueiros sujos”. Assim como, lá no início, no final da década de 70, quem falava pelos movimentos populares eram os tabloides como Movimento, Pasquim, Opinião, Tribuna Operária, Voz da Unidade entre poucos outros. Nos dois casos, veículos com estruturas mínimas e parcos recursos, armados apenas de profissionais engajados.

Uma gota d’água capaz de manchar o oceano das grandes mídias.

Sobrevivendo ao ódio

Com isto, Lula e o PT têm sobrevivido ao ódio semeado, disseminado e cultivado. De dentro da prisão, o ex-presidente aparecia com mais de 40% nas pesquisas de intenção de votos para a presidência. Foi proibido pela justiça de concorrer.

Mesmo assim colocou o seu candidato, Fernando Haddad, no segundo turno do pleito.

Lula e Haddad. Foto: Ricardo Stuckert

Mesmo sem nunca, jamais, em tempo algum terem prejudicado ninguém que fica na parte de cima da pirâmide, Lula e o PT sofrem de um ódio incansável, irracional e totalmente sem explicação.

O ex-presidente sempre foi um negociador e, acima de tudo, um conciliador. Em seus governos, bancos, empresários e afins ganharam como nunca.

Por alguma razão que cabe muito mais à psicanálise do que à política explicar, no entanto, não vão sossegar enquanto não o dizimarem junto com o seu partido.

E, por várias razões que são muito mais bem explicadas pela política do que pela psicanálise, ainda não conseguiram.