06 de dezembro de 2018, 15h51

O paradoxo e a insensatez

Em novo artigo, professor José Luis Fiori analisa a conjuntura política e econômica do Brasil a partir do golpe que levou a ex-presidenta Dilma Rousseff ao impeachment

Jair Bolsonaro e seu futuro ministro da economia, Paulo Guedes (Reprodução/Facebook)

Por José Luis Fiori*

 

“Uma vez me perguntaram se o Estado brasileiro é muito grande. Respondi assim: “Eu vou lhe dar o telefone da minha empregada, porque você está perguntando isto para mim, um cara que fez pós-doutorado, trabalha num lugar com ar-condicionado, com vista para o Cristo Redentor. Eu não dependo em nada do Estado, com exceção de segurança. Nesse condomínio social, eu moro na cobertura. Você tem que perguntar a quem precisa do Estado.”

Luiz G. Schymura, “Não foi por decisão de Dilma que o gasto creceu”, Valor Economico, 07/08/2015

 

A escolha do novo governo após o interregno golpista de Michel Temer comprova a profecia realizada em 2015 neste artigo. Não restam mais dúvidas que a decisão de derrubar uma presidente da república eleita por 54,5 milhões de brasileiros caracterizou-se num projeto claramente golpista e antidemocrático e, o que é pior, conduzido por lideranças medíocres e de discutível estatura moral.  A eleição do novo presidente e do seu “primeiro-ministro” Paulo Guedes mostra que, na verdade, essa vitória é uma espécie de continuidade daquele projeto, mesmo que legitimado pelas urnas, cujos princípios, neste primeiro momento, são similares àqueles formulados logo após a queda da presidente Dilma.

Cabe lembrar que, nas semanas seguintes ao golpe, a imprensa escalou um grupo expressivo de economistas liberais, para formular as ideias e projetos do que seria o governo nascido do golpe. Sem nenhuma surpresa: quase todos repetem as mesmas fórmulas, com distintas linguagens. Todos consideram que é preciso primeiro resolver a “crise política”, para depois poder resolver a “crise econômica”; e uma vez “resolvida” a crise política, todos propõem a mesma coisa, em síntese: “menos estado e menos política”. Tal receita se repete agora, de forma mais agressiva e violenta.

Não interessa muito o detalhamento aqui dessas sugestões técnicas. O que importa é que suas premissas e conclusões são as mesmas que a utopia liberal repete desde o século XVIII, sem jamais alcançá-las ou comprová-las, como é o caso de sua crença na racionalidade utilitária do homo economicus,  na superioridade dos “mercados desregulados”, na existência de mercados “competitivos globais”, e na sua fé cega na necessidade e possibilidade de despolitizar e reduzir ao mínimo a intervenção do Estado na vida econômica.  É muito difícil para estes ideólogos que sonham com o “limbo” entender que não existe vida econômica sem política e sem Estado. É muito difícil para eles compreender ou aceitar que as duas “crises brasileiras” são duas faces de um conjunto de conflitos e disputas econômicas cruzadas, cuja solução tem que passar inevitavelmente pela política e pelo estado. Não se trata de uma disputa que possa ser resolvida através de uma fórmula técnica de validez universal. Por isto, é uma falácia dizer que existe uma luta e uma incompatibilidade entre a “aritmética econômica” e o “voluntarismo político”. Existem várias “aritméticas econômicas” para explicar um mesmo déficit fiscal, por exemplo, e todas são parcialmente verdadeiras.

Parece muito difícil para os economistas em geral, e em particular para os economistas liberais, aceitarem que a economia envolve relações sociais de poder, que  a economia é também  uma estratégia de luta pelo poder do estado, que pode estar mais voltado  para o “pessoal da cobertura”, mas também pode ser inclinado na direção dos menos favorecidos pelas alturas.

Agora bem, na conjuntura atual, como entender o encontro e a colaboração destes economistas liberais com os políticos golpistas e agora com o novo governo?

O francês Pierre Rosanvallon dá uma pista[1] ao fazer uma anátomo-patologia lógica do liberalismo da “escola fisiocrática” francesa, liderada por François Quesnay. Ela parte da proposta fisiocrático/liberal de redução radical da política à economia, e da transformação de todos os governos em máquinas puramente administrativas e despolitizadas, fiéis à ordem natural dos mercados. E mostra como e porque este projeto de despolitização radical da economia e do estado leva à necessidade implacável  de um “tirano” ou “déspota esclarecido” que entenda a natureza nefasta da política e do estado, se mantenha “neutro” e promova  a supressão despótica da política, criando as condições indispensáveis para a realização da “grande utopia liberal”, dos mercados livres e desregulados. Foi o que Rosanvallon chamou de “paradoxo fisiocrata”, ou seja: a defesa da necessidade de um “tirano liberal” que “adormecesse” as paixões e os interesses políticos e, se possível, os eliminasse.

No século XX, a experiência mais conhecida deste projeto ultraliberal foi a  da ditadura do Sr. Augusto Pinochet, no Chile, que foi chamada pelo economista americano, Paul Samuelson, de “fascismo de mercado”. Pinochet foi –  por excelência – a figura do “tirano” sonhado pelos fisiocratas: primitivo, quase  troglodita, dedicou-se quase inteiramente à eliminação dos seus adversários e de toda a atividade política dissidente, e entregou o governo de fato  a um grupo de economistas ultraliberais que puderam fazer o que quiseram durante quase duas décadas. No Brasil não faltam –  neste momento – os candidatos com as mesmas características e os economistas sempre rápidos em propor e  dispostos a levar até as últimas consequências o seu projeto de “redução radical do Estado” e, se for possível, de toda atividade política capaz de perturbar a tranquilidade dos seus modelos matemáticos e dos seus cálculos contábeis. Neste sentido, se pode dizer, com toda certeza, que  os dois lados deste projeto são complementares e compartem a mesma insensatez, ao supor que sua estratégia golpista e ultraliberal não deverá encontrar resistência  e, no limite, provocar uma rebelião e um  enfrentamento civil de grandes proporções.  Porque não é necessário dizer que tanto os lideres golpistas quanto seus economistas ultraliberais olham para o mundo como se ele fosse uma “enorme cobertura”, segundo a tipologia sugerida pelo Sr. Luiz  Schymura, um raro economista liberal que entende e aceita  a  natureza contraditória dos mercados e do capitalismo, e a origem democrática do atual déficit público brasileiro.

 

[1] P. Rosanvallon, Le liberalisme économique. Histoire de l´idée de marché, Editions Seuil, Paris, 1988

 

*José Luis Fiori é Doutor em Ciência Política pela USP e professor titular de Economia Política Internacional pela UFRJ