05 de agosto de 2018, 08h23

“O projeto Jair Bolsonaro é uma deformação ideológica”, diz Silvio Almeida

Para intelectual, o candidato à presidência pelo PSL provoca divisões e separações, criando um mundo dividido pela cor da pele, pelo gênero, pela maneira de vivenciar a sexualidade.

(Foto: Divulgação/Faculdade 28 de Agosto)

“O projeto Jair Bolsonaro é uma deformação ideológica. Assim como o racismo e os racistas são resultados dessa mesma deformação”. Dessa forma Silvio Almeida define a candidatura de Jair Bolsonaro à presidência da República. Para o escritor, doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo e professor universitário. Em entrevista à Fórum, Almeida explica por que não basta combater o candidato, mas o projeto que Bolsonaro e seus apoiadores estão sustentando. “Tudo isso vai servindo aos projetos de poder, dos mais variados, mas fundamentalmente serve à perpetuação das desigualdades que nós observamos na vida social contemporânea”, diz Almeida, que acaba de lançar a obra O que é racismo estrutural?, da coleção Feminismos Plurais (Editora Letramento).

Fórum – Qual sua avaliação sobre as afirmações do candidato Jair Bolsonaro: “Os portugueses nem pisavam na África, os próprios negros que entregavam os escravos” e “Que dívida histórica é essa que temos com os negros”?

Silvio Almeida – Para responder essa questão eu vou relembrar uma conversa que tive ontem mesmo (quinta-feira, 2) com o professor Luiz Felipe de Alencastro, que é um dos maiores historiadores do mundo, um dos maiores especialistas na questão da escravidão, da história econômica do Brasil colonial. E, ao comentar as declarações do Bolsonaro, ele falou uma coisa que eu achei muito curiosa: desconstruir algo dito com esse nível de ignorância, de desfaçatez e até de torpeza moral equivale a você emagrecer. É muito mais fácil engordar e muito mais difícil emagrecer. O que ele quis dizer com isso é que, ao mesmo tempo em que alguém faz uma afirmação dessa, muito fácil de fazer, é extremamente difícil, depois, conseguir desconstruir essa mesma afirmação. Isso porque se exige um nível de elaboração que a maioria das pessoas, sequer, tem tempo para ouvir. Então, é muito fácil você fazer esse tipo de afirmação sem conteúdo, imoral, esse tipo de afirmação sem qualquer tipo de fundamento histórico. Agora, a gente que se vire para tentar desconstruir. E é uma tarefa a qual a gente se entrega.

Como diz o Achille Mbembe (historiador e cientista político), a África só existe no imaginário dos racistas. Existe, sim, o continente africano e toda uma série de conflitos e contradições.

Fórum – Essas afirmações ganham mais gravidade na medida em que foram feitas por um candidato à presidência da República?

Silvio Almeida – Ainda em relação ao conteúdo da afirmação, eu acho que tem muita gente boa já falando sobre isso. A professora Lilia Schwarcz escreveu um artigo, recentemente, na Folha de S.Paulo a respeito do tema. Mas, só para a gente colocar os termos do debate, a afirmação dele de que os portugueses não pisaram na África é absurda. Os portugueses pisaram e muito na África. Tiveram colônias na África, colonizaram a África. Então, não é possível que eles não tenham pisado na África. E sobre a questão da escravidão, entre os povos africanos, a gente tem que pensar o seguinte: são povos, nações africanas, que tinham entre si inúmeros conflitos e contradições, tais como os europeus. Ou seja, me parece, por exemplo, que o nazi-fascismo, as guerras mundiais, foram conflitos entre europeus e, também, que envolveram os seus descendentes nos Estados Unidos. Ou seja, não existe uma África, a não ser dentro de um imaginário racista. Como diz o Achille Mbembe (historiador e cientista político), a África só existe no imaginário dos racistas. Existe, sim, o continente africano e toda uma série de conflitos e contradições. Agora, o que a gente tem que lembrar é que a escravidão, do ponto de vista econômico, na sua relação com o capitalismo, foi um empreendimento todo conectado ao sistema econômico e ao sistema político europeus.  Ou seja, havia um sistema escravista, que perdurou durante muito tempo, e que até os seus estertores, até seu limite, esteve em relação direta com o processo de industrialização, que ocorreu na Europa no século 19. Em resumo, a afirmação do candidato é de alguém que, não apenas não conhece nada sobre história, mas também não tem nenhum interesse em conhecer. É de uma ignorância à toda prova. E só merece ser discutida por um nível de desinformação que esse sujeito destila e, também, pela repercussão que tem por ser um candidato a presidente da República muito bem colocado nas pesquisas.

Fórum – Em sua avaliação, Bolsonaro realmente pensa isso, por ignorância, ou ele faz uma espécie de número para alcançar mais popularidade com o eleitorado?

