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23 de janeiro de 2019, 19h41

O punhal de Brutus

Rodrigo Perez Oliveira diz que “Moro tem o controle do Coaf e da PF. Se quiser, ele implode com o governo num piscar de olhos”

Foto: Marcelo Casal Jr./Agência Brasil

A crise brasileira acaba de entrar numa nova fase: em apenas vinte dias, o bolsonarismo perdeu a narrativa da moralidade. O esquema de corrupção envolvendo lavagem de dinheiro através da apropriação de salário dos assessores fantasmas é nitroglicerina pura e tem potencial para comprometer diretamente o Presidente da República.

Já é possível visualizar no horizonte o colapso do bolsonarismo. Os aliados começam a fazer gestos de abandono. O governo vai ficando cada vez mais isolado. Em política, ninguém sobra sem apoio. Ninguém cai sem ter sido traído antes.

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O risco maior está na dupla Moro e Mourão, com apoio valioso da Globo e de setores do Ministério Público.

Na verdade, a Globo nunca quis Bolsonaro. Não é novidade para ninguém que a Globo ajudou a desestabilizar os governos petistas para pavimentar a volta dos tucanos ao Palácio do Planalto. O objetivo era eleger Geraldo Alckmin e assim lavar nas urnas o golpe parlamentar que derrubou Dilma Rousseff. Aconteceu o que poucos previam. Bolsonaro foi eleito. A operação saiu do controle.

Em um primeiro momento, perdido e confuso, o departamento de jornalismo da Rede Globo se dividiu entre a crítica cautelosa e a tentativa de aproximação com o novo governo. O famoso “morde e assopra”.

Miriam Leitão representou esse impasse. Ora criticava o autoritarismo, o obscurantismo e a incompetência do governo. Ora lambia as botas do General Santos Cruz, Secretário de Governo, em entrevista chapa branca.

Excitado com a vitória eleitoral, Bolsonaro não quis saber de conciliação e resolveu chutar o pau da barraca. Foi afobado o inexperiente capitão, que sem nenhuma cautela tentou refundar, do dia pra noite, a geopolítica do sistema de comunicação brasileiro.

A vingança chegou rápido. Contando com o apoio do Ministério Público, a Globo declarou guerra contra o governo.

Globo e Ministério Público. Tá aí a coligação mais poderosa no ecossistema político brasileiro. Juntos, Globo e MP formam um predador faminto e perigoso. A aliança foi firmada lá em 2013, na campanha midiática de destruição da PEC 37. Vocês lembram?

Neste momento, na altura em que escrevo este texto, os diretores da Globo têm nas mãos material suficiente para derrubar Bolsonaro. Devem ter o sigilo bancário de todos eles: dos filhos, de Michelle, da Wal do açaí e do próprio presidente da República. Carece de ser mais que ingênuo para acreditar que só o Flavinho teve a ideia genial de enricar roubando o salário dos assessores fantasmas.

Como se a família presidencial já não tivesse problemas demais, apareceram indícios que apontam para o envolvimento dos Bolsonaro com milicianos suspeitos de terem assassinado a vereadora carioca Marielle Franco. Perto disso, a “rachadinha” com os assessores fantasmas vira travessura de criança.

O que a Globo fará com todo esse material?

Por enquanto, tá liberando gota à gota, num cerco implacável e constante. Não dá pra saber se o objetivo é derrubar ou tutelar o governo. Se o governo cair, os próximos candidatos ao cargo de moralizador geral da República são Moro e Mourão.

A situação de Sérgio Moro também não é das mais fáceis. Se não romper com o governo, ele corre o risco de sair chamuscado, de perder o capital político que acumulou nos anos em que foi o antagonista de Lula. Se romper, pode perder espaço e condições para disputar, de dentro, o pós-Bolsonarismo. O grande desafio de Moro é acertar esse cálculo.

Moro tem o controle do Coaf e da PF. Se quiser, ele implode com o governo num piscar de olhos.

A situação de Mourão é mais confortável. Militar orgânico, sem vínculos com a política profissional na biografia, Mourão tem mais potencial que Moro para encenar o enganado e capitalizar o sentimento coletivo de desilusão que virá no pós-bolsonarismo. Enquanto Bolsonaro estava em Davos, Mourão distribuía sorrisos e simpatias no Rio de Janeiro.

Desde a campanha está claro que Mourão tem uma agenda própria para o Brasil, que não é a mesma de Bolsonaro. A vaidade da caserna não permite que o General seja subordinado do Capitão.

Ainda tem a bancada do PSL, que começa a ganhar vida própria. Durante a visita não oficial à China, os parlamentares mandaram vários recados a Bolsonaro: exigiram apoio oficial à comitiva, pediram um posicionamento na polêmica com Olavo de Carvalho e deixaram claro que a liderança de Flavio Bolsonaro não é natural. Como o presidente ficou calado, os aliados ameaçaram não apoiar a Reforma da Previdência.

A base aliada ameaçou o governo assim, publicamente. Definitivamente, esse não é um governo normal.

Dias depois, Joice Hasselmann apareceu bem à vontade em entrevista com João Doria. Os dois atacaram a estabilidade do funcionalismo púbico e firmaram uma “aliança em defesa do Brasil”. Doria corre por fora na disputa pela hegemonização da direita brasileira. Ele tem dois trunfos na manga: o governo de São Paulo e o talento para trair antigos aliados, como bem sabe Geraldo Alckmin.

Em assunto de traição, “know how” é funtamental.

Cedo ou tarde, Bolsonaro será esfaqueado novamente. Dessa vez, o agressor será mais competente que Adélio. Basta saber quem carregará o punhal de Brutus.

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