01 de junho de 2018, 16h25

O passo rumo ao abismo e as oportunidades perdidas

Ainda precisamos compreender por que a população não foi às ruas defender Dilma ou Lula, mesmo que tenham feito excelentes governos para os mais pobres. Por Daniel Trevisan Samways

Por Daniel Trevisan Samways

“Somente na massa é possível ao homem libertar-se do temor do contato. Tem-se aí a única situação na qual esse temor transforma-se no seu oposto. E é da massa densa que se precisa para tanto, aquela na qual um corpo comprime-se contra o outro, densa inclusive em sua constituição psíquica, de modo que não atentamos para quem é nos ‘comprime’. Tão logo nos entregamos à massa não tememos seu contato. Na massa ideal, todos são iguais. Nenhuma diversidade conta, nem mesmo a dos sexos. Quem quer que nos comprima é igual a nós. Sentimo-lo como sentimos a nós mesmos. Subitamente, tudo se passa então como que no interior de um único corpo.”
CANETTI, Elias. Massa e Poder. Tradução Sérgio Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 14.

A breve citação de Elias Canetti, datada de 1960, pode nos ajudar a entender o rumo que tomamos, a escalada autoritária que avança a passos largos, bem como pensar em saídas para as oportunidades perdidas. Não é uma tarefa fácil, e o simples convite à reflexão pode sempre ser visto como um chamado à guerra. No atual cenário, a inteligência e a crítica podem ser poderosas armas contra o autoritarismo, mas também pontes construídas para nos aproximar. Claro, para quem estiver disposto a caminhar em meio às pedras do caminho. Tenham certeza, elas serão muitas.

Os últimos dias foram marcados por uma das maiores greves da história nacional, não tanto pelo número de trabalhadores parados, mas pelo impacto que produziu em todo o país, abrindo uma crise da qual não sabemos ao certo como terminará. Vozes ao fundo me pedem para acrescentar um “se terminará”.

Escrevi, dias atrás, que seria importante compreender melhor o movimento, suas ambiguidades e os atores envolvidos, para evitarmos, como prega a razão, generalizações simplistas. Entre os vários comentários que vi e ouvi, passando pelos clássicos “#somostodoscaminhoneiros”, “é o golpe dentro do golpe”, “é locaute”, “não é um locaute”, percebi que o argumento inicial do texto fazia sentido e que estamos perdidos não somente nas análises, mas também na ação. Por “nós” eu entendo o campo progressista, à esquerda. A direita também possui seus balaios, não só com gatos angorás, mas com outros animais de estimação, “com supremo, com tudo…”. A narrativa do outro lado do muro usou estratégias muito semelhantes às usadas do lado de cá.

De um lado, afirmações de que um dos porta-vozes era do PT e nunca dirigiu um caminhão. De outro, que o movimento contava com uma liderança filiada ao PSDB. No fundo, pouco importa. Afinal, vivemos numa democracia e pessoas tem (ou tinham, já não sei) liberdade para se filiar a partidos e liderar movimentos. A grande questão esquecida, ou para a qual demos pouca atenção – com boas exceções aqui e aqui -, foi a ausência de uma liderança clara, que comandasse o movimento, que guiasse seus seguidores, conduzindo-os à redenção prometida.

O movimento saiu do controle, ou talvez não se dimensionasse que ele poderia chegar onde chegou, e depois de ter tomado dimensões extremas, seria difícil parar ou simplesmente voltar para casa, mesmo depois das primeiras reivindicações serem atendidas. Agora, já não era apenas o litro do diesel na pauta, mas “nós só vamos parar quando o Temer cair”. Entre um discurso e outro, assistimos a algumas manifestações, ou talvez várias, pedindo uma “intervenção militar”, na esperança de que alguém coloque as coisas no seu lugar, limpando “políticos corruptos de Brasília que não fazem nada por nós”. Um movimento sem uma liderança clara parou o país. Alô, 2013? E, novamente, discursos “contra tudo” e “contra todos” voltaram à mesa, que agora tem menos comida, infelizmente. Um ingrediente que já se via naquela época, agora apareceu com maior destaque. A tal “intervenção militar”.

Seria equivocado afirmar que repetimos 2013. São pautas diferentes, um outro governo e uma situação material muito pior. Talvez por conta do cenário político-econômico estar muito deteriorado, o argumento de uma intervenção fez tanto sucesso e colou mais do que a dancinha do impeachment. Mas em um ponto nos aproximamos, novamente, de 2013: em nossa incapacidade de percepção de um movimento que vinha sendo gestado há tempos. Pior, em criarmos barreiras com o movimento, distanciando-se dele, fugindo dos reais embates e, como em 2013, abrindo todas as portas para grupos fascistas adentrarem sem nenhuma oposição. Tudo isso em menos de uma semana.

Parte da esquerda virou as costas para pautas sobre consumo, renda, custo de vida, mobilidade, enfim, coisas da vida prática. Enxergou nesse movimento uma nova pauta golpista, um locaute da burguesia ou uma estratégia armada para impedir as eleições. E como não existe vácuo em política, alguém abriu os braços e entoou o canto da sereia. Claro que em uma sociedade como a nossa, com um passado escravocrata e ditatorial e uma realidade extremamente desigual, discursos autoritários encontram um campo fértil.

Mas por que um movimento que pedia a redução do preço do diesel e parou o país, criando uma crise de desabastecimento, teve o apoio de uma parte significativa da população? Porque existia uma insatisfação reprimida, um descontentamento generalizado e uma sensação de estar à deriva. Medo, crise e falta de representatividade e autoridade política são também ingredientes explosivos e um espaço aberto para soluções autoritárias.

Se após junho de 2013 ainda conseguimos eleger Dilma, também elegemos o pior Congresso da história, com pautas e projetos saídos dos tribunais da inquisição. O que oferecemos, na época, como saída? Uma chapa PT-PMDB? E depois de eleitos? Uma austeridade comandada por um antigo funcionário do Bradesco e promovido a Ministro da Fazenda? Se isso não causou grandes protestos, também não mobilizou a sociedade como um todo contra o golpe. Ainda precisamos compreender por que a população não foi às ruas defender Dilma ou Lula, mesmo que tenham feito excelentes governos para os mais pobres.

A história será definida por aquilo que oferecermos à sociedade como projeto de governo e, principalmente, como projeto de nação. A depender do que oferecemos na última semana, não será um caminho fácil. Ele terá muito mais do que pedras. O medo, como se referia Canetti, sempre pode conduzir os indivíduos a movimentos autoritários, nos quais se sentem seguros. Cumpre ao campo progressista levar não apenas a esperança, mas soluções.

Superar o medo é aprender a fazer política.