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07 de Maio de 2014, 16h09

“O poder é homem, branco e heterossexual”, diz secretária dos Direitos Humanos

Ideli Salvatti considera que é preciso transformar a força da Parada LGBT em ressonância política e fazer a disputa dentro do Congresso Nacional que, de acordo com ela, é machista e masculino

Ideli Salvatti considera que é preciso transformar a força da Parada LGBT em ressonância política e fazer a disputa dentro do Congresso Nacional que, de acordo com ela, é machista e masculino

Por Redação

No último domingo (4), como parte da programação da Parada LGBT de São Paulo, aconteceu a coletiva de imprensa que contou com a presença do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT); do governador Geraldo Alckmin (PSDB), de Fernando Quaresma, presidente da Associação da Parada LGBT de SP (APOLGBT), e da ministra dos Direitos Humanos Ideli Salvatti, que realizou um dos discursos mais contundentes na ocasião e que pouca repercussão teve na imprensa.

Salvatti iniciou a sua fala levantando a necessidade de se criminalizar a homolesbotransfobia. “É difícil falar disso, e mais difícil é combater. Por que?”, questionou a ministra. Posteriormente, Salvatti comentou a respeito da disputa de poder em torno da agenda LGBT. “Quero aqui deixar muito claro que a compreensão que nós temos, enquanto governo da presidenta Dilma Rousseff e enquanto secretaria de Direitos Humanos é de que essas lutas e essa disputa, tanto na sociedade, no Congresso Nacional, no poder Judiciário, pelo direito de cada um ser o que é, para cada um poder exercer aquilo que acredita e que é da sua naturalidade e essência, é uma briga de poder. Isto é uma briga de poder”, comentou.

Para a ministra, se trata, no fundo, de uma luta contra o patriarcado. “É de poder, para ser exercido em nome e a favor de todos ou em nome e a favor de poucos. E ela tem muitas facetas. Muitas. O machismo é uma delas. O racismo é uma delas. O patrimonialismo é uma delas. A violência contra trans e lesbo é também uma delas. O poder, infelizmente, é homem, branco, rico e hétero. O poder é isto, no nosso país (mas a presidenta da república é Dilma Rousseff), e é por isso que a gente tem que cotidianamente trabalhar, disputar e avançar”, disse Ideli Salvatti.

A representante dos Direitos Humanos da presidência da República, afirmou que o governo luta contra as opressões às minorias e que é por esse motivo que se faz presente na Parada LGBT. “É por isso que existe o trabalho que a Secretaria de Direitos Humanos faz, com o Disque 100. Estamos hoje com a campanha “não guarde no armário“. Denuncie, disque 100, para a gente poder ter a dimensão exata do que acontece na nossa sociedade, de onde estão os focos, como a gente trabalha”, convocou a ministra.

Idlei Salvatti também tocou no assunto que sempre gera polêmica, a necessidade de fazer com que a Parada LGBT de São Paulo tenha ressonância política. “Nós temos, juntos, um grande desafio. Vocês colocam 2 milhões, 3 milhões de pessoas na rua. Nós precisamos transformar isso em votos no Congresso Nacional, para a gente poder aprovar. Porque a disputa do poder, essa imagem de poder de homem, branco, rico, hétero, está instalada lá. Nós temos que disputar lá”, criticou a ministra.

Ainda em sua explanação, Salvatti, que já foi deputada e senadora, comentou das dificuldades de se combater as forças conservadoras no Congresso e aprovar projetos de lei que visem ajudar os setores historicamente humilhados. “Quero dizer isso com muita tranquilidade, porque fui parlamentar. Fui deputada estadual, senadora e sei o quanto é difícil aprovar qualquer lei para combater essa visão de poder para poucos. Não pense, hoje a gente tem uma Lei Maria da Penha, mas foi um sufoco aprovar. Nós temos legislação contra o racismo, foi um sufoco. Estamos com a PEC contra o trabalho escravo tramitando há anos, e não conseguimos aprovar ainda”, relatou a ex-parlamentar.

Para Salvatti, as diferentes formas de opressões são “tudo face da mesma moeda”. “É por isso que temos uma parada, um processo eleitoral pela frente, onde temos indiscutivelmente que pautar essa discussão, mas não uma discussão setorializada. Ah, este segmento da sociedade sofre violência e discriminação… Não. Todos aqueles que não são sequer parecidos com a imagem do poder são discriminados e, portanto, temos que trabalhar em conjunto, na mesma visão, de defender um país governado para todos em nome de todos, e acabar com aquele sentimento que infelizmente ainda está na sociedade”, analisou.