O rígido padrão da vida em comunidade no Facebook | Revista Fórum
25 de junho de 2018, 09h19

O rígido padrão da vida em comunidade no Facebook

Uma postagem pró-LGBT com a palavra bicha, uma foto artística com seios nus ou uma festa com nome malicioso: se a plataforma usada para a livre expressão do pensamento for a maior rede social do mundo, seus autores podem sofrer uma grande dor de cabeça. Onde fica o limite entre o controle e a censura? […]

Uma postagem pró-LGBT com a palavra bicha, uma foto artística com seios nus ou uma festa com nome malicioso: se a plataforma usada para a livre expressão do pensamento for a maior rede social do mundo, seus autores podem sofrer uma grande dor de cabeça. Onde fica o limite entre o controle e a censura? Existe esse limite? Quem já foi um dia (ou cinco, ou trinta) bloqueado no Facebook faz essas perguntas e busca subterfúrgios para continuar navegando em um dos principais meios de interação social da sociedade contemporânea.

O produtor Rafael Feijó enfrenta grande dificuldade para divulgar na rede uma das festas que promove no Rio de Janeiro. Tudo em razão do nome do evento: Danada. “Para o Facebook, Danada é um palavrão. Todas as vezes que eu lanço o evento e tento impulsionar a publicação, o Facebook recusa. Isso acontece em 90% dos casos. Já teve ocasião de eu republicar seis vezes a postagem para conseguir permissão”, contou o rapaz que sofre, pelo mesmo motivo, um novo bloqueio no perfil pessoal, desta vez por 30 dias.

A severa consequência de tantas punições, ele conta, é a redução do público da festa. “Está impossível trabalhar com a divulgação. O alcance vai para o inferno. Antes, chegávamos a ter oito mil pessoas confirmadas no evento, hoje esse número não passa de mil”, lamentou.

O produtor de festas Rafael Feijó viu o público da festa “Danada” cair depois de seguidas punições no Facebook. Foto: Acervo Pessoal

O Facebook, seja através do algoritmo, seja através da “grande equipe” que, segundo a plataforma, avalia as denúncias de usuários, não parece saber lidar com os múltiplos significados que uma palavra pode transmitir. Bicha pode ser dita em tom ofensivo quando parte de uma pessoa homofóbica para um homossexual. Mas pode também ser usada em tom festivo e amigável entre LGBTs.

O cineasta pernambucano Marlon Parente, em um caso de grande repercussão, foi bloqueado no Facebook por divulgar o documentário dirigido por ele com depoimentos de homossexuais. O filme trata de aceitação, preconceito e liberdade. O nome do filme: Bichas.

A punição, em 2016, aconteceu em três etapas. Primeiro uma advertência por 24 horas, depois uma suspensão por três dias e uma última por sete dias.

O jornalista Renan Wilbert passou por situação similar. Ele é dono da página “Igreja de Santa Cher na Terra”. O nome é uma homenagem bem-humorada à cantora e atriz norte-americana, um ícone gay. Ele reagiu, em um post, a um comentário do autor de novelas Benedito Ruy Barbosa, que havia soltado, em uma entrevista coletiva, a frase “Odeio história de bicha”. A postagem crítica de Wilbert resultou em uma punição da rede social. O motivo foi mais uma vez o uso da palavra bicha.

O jornalista Renan Wilbert baniu o uso da palavra bicha de sua página no Facebook. Foto: Arquivo Pessoal

“Eu fiz uma postagem com o título “Eu amo história de bicha”. Essa postagem foi bloqueada por causa da palavra bicha. Nada no texto era ofensivo a ninguém. Não falava mal do Benedito Ruy Barbosa, só dizia que amo história de bicha. Mesmo assim o texto foi bloqueado”, recordou.

Renan não se sentiu censurado, mas passou a adotar estratégias para fugir do controle da rede social. Ele baniu a palavra bicha dos “textões” que escreve na rede social. “Bicha, viado, sapatão. O grande problema é que o algoritmo não considera o contexto”, sintetizou.

