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16 de Abril de 2018, 16h21

“O Processo” escancara o golpe com o artifício irrefutável da realidade

Enquanto Padilha usa de mentiras e "ficção" para tentar criminalizar o PT em sua série sobre a Lava Jato, Maria Augusta Ramos não precisou de mais do que a apresentação dos fatos para escancarar o que estava por trás do golpe que afastou a ex-presidenta Dilma Rousseff. Filme estreia em maio

Foto: Divulgação

Enquanto José Padilha, em sua série “O Mecanismo”, se utiliza da “dramatização” e da “ficção baseada na realidade” para inverter falas, distorcer fatos e, com o discurso de que “a lei é para todos”, criminalizar o PT e figuras como ex-presidente Lula e a ex-presidenta Dilma, o filme “O Processo”, de Maria Augusta Ramos, não precisa mais do que o registro da realidade para escancarar o golpe que está em curso no país e que começou com o processo de impeachment contra a primeira mulher a se eleger presidente do país.

Vencedor do terceiro lugar do prêmio de público no Festival de Berlim 2018, a obra, cuja estreia nacional ocorre em 17 de maio, foi exibida em uma sessão especial para convidados na noite deste domingo (15) em São Paulo . A exibição contou com a presença de um dos personagens centrais do documentário, o ex-advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, e de outras lideranças do PT, como o ex-prefeito Fernando Haddad, o ex-chanceler Celso Amorim, o ex-senador Eduardo Suplicy, o ex-ministro Aloizio Mercadante, entre outros.

De forma cronológica, começando pela votação da abertura do processo de impeachment contra Dilma na Câmara dos Deputados em 2016, o documentário mostra os bastidores do processo, com o registro das sessões na Câmara, no Senado, imagens de manifestações pró e contra o impeachment, reuniões da defesa da ex-presidenta e de lideranças do partido e vai até o momento em que o golpe é concretizado e Dilma deixa oficialmente o Palácio do Alvorada.

Manifestantes pró e contra o impeachment durante a votação da abertura do processo na Câmara. Foto: Divulgação

Uma das principais características do documentário de Maria Augusta Ramos é que ele não se utiliza de nenhuma entrevista ou depoimento feito exclusivamente para o filme. A obra se constitui de uma montagem de registro de reuniões, conversas e sessões que partem de uma câmera que faz papel de observadora. Essa característica, no entanto, acaba se tornando a principal essência da obra: a de escancarar a realidade e o que estava por trás do processo de impeachment sem apelar para um discurso partidário ou panfletário. A simples exposição de declarações, por exemplo, da autora da peça de impeachment que foi apreciada na Câmara, a advogada Janaína Pachoal, dizendo que quer olhar “pelas criancinhas do Brasil”, em contraste com os sólidos argumentos do advogado da ex-presidenta, José Eduardo Cardozo, já dá conta de denunciar a farsa de um processo em que não houve crime. Sem nenhum tendenciosismo ou técnica de edição, o registro de manifestantes contra o impeachment gritando “Não vai ter golpe, vai ter luta”, em contraste com os manifestantes pró-impeachment gritando “Pula, sai do chão, quem quer Lula na prisão” também dispensa explicações ou artifícios de convencimento.

“É um filme muito bem montado e que procurou dar os dois lados da questão. Agora, quando você apresenta os dois lados, fica muito flagrante o que aconteceu ali”, observou o ex-prefeito Fernando Haddad em entrevista à Fórum.

Sempre intercalado com legendas contextualizando as situações, “O Processo” mostra de forma sóbria como uma presidenta foi retirada do cargo sem cometer crime algum para dar lugar a um político que meses depois foi denunciado por corrupção e que teve seu processo arquivado na Câmara. O mesmo destaque é dado para o fato de que Eduardo Cunha, que abriu um processo de impeachment como uma chantagem ao PT, pouco tempo depois foi afastado e preso, também por crimes ligados à corrupção.

Durante a sessão especial, naturalmente, o ex-presidente Lula, que há pouco mais de uma semana se entregou à prisão política imposta por Sérgio Moro, foi lembrado pelo público com gritos de “Lula livre”.

À Fórum, a diretora Maria Augusta Ramos revelou que, durante a produção do filme, não imaginava que o golpe se aprofundaria ainda mais chegando até mesmo à prisão de um dos maiores líderes populares do mundo. Ela acredita, contudo, que o documentário, ainda mais sendo lançado neste momento, possa ser um alerta à população brasileira do que ainda pode vir pela frente.

