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03 de junho de 2014, 19h31

O perigo da propaganda heterossexual ou Ninguém nasce hétero

Em texto publicado pela revista Veja, autor defende a tese eugenista de que a homossexualidade não existe e que há uma "perigosa propaganda" pró-LGBT

Em texto publicado pela revista ‘Veja’, autor defende a tese eugenista de que a homossexualidade não existe e que há uma ‘perigosa propaganda’ pró-LGBT

Por Marcelo Hailer 

Diariamente quando abrimos o jornal, acessamos a rede, ligamos a televisão somos inundados por uma propaganda opressora do estilo de vida heterossexual; somos levados a crer que viemos a este mundo para reproduzir, ter filhos, comprar casa e ir à missa. Pior, querem nos fazer descer goela abaixo que as pessoas nascem com tal orientação sexual e, mais obsceno ainda, denúncias dão conta de que grupos políticos ligados à educação estão aplicando pedagogias do heterossexualismo, querem doutrinar as crianças e jovens para tal estilo de vida nefanda. Ou seja, vivemos um verdadeiro heteroterrorismo…

Esta introdução serve apenas para ilustrar o quão pífias são as “críticas” que seguem o mesmo roteiro utilizado acima, só que para atacar as pessoas LGBT e os grupos políticos e midiáticos que têm se posicionado favoravelmente aos direitos civis dos grupos que não seguem a orientação hegemônica. E não surpreende que o último texto a se utilizar de tal retórica de cunho higienista tenha vindo da revista semanal ‘Veja’, por meio de seu colunista Felipe Moura, sob o título “Ninguém nasce gay, nem sai do armário; Os perigos da propaganda homossexual na mídia conservadora”, que na verdade trata-se de uma tradução de um texto escrito por Stephen Baldwin, que desfere ataques, principalmente, contra o canal Fox.

Mapear o gene gay?

O texto que o articulista da “Veja” utiliza para atacar os parcos direitos civis e espaço midiático conquistados pela comunidade é todo construído em argumentos que poderiam muito bem estar na boca do pastor Silas Malafaia: há uma revolução gay em curso que visa corromper a sociedade para os seus valores subversivos. Chega a ser patético, quando o autor comenta uma pesquisa feita por Dr. Francis Collins, chefe do Projeto Genona Humano, que reuniu mais de 150 “dos maiores” geneticistas para encontrar – pasmem – o gene gay.

Esta teoria foi derrubada há mais de 50 anos por Simone de Beauvoir, em seu monumental “O segundo sexo”, mas há outros autores, contemporâneos, que também já desconstruíram a tese do “gene gay”, por exemplo, a filósofa Beatriz Preciado, que é categórica ao afirmar que as intenções de se localizar um gene gay não são mais do que instrumentos de poder para patologizar os corpos dissidentes. Ou, ainda, podemos retomar Michel Foucault, de quem Preciado é continuadora, ao estabelecer uma bio-história dos corpos, ou seja, a medicina e ciência da genética enquanto mecanismos normatizadores dos corpos. Ou seja, a carta genética mapeada em busca de uma “origem” dessa ou daquela orientação sexual nada mais é do que a busca pela legitimação do sexismo e da homofobia.

Ninguém sai do armário?

Em momento de precariedade argumentativa, o autor afirma que “ninguém sai do armário”, mas que apenas assume práticas momentâneas de homossexualidade e que (sem citar fonte alguma) mais da metade dessas pessoas volta pra heterossexualidade. Neste momento o autor comete um erro crasso ao definir o ato político de “sair do armário” com um ato exclusivo dos LGBT. Mais uma vez, Stephen Baldwin se revela altamente desatualizado no que diz respeito a conceito teóricos.

Em 1993, a pesquisadora norte-americana Eve Kosofsky Sedgwick ampliou o conceito de “saída do armário”, a saber: Sedgwick amplia o conceito e o aplica não apenas à assunção de identidades sexuais, mas também a outros sujeitos marginalizados social e politicamente: judeus, ciganos, usuários de drogas, imigrantes. Pois, tais sujeitos carregam em seus corpos marcas historicamente marginalizadas e alijadas da sociedade. Portanto, o ato de sair do armário não consiste apenas em dizer “eu sou”, mas sim uma ação política e cotidiana de assumir uma identidade fora da economia hegemônica.

Baldwin argui ainda que o estilo de vida das LGBT é “artificial” e que é causado pelo “ambiente”. E a heterossexualidade é um programa pronto que nasce encaixado em nossa subjetividade? Mas não interessa aqui fazer um debate dicotômico, até porque as sexualidades não o são. Limitá-las ao fator natural ou social é pobreza dialética e nisso o texto traduzido pelo articulista da revista em questão é rico.

Além de toda essa argumentação essencialista utilizada pelo autor norte-americano, espanta que o colunista do semanário liberal tenha ido buscar um texto estrangeiro para ratificar a sua opinião pessoal a respeito dos avanços políticos da comunidade LGBT. Devemos entender, então, que o colunista, ao replicar o referido artigo, acha ruim que políticas públicas às LGBTs sejam aplicadas? Compartilha do sentimento de que, fora da esfera da heterossexualidade, são todos doentes? E considera uma ameaça que as telenovelas tenham, sucessivamente, abordado a questão das sexualidades dissidentes?

Bem-vindo ao século XXI!