Raphael Silva Fagundes

01 de dezembro de 2018, 17h07

O ódio quixotiano: como os brasileiros aprenderam a odiar o nada

Alguns ideólogos resolveram chamar o PT de comunista ou marxista devido à necessidade de se odiar uma ideia política, e a ideia tradicionalmente odiada na mentalidade do brasileiro é o comunismo.

Karl Marx (Foto: Wikicommus)

Os fieis eleitores do novo presidente não são contrários às ideias de Karl Marx. Eles são contrários ao que chamam de ideologia de gênero, cotas raciais, desarmamento, impunidade, corrupção etc.. Algum é contra a valorização do trabalho? Contra a garantia de um salário justo proveniente de um trabalho honesto? Contra o avanço tecnológico, acesso à saúde e a uma educação que foque na formação de trabalhadores capazes de promoverem o progresso científico, industrial e cultural? Duvido que algum deles seja a favor da riqueza adquirida sem trabalho? Da riqueza daquele que deixou famílias trabalhadoras desabrigadas em nome da ganância?

Sou obrigado a concordar com eles que o governo PT não ajudou na promoção dessas qualidades para levar uma nação ao apogeu. Mas alguns ideólogos resolveram chamar o PT de comunista ou marxista. Acho que foi devido à necessidade de se odiar uma ideia política, e a ideia tradicionalmente odiada na mentalidade do brasileiro é o comunismo.

Mas o PT não é comunista. O seguidor de Bolsonaro odeia a ideologia defendida pela direita que se constituiu na Terceira Via. Odeia as ideias defendidas pelos filmes de Hollywood e pelo o que as empresas do Vale do Silício financiam: movimentos e campanhas pela legalização da maconha, feminismo, aborto etc..

Mas foi preciso esconder tudo isso, esconder quem realmente financia essa moralidade progressista e associá-la ao comunismo. Não teria sentido o cidadão de bem ir ao cinema assistir a um filme da Marvel ou da Dc Comics feminista, antirracista (que por aqui chamamos de vitimismo) e que, além disso, saber que está contribuindo para a luta pela defesa do aborto, legalização das drogas e da “ideologia de gênero”. Contudo, é a ideologia contida nesses filmes e bancada pelas empresas que fabricam os celulares e os computadores que os eleitores de Bolsonaro consomem que eles odeiam.

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Ser contra o comunismo hoje é quixotismo, é ser contra algo que já passou, está fora do tempo e do espaço, é ser contra algo que pertence a outra época. Contudo, as classes poderosas, que não poderiam convencer os que pretendiam dominar de que o que eles odeiam é a modernização, fruto das contradições geradas pelas diversas revoluções industriais, resgataram o ódio ao comunismo só para se ter uma ideia para se odiar, tocando no imaginário popular.

O cidadão não pode deixar de consumir os filmes bilionários da indústria cultural, não pode deixar de usar Facebook ou Whatsapp, por isso, não podemos associar as ideias progressistas a essas marcas, pensam os grandes manipuladores da ideologia. Contudo, mal sabe o cidadão de bem que quando faz uso de uma dessas tecnologias está dando uma parte do seu suado dinheiro para essas corporações que bancam campanhas a favor do aborto, da legalização das drogas e do casamento gay.

O comunismo nada tem que ver com essas ideias. Aliás, o comunismo não pode ser considerado uma ideia, pois se trata de um modelo econômico. Não existe uma moral comunista e não se pode identificar um comunista pelas suas ideias. Comunismo é uma realidade prática. Não existe educação comunista, filme comunista, pensamento comunista! Ninguém é comunista! O comunismo é um modo de produção.

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A propaganda política do novo governo mobilizou o povo a ser antiprogressista, mas esse termo não seria reconhecido pelo imaginário político popular. Portanto, resgatou-se o comunismo. O cidadão vai ser sempre contra o comunismo, tanto que os governos anteriores não procuraram mencionar tal termo. Esse sentimento faz parte da memória política. Até os partidos que tem em sua sigla tal palavra, busca não pronunciá-la, porque sabe do efeito que ela tem na mentalidade, um campo de longa duração que facilmente pode vir para o primeiro plano das ideias políticas.

Ao criar esse ódio ao comunismo, ódio que sempre existiu, a direita progressista saiu muito prejudicada porque ela mesma ficou associada a tal ideia (que, como vimos não se trata de uma ideia). O comunismo sempre foi vítima de ódio, o marxismo, por exemplo, nos últimos anos, não era uma ideia predominante nas universidades, principalmente na área de humanas, onde novos paradigmas (ou até a ausência deles) tomaram a dianteira, como Foucault, a História Cultural, a Escola de Cambridge, o pós-modernismo etc.. Ou seja, para o marxismo nada de realmente novo aconteceu, a não ser o declínio de uma teoria que já estava sendo preterida.

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Quem saiu prejudicado foram justamente estes novos paradigmas que, por sua vez, acabaram sendo taxados de marxistas. Essas novas linguagens, que ganharam terreno a partir dos anos 1990, tinham uma certa simpatia pelos historiadores que não tinham posicionamento político algum (ou que desistiram dos que tinham), a não ser a ideia da liberdade de expressão, religiosa, as ideias liberais padrões. Hoje uma mera história do futebol pode ser entendida como ideologia de esquerda.

O capitalismo da forma que ele é aplicado no mundo atualmente, em sua fase financeira, não é útil para o pequeno empreendedor que quer prosperar com sua loja de automóveis, de ferramentas ou de materiais de construção. Na atual conjuntura, é somente o grande empreendedor que sai lucrando. Por isso, sem saber, esse grupo prefere mais o marxismo (lembrando da NEP) ao capitalismo que só o faz pagar imposto sobre imposto enquanto isenta as grandes corporações.

As classes dominantes, no início, não acreditaram que esse ódio quixotiano poderia vingar, mas quando vingou aderiu-se a ideia porque sabem que nada irá prejudicá-la e essa luta contra o nada, contra o inexistente, só servirá para desviar a atenção dos seus privilégios e da origem das ideologias que o povo não é tão simpático defendida pelas empresas multimilionárias do Vale do Silício.