“Não imaginava [a prisão do Lula], nem eu e nem ninguém imaginava isso. É um momento muito triste que estamos vivendo. Espero que as pessoas assistam o filme e nos ajude como país, como nação, a entender e processar tudo isso que está acontecendo pra gente voltar a ser uma democracia, para viver as instruções democráticas como elas realmente deveriam”, afirmou.

Confira, abaixo, os depoimentos de alguns presentes, incluindo a diretora, após a sessão especial de “O Processo” em São Paulo.

Maria Augusta Ramos, diretora do filme

Não imaginava, nem eu e nem ninguém imaginava isso. É um momento muito triste que estamos vivendo, e a gente vai lançar o filme nos cinemas em 17 de maio. Hoje foi uma pré-estreia, faremos outra no Rio de Janeiro, 17 de abril, ou seja, exatamente dois anos após a votação na Câmara dos Deputados. E acho que é um momento muito triste. Espero que as pessoas assistam o filme e nos ajude como país, como nação, a entender e processar tudo isso que está acontecendo para  a gente voltar a ser uma democracia, para viver as instruções democráticas como elas realmente deveriam ser.

Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro da Educação

Eu achei um filme muito bem montado, procurou dar os dois lados da questão. Agora, quando você apresenta os dois lados fica muito flagrante. E escancara muito a realidade nacional contemporânea. É uma filme que ao mesmo tempo choca pela lembrança que ele trás de episódios muito recentes e que não ficaram restritos ao que foi, ao período coberto. Mas que avança. Então, não deixa de ser um alerta dos perigos que estão por vir se nada for feito.

Aloizio Mercadante, ex-senador e ex-ministro da Educação

Acho que o filme faz uma leitura aprofundada do processo parlamentar, jurídico, do golpe. Ele retrata com fidelidade. É um documentário, os personagens principais estão lá apresentados, ele foca nessa abordagem do processo. Ele contribui muito para que as pessoas tenham uma percepção do arbítrio, da injustiça, do desrespeito ao Estado Democrático de Direito, e tenho certeza que outros trabalhos irão na mesma direção, pois o golpe não foi só tirar a Dilma. Foi também retirar direitos dos trabalhadores, entregar riquezas estratégicas do país. E ele tem um desdobramento, que é o Estado de exceção seletivo, onde o arbítrio, o lawfare, que é o uso partidário da Justiça, continua, para permitir que esses retrocessos históricos possam continuar ocorrendo. E talvez o próximo capítulo que esse documentário não atinge, mas que é fundamental e já estava implícito, foi a prisão do Lula, condenado com um atropelo institucional, desrespeito à cláusula pétrea da Constituição de direitos e garantias individuais.

José Eduardo Cardozo, ex-advogado Geral da União, fez a defesa de Dilma durante o processo de impeachment

Eu achei um filme espetacular do ponto de vista de mostrar os principais momentos de um processo muito difícil. Quem vivenciou esse processo em sua completude, como foi o meu caso e de outros advogados, sabe que foram captados os principais momentos, que expressam muito bem aquele que foi um dos momentos mais dolorosos da democracia brasileira, que continua se reproduzindo. Maria Augusta está de parabéns, é um filme fidedigno, que retrata fielmente o período. Ela consegue com imagens retratar todo um processo de seis meses, com muita habilidade e muita honestidade.

Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores

É um filme realmente muito bem feito, retrata um momento muito muito triste da história do Brasil. O nome, aliás, é revelador, não só porque ele define algo que não terminou, mas porque é um processo que continua. E faz naturalmente também uma ilusão à Franz Kafka. O absurdo que a gente está vivendo, uma perseguição a indivíduos, que são a presidente Dilma e agora o presidente Lula, mas também a perseguição ao povo, que está sendo privado dos seus direitos, de sua identidade, como o personagem de Franz Kafka em O Processo.

Paulo Teixeira, deputado federal

Esse filme tem que ser passado nas escolas, porque ele desmonta a farsa do “golpeachment” que levou o país a se desmanchar. Esse” golpeachment” feito por essas personagens que foram apresentadas, essa farsa que foi, desmanchou o Brasil. Portanto, esse filme tem que ser do conhecimento público, para que as pessoas vejam de que lado esteve e está a verdade, e que emboscada o Brasil entrou a partir dessa farsa em que os bandidos julgam os mocinhos.