22 de fevereiro de 2018, 22h35

O pouso de Lady Bird

por Cesar Castanha Em uma sequência de Frances Ha (dir. Noah Baumbach, 2012), a personagem-título, interpretada por Greta Gerwig (também corroteirista do filme), decide, impulsivamente, ir a Paris. Parece-lhe uma experiência que deveria ter tido. Sem planejamento ou dinheiro e enquanto ainda procura um novo lugar para morar em Nova York depois que sua amiga […]

por Cesar Castanha

Em uma sequência de Frances Ha (dir. Noah Baumbach, 2012), a personagem-título, interpretada por Greta Gerwig (também corroteirista do filme), decide, impulsivamente, ir a Paris. Parece-lhe uma experiência que deveria ter tido. Sem planejamento ou dinheiro e enquanto ainda procura um novo lugar para morar em Nova York depois que sua amiga deixa o apartamento compartilhado pelas duas, ela viaja à França por um fim de semana. Durante esses pouquíssimos dias, a personagem passa tempo demasiado no apartamento onde está hospedada (que conseguiu emprestado de alguns conhecidos) ou caminha sozinha pela cidade, incapaz de dar conta do tipo de experiência que esperava dali.

Na estrutura do filme, Paris se soma às breves moradias de Frances, à falta de uma habitação ou a uma instabilidade nos movimentos da personagem. Eventualmente, Frances aceita um emprego, monta e apresenta um projeto autoral de dança e se estabelece em um apartamento novo. O filme se resolve nessa conclusão: Frances organiza a vida dela e se estabiliza na sua relação com o mundo. O final de Frances Ha, até o seu último quadro — quando Frances dobra um papel com o próprio nome para caber na identificação da sua caixa de correio, formando assim o título do filme — refere-se a um modo como o habitar Nova York é apresentado pela obra, entre uma possível (embora contestável) romantização do estilo de vida que jovens adultos de classe média levam na cidade e o reconhecimento de uma relação de não pertencimento que perpassa (mais uma vez, é contestável) uma geração.

Frances Ha é dificilmente o único trabalho a lidar com a cidade de Nova York a partir dessa ambiguidade (entre habitar romanticamente e a incapacidade de habitar). A série Girls, criada por Lena Dunham e marcada pela representação de um Brooklyn gentrificado, foi concluída em 2017 (depois de seis temporadas) com a protagonista deixando Nova York, e o seu episódio final não tem uma única cena na cidade que fora tão importante para construir uma ambientação para as personagens e se vincular ao seu desenvolvimento.

Em Lady Bird: é hora de voar, o primeiro filme dirigido por Greta Gerwig, a cidade de Nova York, antecipada pelos sonhos da protagonista (Saoirse Ronan) de deixar Sacramento, aparece nas últimas cenas do filme como um espaço desencantado. Caminhando por ela com um desinteresse que se assemelha ao de Frances em Paris, Christinne “Lady Bird” McPherson dirige todo seu afeto e pertencimento de volta para Sacramento em uma ligação para sua mãe (Laurie Metcalf).

O desnecessário acréscimo da distribuição brasileira ao título original do filme (apenas Lady Bird) ao menos toca em uma consideração sobre os movimentos da personagem. Sair de Sacramento para Nova York, como sugere o trocadilho no subtítulo, é a hora do voo. Mas acredito que Gerwig encontra mais melancolia nessa transição, nesse rito de passagem que se pauta em um movimento de migração, do que o entusiasmo convidativo do título brasileiro sugere.

Lady Bird, afinal, só se refere ao voo como a saudade do pouso. Se a personagem anuncia Nova York e a costa Leste estadunidense como um tipo de Terra Prometida, é a cidade de Sacramento, capital da Califórnia, que está sempre enquadrada como se o filme se deparasse maravilhado com aquele espaço. É este lugar que deve ser introduzido em uma frase de Joan Didion na cartela de abertura: “Qualquer um que fala do hedonismo da Califórnia nunca passou um Natal em Sacramento”.

A sua ansiedade por Nova York vem de como a personagem entende que deve se relacionar com o mundo, das experiências de que acredita que precisa participar para fazer parte de uma geração — e, nesse sentido, ela encontra semelhança com as protagonistas de Frances Ha e Girls. Mas enquanto Lady Bird constrói sua própria expectativa por Nova York como um momento em que pertencerá ao mundo, Gerwig vai conectando cada uma das experiências da personagem no seu último ano em Sacramento à materialidade do espaço da cidade. Lady Bird pode não reconhecer o lugar como parte do mundo que deseja habitar, mas ela toma parte de Sacramento, engaja-se em ocupar aquele espaço.

Se é esperada da geração de Lady Bird, a mesma geração de Frances e das personagens de Lena Dunham, uma recusa a se estabalecer em um canto do mundo, a habitar um espaço, Gerwig apresenta um filme sobre raízes e pertencimento. Sacramento, uma cidade de aridez aparente, de estradas e estacionamentos, de colégios católicos e casas à venda nos subúrbios, é descoberta pelo filme com o fascínio de quem, de algum modo, nunca deixou de habitá-la.

Pode-se argumentar que a cidade é uma representação nostálgica, daquilo que se perde na errância adulta por Nova York. Prefiro, no entanto, reconhecer no filme uma tensão entre o lar perdido de infância/adolescência e uma habitação do presente, como se Gerwig repetisse o olhar de sua personagens para a família e os amigos que ali permanecem. Sua melhor amiga continuará os estudos em uma faculdade próxima, uma outra garota de sua escola diz que prefere ficar na cidade, ser mãe (“Pense globalmente e aja localmente, não é o que dizem?”, ela diz a Lady Bird). E sua própria mãe dirige por Sacramento, repete uma construção da cidade nesse hábito cotidiano. Lady Bird lembra de ter dirigido, lembra de reconhecer, atrás do volante, os caminhos por onde a levava sua mãe. Ela lembra, com os seus pés repousados sobre o solo de Nova York.