19 de junho de 2018, 18h13

O vaso sanitário ou a ciência

Em novo artigo, Charles Carmo ressalta que “as mãos não têm vaidade. Com a liberdade que foi negada aos quadrúpedes, pudemos usar as mãos para construir instrumentos, armas e decisivas invenções, como o vaso sanitário”

É certo. Ao tornarmo-nos bípedes, há milhares de anos, pudemos ver o mundo de outra perspectiva. O que perdemos em velocidade, ganhamos com a vista. Se a paisagem progrediu, bem melhor livrar as mãos do caminhar. Inventamos as ferramentas. Com as mãos livres, toca-se até piano. O sujeito corre, atira uma flecha; pronto. Tem-se um porco no jantar.

Sim, o cérebro tem seu lugar, mas há que se relativizar. Ponha o cérebro do Mozart numa capivara e não sairá uma única nota. Até as artes carecem da anatomia em sua integralidade, mesmo que nos falte um membro ou uma capacidade, compensamos com outras.

As mãos não têm vaidade. Com a liberdade que foi negada aos quadrúpedes, pudemos usar as mãos para construir instrumentos, armas e decisivas invenções, como o vaso sanitário.

Sim, o vaso sanitário. Esse, que no rol das grandes invenções humanas é colocado à sombra da roda e da imprensa de Gutenberg, mas a quem a luzente inteligência popular concedeu o mais lapidado dos títulos honoríficos: trono.

Confunde-se frequentemente a modéstia com falta de viço. Acaso alguém consegue precisar o quanto nossas vidas já dependeram dele? Quantas ideias e decisões, amadurecidas no silêncio do vaso sanitário, mudaram nossas vidas?

Não o sabes porque vivemos em um mundo onde renegamos aquele que protege e guarda nossa única e verdadeira soberania, a mais íntima das horas.

No vaso sanitário foram tomadas as maiores decisões militares da história moderna; mas não encontrarás um general que admita. Negam três vezes e juram tê-las concebido analisando o campo de batalha, entre conferências do Estado Maior das Forças Armadas. Ingratos! Vis!

Não obstante, nunca um gracejo foi tão sério, jamais uma alcunha foi tão bem empregada.

Trono.

No vaso sanitário, todo mundo é absoluto, ele nos iguala. Não a igualdade dos cemitérios, mas em vida.

Longe de mim atraiçoá-lo, por isso conto o ocorrido sem sal ou açúcar. Deu-se assim. Estava eu no exercício da fugaz realeza, com as mãos livres, como permite o trono e o fato de ser bípede, quando li, atônito.

“Cientistas afirmam que defecar sentado é errado”.

A notícia não podia chegar em pior hora.

Quanta coisa a ser dita naquele momento, mas como não se separa o castigo do destino, vieram com essa.

Acostumada a fazer de até mesmo um simples hábito de tomar café, um vício e uma virtude, em dias alternados, deferia a ciência, inoportunamente, um ataque ao reservado.

Percebes?

Que pretendem ao atacar o vaso sanitário? Um desastre militar?  A escassez literária? O colapso das ideias? O aumento dos juros? As consequências são imprevisíveis. E, ainda assim, a ciência pugna pela destruição deste domínio que a todos assemelha e conforta.

Quando se tornou, a ciência, tão imprevidente?

A situação era delicada. Ou prestigiava o legado científico, ou apostava que tudo está em transformação, e esperava o dia seguinte, quando, quem sabe, outra pesquisa me redimisse.

Lembrei-me do café. Uma hora previne o AVC, logo depois causa algum tipo de câncer.

Minhas mãos estavam livres.

Sou bípede, disso não posso esquecer.

E dei ao avanço da ciência o tempo necessário, porque outro eu não dispunha.