26 de outubro de 2018, 08h05

O perigo já mora na esquina

Andrea Caldas: "Sabemos que os sinais de abuso de poder judicial e policial não são novos e recentes. A diferença é que poderemos ter um presidente eleito que, não só seja leniente, como incentive tais abusos".

Às vésperas da eleição, mandados judiciais, quase simultâneos, são expedidos contra várias universidades do país.

As operações policiais visaram apreensão de materiais e impedimento de realização de debates.

Parece claro que o objetivo destas ações “coincidentes” é o de enviar um recado: o tempo de pluralidade está com os dias contado.

Diante deste e de tantos outros sinais, o que me impressiona é que muitos colegas da academia, ainda, ostentem ruidosa neutralidade em tempos tão perigosos.

Talvez, alguns imaginem que o autoritarismo e a repressão se voltarão apenas a alguns grupos, nos quais não se incluem.

Talvez, acreditem que só serão arrombadas as portas das salas daqueles que “falam sobre politica”, ou melhor, que falam sobre política no campo da esquerda.

Afinal, como disse o candidato que defende a tortura, serão os “vermelhos”, os varridos do país.

Ocorre que não é assim que funciona, na vida real.

A hora em que a Caixa de Pandora da arbitrariedade juridico-policial é aberta, ela expande seus tentáculos não somente para o primeiro escalão, tampouco, para ações focalizadas de sanção.

Cria- se um clima de permissividade para que cada guarda da esquina se sinta autorizado a julgar e punir quem, supostamente, lhe incomodar.

E não precisa ser só o conhecido comunista ou militante.

Pode ser o vizinho com o som alto, o professor que nos tempos do colegio lhe deu nota baixa, o jornalista que escreveu uma matéria que lhe desagradou, o diretor de Faculdade que não lê a sua doutrina, o livreiro, o jornaleiro, o sindico, o funcionario público…

Não, não se trata de catastrofismo.

E sim, das lições da história e dos sintomas que se repetem.

Quem acha que a ditadura civil-militar de 64 só prendeu e torturou comunistas, precisa recordar de Carlos Lacerda e de tantos que, até apoiaram o golpe, e depois foram ceifados pelo próprio regime.

E o que dizer da censura de letras de músicas caipiras, onde aparecia a referência à palavra “capitão” ou “sargento” ou dos humoristas proibidos porque o censor não entendeu a piada?

Ou a letra censurada da Rita Lee que dizia- em plenos anos 80- “mulher é um bicho esquisito, todo mês sangra”…

E a menina torturada porque tinha um voucher de agencia de viagens com as iniciais AP, e o douto agente da repressão achou ser uma senha para a organização política.

Sabemos que os sinais de abuso de poder judicial e policial não são novos e recentes.

A diferença é que poderemos ter um presidente eleito que, não só seja leniente, como incentive tais abusos.

É isto que está em jogo.

Não se trata só da esquerda mas, do clima de medo que pode se instalar em cada esquina, em cada lar, em cada escola.

E pode ser tarde demais querer se manifestar depois.