21 de junho de 2018, 20h44

O vexame dos brasileiros na Rússia e a falta de humanismo na educação

O comportamento dos brasileiros que postaram os vídeos bombásticos que chamaram a atenção de muita gente não é apenas uma manifestação de machismo, mas uma consequência do tipo de educação proeminente no Brasil nos últimos 20 anos

Vídeos Machistas. Foto: Reprodução

O comportamento dos brasileiros que postaram os vídeos bombásticos que chamaram a atenção de muita gente não é apenas uma manifestação de machismo, mas uma consequência do tipo de educação proeminente no Brasil nos últimos 20 anos.

Luciano Gil Mendes Coelho, ex-membro do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Piauí (Crea-PI); Diego Jatobá, ex-secretário de Turismo de Ipojuca (PE); Eduardo Nunes, tenente da Polícia Militar em Lages, Santa Catarina. Como podemos ver, todos são formados com um tipo de educação considerável. Mas o modelo utilitarista que auxilia muito bem o capitalismo e que dominou a educação faz com que tais indivíduos, verdadeiros homens latas, dediquem-se aos estudos apenas para arrumar um emprego, o mais bem pago possível.

A educação para adquirir cultura, para lidar com as humanidades, tornou-se inútil. Uma educação que tem como objetivo transformar pessoas em capital humano, de modo que “será mais fácil, para conseguir seus objetivos, ver o homem como uma ‘lata’ vazia que vão enchendo com seus ‘depósitos’ técnicos”.

A classe média, que tem acesso a esse tipo de educação, investe em seus filhos para que estes se tornem engenheiros, advogados, médicos etc.. Trata-se de uma educação técnica, eficiente que contribui para o desenvolvimento do capitalismo, não do ser humano. Assim, como afirma Paulo Freire, os seres humanos “perdem assim seu poder de criar, se faz menos homem, é uma peça”.1

O tipo de cultura que se tornou rentável para o sistema capitalista é a voltada para a massificação do ser humano. Dessa forma, para se construir produtores e consumidores em potencial desse tipo de cultura é necessário apenas uma consciência ingênua. A existência de ilhas de criticidade acaba sendo importante nesse mundo, mas revela claramente a concentração do saber em poucas mãos.

Paulo Freire destaca que sem o objetivo de desenvolver uma consciência crítica nas pessoas pode até haver um desenvolvimento industrial e tecnológico, mas a consciência torna-se fanática. Cria-se um homem massificado. O autor, partindo desse raciocínio, enumera o que vem a ser uma consciência ingênua.

Esse ser apoia-se em “um simplismo, na interpretação dos problemas, isto é, encara um desafio de maneira simplista”. Conclusões apressadas e superficiais. Está mais apto ao fanatismo e a “considerar que o passado foi melhor”. Subestima o homem simples. “É impermeável à investigação. Satisfaz-se com as experiências. Toda concepção científica para ele é um jogo de palavras. Suas explicações são mágicas.”

Istvan Mezaros destaca que: “Vivemos sob condições de uma desumanizante alienação e de uma subversão fetichista do real estado de coisas dentro da consciência (muitas vezes também caracterizada como ‘reificação’) porque o capital não pode exercer suas funções sociais metabólicas de ampla reprodução de nenhum outro modo”.2

O capitalismo, que controla os passos das diversas atividades laboriosas, tecnologia, medicina, engenharia etc., precisa da autoalienação do trabalho, caso contrário, isto é, se vigorasse a autoconsciência, o desenvolvimento tecnológico não estaria mais baseado no lucro, mas na necessidade humana. “A produção é realizada com a finalidade do lucro, não com a do uso”, disse Albert Einstein.3

É para exercer esse tipo de trabalho que a educação passou a servir. Esqueçam os cidadãos, somos todos produtores e consumidores de mercadorias. Mercadorias que, pela falta de educação humanista, não nos preocupa se poluem o meio ambiente, se são inúteis para a vida harmônica entre as culturas e humanidades, apenas produzimos sem pensar, porque a lógica da sobrevivência como espécie capitalista nos disse para ser assim.

Não é por acaso que esse tipo de educação é legitimada por prêmios Nobel (Friedman, Schultz e Becker), por intelectuais coletivos do capital como o Banco Mundial, a OCDE, Fundação Ford, a Open Society Foundation de George Soros etc., e por entidades empresariais. O objetivo é “converter o conhecimento e a formação humana em ‘capital humano’”4, nos destaca o reitor da UFRJ, Roberto Leher.

Hoje, o ser humano trabalha para arrumar dinheiro. Essa é a finalidade do trabalho. Por isso, em muitos casos, se submete a condições desumanas. Não sabe o valor social do que produz, da violência que sofre e a que promove, tanto faz, o objetivo é ganhar dinheiro. O médico acelera o atendimento do seu paciente, aproveita-se do mercado de alto valor de que faz parte. O engenheiro faz o mesmo, advogados, arquitetos etc., também. Seres formados, talvez exímios em suas atividades, mas que não se distanciam tanto de uma máquina quando o quesito é pensar o outro.

Os homens machistas, misóginos, etc., que, embora formados apresentam um comportamento de um pré-adolescente, dos vídeos que se alastram pelas redes sociais, são frutos do seu tempo, da sua sociedade, da crise econômica e cultural de que passa o Brasil (talvez seja por isso que é possível enxergar com maior clareza essa decadência nos brasileiros educados e não nos indivíduos de outros países). Mas é principalmente da educação (que vigora em outros países, mas que se agrava aqui por causa de uma crise que culpa o suposto humanismo que há na educação) que receberam a qual vilipendia mais e mais as capacidades humanas, transformando os seres, que deveriam ser pensantes, em peças a ponto de um dia se confundirem com os instrumentos que operam. Reproduzem de forma acrítica o conteúdo que recebem, porque não possuem capacidade interpretativa para ir além da forma rasa de como as coisas lhes aparecem. E se o Brasil não vencer essa Copa, a principal imagem que termos dessa vez será um vexame, talvez que deixa marcas muito mais profundas que o 7 a 1.

1 FREIRE, Paulo. Educação e mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. p. 38

2 MÉSZÁROS, István (org.). A educação para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2008. p. 59.

3 EINSTEIN, Albert. Por que socialismo? https://www.marxists.org/portugues/einstein/1949/05/socialismo.htm

4 https://marxismo21.org/wp-content/uploads/2014/08/R-Leher-Estrat%C3%A9gia-Pol%C3%ADtica-e-Plano-Nacional-Educa%C3%A7%C3%A3o.pdf