 

Seios sem mamilos

O que é pornografia, o que é arte? O Facebook não entra nessa discussão e veta integralmente fotos de seios femininos . As exceções são fotos de campanhas de amamentação e de mulheres que passaram por mastectomia. Nas regras estabelecidas pelo ‘Face’, seios são permitidos, mas sem mamilos.

A jornalista Camila Marins lembrou de uma situação que passou quando integrava o sindicato da categoria no Rio de Janeiro. “Uma vez fizemos uma campanha para ampliar a licença-maternidade na EBC (empresa de comunicação do governo federal). Postamos três fotos de mulheres e um homem sem as camisas com a frase “De peito aberto, negocia EBC. Assim que a gente postou, eu fui logo bloqueada”.

A fotógrafa Larissa Zanchetta passou pelo mesmo. O Facebook removeu uma foto artística por também ferir os padrões da comunidade. “Eu postei a foto, aí o Facebook tirou pela primeira vez. Fiquei muito p*ta, postei novamente e o Facebook voltou a tirar.”, disse Larissa, que argumentou com o Facebook sobre o valor artístico da imagem, mas nada adiantou. Ela ficou com a absoluta convicção de ter sido censurada pela plataforma.

“E rola uma hipocrisia de darem um espaço para você argumentar, mas nada do que você escreve é levado em consideração. Acaba sendo mais simples banir todo o conteúdo do que analisar caso a caso.

 

A especialista em redes sociais, Patrícia Andrade Ladeira, já enfrentou alguns problemas na administração de contas de clientes no Facebook. Desde uma simples fita métrica em uma foto sobre emagrecimento até uma camisa dos Rolling Stones são motivos de apreensão. No primeiro caso, ela alertou uma empresária de que a tal fita poderia ser interpretada como indução ao emagrecimento. Já a camisa do grupo britânico provocou um atrito inesperado com um contratante depois de uma medida abrupta da rede social.

“Houve uma postagem de uma foto com a comercialização de uma camisa dos Rolling Stones na página do cliente. O Facebook retirou a foto, até aí tudo bem. Mas no dia seguinte, sem um aviso definitivo, a página foi excluída. O cliente tinha mais de 30 mil seguidores conquistados organicamente e acabou nos responsabilizando pelo que aconteceu”, relembrou.

Patrícia foi administradora da conta oficial da atriz Paolla Oliveira em 2015. Conta esta que um dia não foi de Paolla, mas de um fã e, para o espanto dela, conseguiu o tão almejado selo azul de verificação do Facebook. “O menino fazia postagens em primeira pessoa. Seria perigoso para a imagem dela se houvesse um conteúdo inadequado”, contou.

“Eu perguntei a ele como conseguiu o selo de verificação. O rapaz respondeu que enviou uma cópia do próprio documento, ou seja, o Facebook sequer analisa a documentação enviada. A gente procurou o Facebook assim que a gente soube que havia uma página ‘oficial ‘ da Paolla. Nada foi feito”, completou.

Para a especialista, a repetição no Brasil do modelo norte-americano da rede de Marc Zuckeberg explica as dificuldades dos brasileiros com a plataforma.

Nem mesmo a atriz Paolla Oliveira escapou de problemas com o Facebook. Foto: Reprodução

“O Facebook prefere bloquear uma pessoa a arcar com um eventual processo milionário. As regras estão lá expostas para todos lerem, mas nem todo mundo se dá ao trabalho e acaba sofrendo as consequências como advertência, suspensão e até o bloqueio da rede social. O Facebook é, acima de tudo uma empresa e tem suas regras como toda empresa. Não é nem um pouco democrático”.

Ela defende uma maior adequação da plataforma aos costumes de cada região. “O Brasil é o terceiro país em número de usuários e o maior do mundo em engajamento. Já que o Facebook fala tanto em comunidade, deveria se atentar à realidade cada país e se aproximar mais das pessoas”, definiu.

A reportagem entrou em contato com a assessoria do Facebook, mas até o fechamento desta reportagem nenhum representante da rede social havia se manifestado.

 


#tags