17 de julho de 2016, 10h06

O ódio pode levar nosso futuro?

Em catorze anos de pesquisa etnográfica,  foi possível verificar que mais de um milhão de pessoas acessam material neonazista nas Américas, cerca de 40% só na América Latina. Usuários baixam por ano mais 150 mil downloads de arquivos de teor nazista, superiores a 100 megabites cada Por Adriana Dias* Rosa Barreiro passará o próximo dia 18 em luto, pela vigésima segunda vez. Em 1994, ela perdeu seu filho Sebastián, no atentado a AMIA, em Buenos Aires. Ele tinha apenas 5 anos. Ela passava com ele pela calçada. Dirigia-se ao Hospital das Clinicas para um curso. Combinaram de fazer um lanche na...

Em catorze anos de pesquisa etnográfica,  foi possível verificar que mais de um milhão de pessoas acessam material neonazista nas Américas, cerca de 40% só na América Latina. Usuários baixam por ano mais 150 mil downloads de arquivos de teor nazista, superiores a 100 megabites cada

Por Adriana Dias*

Rosa Barreiro passará o próximo dia 18 em luto, pela vigésima segunda vez. Em 1994, ela perdeu seu filho Sebastián, no atentado a AMIA, em Buenos Aires. Ele tinha apenas 5 anos.

Ela passava com ele pela calçada. Dirigia-se ao Hospital das Clinicas para um curso. Combinaram de fazer um lanche na volta e o garoto havia separado seus dinossauros favoritos para brincar com a mãe. Ao passar pela Rua Pasteur, a bomba explodiu e ela não conseguiu salvá-lo. Foi levada ao Hospital e nunca se recuperou da perda, obviamente.

Além de Sebastián, foram mais de 300 feridos e 85 mortos, destes, 53 judeus, 32 cristãos. O antissemitismo fere a todos, desde sempre.

O atentado a AMIA não foi um caso isolado. No mesmo governo de Carlos Menem, em que ocorreu, já havia ocorrido um atentado a embaixada de Israel. Na Argentina, o crescimento do neonazismo é exponencial.

A partir da análise de sites, sites e fóruns de relacionamento, blogs, em língua espanhola, francesa, inglesa e portuguesa, muitos deles com domínio em países com domínio anônimo (.tk), em catorze anos de pesquisa etnográfica multisitiada na WEB e na DEEPWEB,  foi possível verificar que mais de um milhão de pessoas acessam material neonazista nas Américas, cerca de 40% na América Latina. Usuários baixam por ano mais 150 mil downloads de arquivos de teor nazista, superiores a 100 megabites cada, apenas no Brasil entre 2007 e 2009. De 2009 para cá, o índice de arquivos baixados com estas características tem crescido a uma taxa média de 6% ao ano. Nos fóruns a participação de latinos cresce 8% mais que a população, em média.

A Internet é esfera privilegiada para divulgação das ideias neonazistas, que saem do mundo virtual para a esfera da vida não virtualizada em rituais de iniciação de grupos neonazistas na forma de ataques raciais a judeus, negros ou homofóbicos ou a pessoas com deficiência. Como a grande maioria dos países pesquisados não possuem legislação de crime de ódio, os crimes caem em estatísticas impossíveis de verificação. A impunidade aumenta a certeza desses grupos de satisfazerem seus desejos de destruição, sem receios.

Sebastián é o símbolo do que o ódio pode nos levar. O futuro. É preciso combater o ódio, seja ele expresso pelo antissemitismo, pela islamofobia, pelo racismo, pelo capacitismo, pela homofobia, pela lesbofobia, pelo ódio ao indígena. Precisamos, urgentemente, reverter o quadro de intolerância que ameaça sequestrar nossa vida, nossas crianças, a todos nós.

*Bacharel em Ciências Sociais em Antropologia pela Unicamp e Mestre e Doutoranda também pela Unicamp