13 de outubro de 2018, 14h52

O ódio ao pobre por trás do ódio às minorias

A classe média, grande representante do conservadorismo, acabou encontrando, de forma velada, uma maneira para odiar o pobre por tabela

Charge de Vitor Teixeira

“O poder político propriamente dito é o poder organizado de uma classe para a opressão da outra”.

Karl Marx

Em uma entrevista cedida à rádio CBN, o psicanalista professor da USP, Christian Dunker, afirma que o pacto entre esquerda e direita se rompeu. Nos últimos anos, enquanto que a direita se dedicou aos aspectos econômicos, as esquerdas prenderam-se a pautas identitárias e morais. Tanto que os governos de esquerda adotaram o liberalismo, mas concederam diversas liberdades em termos sexuais, étnicos e de gênero.

Mas a direita parece ter cansado desse modelo e resolveu se impor e adotar uma política excludente no sentido moral na medida em que intensifica o liberalismo. Inclusive, o termo “opressão” usado pelos conservadores atuais, esconde o seu verdadeiro significado (o de classe, como vemos na epígrafe que encetamos este texto), para assumir um sentido moralista. É a boa e velha alienação ideológica (desculpem-me o pleonasmo).

Esse é um fenômeno mundial, mas se apresenta com forte evidência no Brasil dessas eleições. Dificilmente encontramos um eleitor de Haddad que vota nele por um motivo econômico. Com ressalva ao pessoal do Nordeste que, de fato, devido às melhorias em termos de renda, tornou-se petista. Da mesma maneira, dificilmente vota-se contra o candidato do PSL por um motivo econômico. A justificativa é sempre moral: ele é homofóbico, racista etc

O eleitor conservador, por seu turno, também vota em seu candidato por motivos morais, até a classe dominante que quer a vitória de Bolsonaro também o faz por essas razões, visto que os governos petistas não prejudicaram nenhum empresário, pelo contrário, o Brasil chegou até ter um representante entre os mais ricos do mundo, pastores evangélicos apareceram na revista Money com imensas fortunas etc.

A questão é que não se criou indivíduos capazes de discutir questões de política econômica, e ficamos, portanto, presos a esse conflito moral entre o politicamente correto e o politicamente incorreto. As agressões que ocorrem Brasil a fora são contra gays, mulheres e negros.

Contudo, há uma lógica econômica macabra por trás de tudo isso. Primeiro que essas minorias violentadas são, em sua maioria, pobres. A corda sempre arrebenta para o lado mais fraco! Segundo que as esquerdas, por mais que em sua maior parte tenham representado nos últimos tempos os aspectos identitários, ainda há resquícios, pelo menos subentendidos, de uma ideia que elas representam os interesses das classes desfavorecidas economicamente. Desta forma, o ódio às minorias, que é um ódio estritamente nazista, mistura-se ao ódio ao pobre. Pega-se carona.

A classe média, grande representante do conservadorismo, já demonstrava um grande ódio ao pobre, mas soava ruim falar isso abertamente, e soa até hoje. Contudo, para poder odiar o pobre sem parecer cruel, apoiou-se nos valores conservadores que, por sua vez, não aparentam esboçar uma rejeição ao pobre, mas devido à direção desse ódio contra a esquerda, contra aqueles que, de certa forma, defendiam a melhoria socioeconômica das populações desfavorecidas, acabou encontrando, de forma velada, uma maneira para odiar o pobre por tabela.

Lógico que se perguntarmos a um eleitor de Bolsonaro se ele odeia o pobre, vai responder que não. Mas dirá que odeia as políticas desenvolvidas pela esquerda que deu acesso ao pobre a uma renda maior, como o Bolsa Família, ou os direitos trabalhistas à empregada doméstica. Há, inclusive, setores pobres da população que compram esse discurso, de ódio às minorias, sem saber do pacote que estão levando. A fascinação pela moral é tão grande que preferem perder os direitos trabalhistas a ter a moralidade violada.

O vilipêndio a temas que dizem respeito à economia política provocou uma alienação geral capaz de por fim a uma solidariedade horizontal para fabricar uma solidariedade vertical entre patrões e empregados, sempre de estes para aqueles, jamais o contrário. A ideia de que o empregado deve contribuir com o patrão para a empresa crescer veio se desenvolvendo nos próprios governos do PT, mas faltava algo ideológico que os unissem. A moralidade conservadora que hoje vem à tona nas contendas políticas preencheu esse vazio que existia. Trabalhador e patrão encontraram um ponto em comum.

Acabamos caindo no erro que Marx havia nos alertado no século XIX: a ideologia. A derrota da esquerda acaba por parecer uma derrota moral, devido ao menosprezo dados às pautas econômicas e a incapacidade de conscientizar os trabalhadores nestes termos. Com isso, se põe fim a uma cultura de greve, de modo que os movimentos sociais que temos são de cunho identitário, fato que se comprova quando vemos a grande  manifestação contra o candidato da direita  que moveu artistas do mundo inteiro. Será que um movimento de classes teria a mesma comoção?

As esquerdas só adquirirão força (no sentido revolucionário) novamente quando voltarem a abordar causas econômicas, até porque foi assim que os trabalhadores conseguiram conquistar os diversos direitos que hoje se encontram em risco. É lógico que as esquerdas sempre lutaram pela libertação da mulher e de diversas outras minorias, mas o seu foco central sempre foi, no tempo das conquistas, as pautas trabalhistas. Foi assim que se uniu negros e brancos, homens e mulheres: a partir de uma causa comum. Devemos sim lutar pelas minorias, mas a solidariedade horizontal precisa ser estabelecida não por motivos morais, mas por motivos materiais, isto é, por motivos trabalhistas.

Respeitar o negro porque ele é negro, a mulher porque ela é mulher, o homossexual porque ele é homossexual, mas, também, porque são capazes de fazer o que qualquer outro ser é capaz de fazer, libertar-se das amarras do capital, da dominação utilitarista que assassina a criatividade. O que impede a libertação das minorias não é o homem branco heterossexual, mas o capitalismo que vê todos como uma máquina que trabalha e compra. É se libertando dessa visão econômica que se esconde nas sombras, por trás da moral, é que todos serão livres de fato. Livres para expressar sua feminilidade, sua masculinidade, sua homossexualidade, sua negritude, sua fé, enfim, sua liberdade.