Silvio Almeida – Quando você me pergunta se o candidato faz por ignorância ou se ele é uma espécie de “clown” tentando alcançar popularidade, eu acho que são as duas coisas. São reflexos do que a gente está vivendo hoje no mundo da política. Não estou comparando diretamente os dois, mas estou colocando como par de um mesmo fenômeno, que são Bolsonaro e Donald Trump. Ele não é Trump por uma série de razões. A máquina que coloca os dois na posição de políticos viáveis dentro do sistema funciona de maneira diferente. Mas ambos são parte do mesmo fenômeno, que é este momento em que a economia pós-fordista, a economia neoliberal, as políticas de austeridade, enfim, começam a entrar em crise. Ou seja, a reprodução do sistema capitalista, tal como se encontra hoje, está em crise já há algum tempo. O ano de 2008 foi o ápice disso e a única maneira de você manter o sistema funcionando, tal como ele funciona, é aplicar medidas de restrição, da distribuição econômica, medidas de austeridade, cortes de impostos para ricos, cortes de direitos sociais. Assim você vai manter a lucratividade de certos grupos. Só que não dá para você fazer isso no contexto de hoje, com verniz democrático multiculturalista. Você tem toda uma ideologia neoconservadora, que se conecta, também, com essas práticas que são típicas da economia. Por isso, muita gente está dizendo o seguinte: ‘O neoliberalismo, enquanto ideologia pautada no universalismo, na globalização, na existência de uma razão universal que a tudo e a todos conecta, está no fim’. O que a gente tem hoje é esse tipo de sistema reprodutivo da economia, que tem que ser gerido com violência, com restrição de democracia, de participação de grupos sociais, com encarceramento em massa. E são esses sujeitos que são porta-vozes disso. Mas não pense que isso é fruto apenas de ignorância. A ignorância desses indivíduos é colocada a esse patamar por conta de um projeto político ancorado em um projeto econômico. O que temos que combater não é o indivíduo, tão somente, mas o projeto que torna possível pessoas como ele, como aqueles que se declaram que não são políticos e que são gestores e coisas do gênero. Há que se combatê-los, mas há de se combater o projeto que eles estão sustentando.

Fórum – Bolsonaro já declarou várias vezes ser contra a política de cotas para negros. O senhor, como professor universitário, já observou que alunos negros, por conta de cortes de investimentos do governo Temer, estão deixando de frequentar os bancos universitários?

Silvio Almeida –  A violência institucional, que é exigida para manter sob controle todos os desarranjos provocados pela crise econômica, exige, também, um ataque às minorias, um ataque à democracia, a projetos políticos democráticos ou à democratização do espaço de privilégios, como é o caso da política de cotas. Isso tudo vem ancorado no racismo. O racismo, que eu afirmo em alguns textos que escrevi, é uma tecnologia de poder, uma tecnologia de controle social, que sempre que for necessário será utilizada. De uma forma mais ou menos ostensiva, a depender do contexto. Então, o governo do Michel Temer e a ascensão de projetos políticos muito afinados com práticas fascistas são faces da mesma moeda ou, apenas, fenômenos que estão diretamente relacionados.

O racismo funciona como uma ideologia deformando e, ao mesmo tempo, conformando as nossas consciências a um mundo em que as pessoas são divididas pela cor da pele, pelo gênero, pela maneira de vivenciar a sexualidade.

Fórum – O senhor já disse que “racismo é político, porque, a depender do jogo de força, se constitui uns como negros, outros como brancos. Racismo é a lógica da confusão. Não é para explicar nada: é para confundir as pessoas, dividir as pessoas, fazer com que as pessoas adoeçam física e mentalmente. É para isso que serve o racismo”. O senhor vê relação entre essa ideia e a candidatura de Bolsonaro?

Silvio Almeida – O modo como o racismo cria divisões, separações, como ele obscurece a nossa possibilidade de ver as relações concretas que amparam as ideias explicativas do mundo tem relação com Bolsonaro. O projeto Jair Bolsonaro é uma deformação ideológica. Assim como o racismo e os racistas são resultados dessa mesma deformação. O racismo funciona como uma ideologia deformando e, ao mesmo tempo, conformando as nossas consciências a um mundo em que as pessoas são divididas pela cor da pele, pelo gênero, pela maneira de vivenciar a sexualidade. Tudo isso vai servindo aos projetos de poder, dos mais variados, mas fundamentalmente serve à perpetuação das desigualdades que nós observamos na vida social contemporânea.

Fórum – Ainda é impossível separar a questão racial com a luta de classes? Como se posiciona uma candidatura como a de Bolsonaro nesse cenário?

Silvio Almeida – Não é possível separar uma dimensão da outra. A pergunta raça ou classe é retórica, não visa uma resposta capaz de modificar a percepção e o entendimento de quem fez a pergunta, mas apenas levantar a possibilidade de uma discussão para quem já tem posições sobre isso. Porque do ponto de vista científico, filosófico, da teoria econômica, historicamente e logicamente sempre houve uma relação intrínseca entre os processos de racialização e a constituição das classes sociais. Sempre, desde os primórdios. A gente não tem como falar do capital e do domínio do capital na forma do capitalismo sem entender também que houve a criação da raça como elemento de controle social, rebaixamento da vida das pessoas. Nesse sentido, é só a gente ver a declaração dos empresários no momento em que havia uma certa dúvida sobre a viabilidade de um candidato que sustentasse as pautas neoliberais, as pautas de aprofundamento da crise ou da desigualdade no Brasil, o que interessa para algumas pessoas. Então, veja que alguns empresários não só aplaudiram, mas como consideraram, de fato, a hipótese de apoiar Jair Bolsonaro contra o “perigo” de um candidato de esquerda vir a ganhar a eleição. Temos que fazer toda essa conexão: a maneira como se desenvolve a luta de classes no Brasil, sua conexão com o restante do mundo. Temos que conectar tudo isso com os interesses que estão em jogo no Brasil, na luta institucional brasileira, o racismo, como algo que faz parte do panorama e de uma maneira muito específica da sociedade brasileira e a ascensão de um político como Jair Bolsonaro, que diversas vezes deu declarações racistas, preconceituosas e, mesmo assim, recebe apoio de parte, é bom destacar, do empresariado brasileiro.