22 de março de 2018, 22h05

Observatório da cena política evangélica

Valdemar Figueiredo, que é pastor, diretor do Instituto Mosaico, doutor em Ciência Política e doutorando em Teologia retorna à Fórum como colunista. Em seu espaço, fará uma análise da cena evangélica na política nacional e o que a permeia. Confira

Retorno a este espaço com um propósito bem definido: repercutir as pesquisas e análises do Observatório da cena política evangélica. A formação do observatório é iniciativa do Instituto Mosaico, do qual sou o idealizador.

Destaco dois extremos deste fenômeno: (1) Por um lado, parcimônia em falar a respeito por puro pudor religioso; (2) Por outro, impropérios são ditos numa discussão tão viciada quanto agressiva.

Diversas pautas do debate público são polarizadas pelas “bancadas evangélicas” nas câmaras municipais, estaduais e federal. No que se refere aos direitos civis das minorias, os discursos nas casas legislativas confundem-se com púlpitos de igrejas. Eventualmente ouvem-se “améns” e “aleluias” como aceno de aprovação para os oradores exaltados que desancam o que consideram perversidades.

Enquanto se discute a laicidade tendo por parâmetro os usos ostensivos dos símbolos religiosos nos espaços públicos, pouco se sabe, e quase nada se comenta, sobre o que acontece nos espaços de cultos para construção de projetos de poder.

Invocam-se poderes seculares nos espaços sagrados e poderes divinos nos espaços públicos. O mito da Torre de Babel ecoa no Brasil. Falação danada em que os argumentos caminham na direção de buscar financiamento público para construção de TORRES que potencializem o alcance das redes de comunicação.

Permita-me compartilhar um fato prosaico. Quando defendi a minha tese de doutorado no IUPERJ pelos idos de 2008, disse convictamente que a dita “bancada evangélica” defendia uma agenda moralizante em plena luz do dia e pedia concessões de radiodifusão nas sessões noturnas. Mas falar em projeto de poder, na época, parecia-me exagerado. Pois bem, não demorou muito. No mesmo ano, o Bispo Edir Macedo publicou pela Thomas Nelson o livro Plano de poder: Deus, os cristãos e a política. Não lembro bem do miolo, bastou a capa para me contradizer.

De lá para cá a coisa não parou de crescer. As redes de comunicação evangélicas são os principais protagonistas deste tipo de representação política. Não é o irmãozinho assíduo e fervoroso que senta no primeiro banco da igreja que é ungido para representar a comunidade de fé na câmara municipal, muito menos a irmã que se desdobra na ação social assistindo aos necessitados do bairro. A representação da qual estamos tratando tem a ver com cantores gospel, radialistas, concessionários de rádio e tv, proprietário de editoras, gestores de gravadoras, animadores de portais na Internet, figuras célebres incensadas com a fumaça do gelo seco no altar. Redes de comunicação que não param de crescer nos seus alcances e na construção de suas estruturas políticas.

Sem entrar no mérito das fontes e dos critérios de verificações numéricas, apreciemos o quadro que serve como uma amostragem desse fenômeno que sabidamente não para de crescer no Brasil. Deixemos as inferências para os próximos artigos divulgados aqui na coluna da Fórum e nas redes sociais do Instituto Mosaico. Por enquanto, fiquemos apenas com o quadro numérico frio.

Representação política evangélica no Congresso Nacional (1983-2018)

 

Legislatura

Titulares

1983-1987

12

1987-1991

32

1991-1995

23

1995-1999

30

1999-2003

52

2003-2007

61

2007-2011

44

2011-2015

79

2015-2019 *

203

* A Frente Parlamentar Evangélica. Data de Publicação no Diário da Câmara dos Deputados: 09/11/2015

Antes de finalizar quero dizer da minha perspectiva. Não sou um observador que olha de fora. Falo de dentro. Cultivo uma teimosa esperança na pertinência da Igreja enquanto promotora da EMANCIPAÇÃO humana. Combato, de dentro, os reacionários que justificam suas frustrações se especializando em CASTRAÇÃO humana. Vivo na comunidade de fé ambiguidades, contradições, amor, ódio, atração, repulsa, amizades, beleza, perplexidade, etc.

Minha esperança é que através destas iniciativas modestas, a coluna na Fórum e o Observatório através do Instituto Mosaico, muitas pessoas se apresentem para efetivarmos o necessário contraponto ao que se convencionou chamar de representação política evangélica. A democracia madura prima pela valorização da pluralidade e quando alguns assumem o discurso que estão atuando na política em nome de Deus, devemos exigir a procuração, com papel timbrado, com a assinatura de Deus com firma reconhecida.

Não é pecado perguntar para esta turma “investida” do poder secular, mas que se pronuncia com sotaque do céu, o mesmo que Jesus indagou aos seus discípulos que estavam seduzidos pelo poder: “De que espírito sóis?”