O pavio aceso, por Nicolás Trotta | Revista Fórum
10 de julho de 2018, 13h37

O pavio aceso, por Nicolás Trotta

Leia artigo de Nicolás Trota, Reitor da UMET da Argentina: “O futuro é imprevisível. O habeas corpus é um tapa para a sociedade e a liderança da esquerda latino-americana”

(Foto: Mídia Ninja)

Por Nicolás Trotta*, no Página 12 / Tradução de Ivan Longo

 

Não está claro o que acontecerá com Lula nos próximos dias. Mas mesmo continuando preso de forma ilegítima em Curitiba, alguma coisa mudará a partir deste 8 de julho de 2018. A manipulação que envolve o sistema judiciário brasileiro já pode ser vista de maneira ainda mais clara. Esses fatos contribuem para que a sociedade tome consciência do momento de inflexão que se encontra sua nação. Nas próximas semanas o Brasil julgará seu futuro. Uma candidatura de Lula para as eleições de 7 de outubro permitirá que a América Latina recupere o caminho do desenvolvimento e da integração, aprendendo com os erros e avançando nas transformações pendentes.

Quando se sequestra a democracia não há justiça. O golpe parlamentar que derrubou Dilma Rousseff em 2016 foi o primeiro passo contra o processo de transformação que estava vigente no Brasil. Os governos do Partido dos Trabalhadores (PT), como todos os ciclos políticos, foram heterogêneos. Implicaram avanços inéditos, mas não alcançaram a reconfiguração da correlação de forças com o verdadeiro poder das elites brasileiras. O dia em que Dilma foi eleita, vencendo por uma margem estreita Aécio Neves, as forças conservadoras decretaram que já haviam cedido o poder por muito tempo e começaram a tentar recuperar o que pensavam que lhe pertenciam e as urnas negaram.

Diante da ilegítima destituição de Dilma, pensaram que a esquerda brasileira havia acabado. Os golpistas, angustiados, implementaram políticas de ajuste que levaram Michel Temer a uma aprovação de menos de 5%. Qualquer semelhança com a realidade argentina não é mera coincidência. A sociedade, passiva e auto-absorvida em seu próprio progresso, simplesmente comparou e percebeu que os avanços não foram mágica. Ai, colocaram em curso a segunda etapa do golpe: destruir a credibilidade de Lula, prendendo-o. Especularam que essa seria, definitivamente, a morte política do PT e de seus líderes Lula e Dilma. Mas, novamente, se equivocaram. Lula cresce e lidera todas as pesquisas e vence em todos os cenários. Cada novo indicador social e econômico do gigante latino-americano demonstra a decomposição e se traduz em um impulso da imagem e dos votos do torneiro mecânico.

Desacreditado nos meios de comunicação, perseguido, condenado mesmo sendo inocente e na prisão, Lula cobra seu verdadeiro legado histórico. Entre o sangue e o tempo, optou pelo tempo. Cercado de seguidores, aceitou cumprir uma condenação questionada por juristas e líderes globais, com a convicção de que o tempo coloca cada personagem no lugar que lhes corresponde. Como há alguns dias me disse Pepe Mujica, Lula não está preocupado por sua situação pessoal, mas com o enorme retrocesso que o Brasil atravessa e o impacto disso nos setores populares.

O juiz Rogério Favreto, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre, concedeu um habeas corpus a Lula a partir de um pedido feito na última sexta-feira por deputados do PT, e exigiu que a medida fosse cumprida de forma urgente. O juiz Sérgio Moro, um dos responsáveis por sustentar o estado de exceção que se encontra o Brasil, de férias em Portugal e de forma ilegal, contrariou a decisão em segunda instância e exerceu sua influência para que Lula não fosse libertado.

A decisão de Favreto revela que de uma parte da Justiça surgiu um sinal de rebeldia contra o sistema persecutório que se impõe. Embora a liberdade efetiva de Lula tenha se frustrado, já se deu um passo. Quem, atualmente, tem mais chances de triunfar em outubro, de acordo com as pesquisas, se Lula não for candidato, é Jair Bolsonaro, um fascista que declarou que “o erro da ditadura foi torturar, e não matar” e que “Pinochet deveria ter matado mais gente”. Lula é um reformista. Como dirigente sindical faz do consenso e do diálogo um dogma. A sociedade espera, atenta.

O futuro é imprevisível. O habeas corpus é um tapa para a sociedade e a liderança da esquerda latino-americana. Nos acorda e nos recorda que a única luta que se perde é a luta que se abandona. Há algumas semanas eu perguntei para Dilma Rousseff por que o povo brasileiro era tão passivo diante da injusta perseguição e encarceramento de seu líder. “A reação do povo brasileiro é explosiva”, me respondeu. Talvez agora o pavio tenha sido aceso.

*Reitor da UMET – Universidad Metropolitana para la Educación y el Trabajo da Argentina