Glauber Piva

05 de abril de 2019, 17h32

Ódio à democracia – nota 3

Precisamos de grande capacidade política, articulação internacional e a compreensão de que as tecnologias digitais mudaram o mundo, desde os modos de produção de bens até os modos de produção de opiniões

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Abandonemos a ingenuidade: o desmonte do país e sua desinstitucionalização é um projeto, não um acaso. A incompetência social, a inépcia generalizada, o despreparo intelectual são parte da mesma dramaturgia que faz de nossa democracia uma contradição em si mesma e transforma o país num fantasma com os olhos voltados pra trás. Estamos encravados no meio de uma guerra híbrida muito intensa, um caos cuidadosamente administrado.

A democracia se dá nos processos, não nos resultados. A lógica democrática não é a fundadora de um sistema de governo, mas, sim, de um sistema no qual o debate sobre a esfera pública é permanente e, por isso, abre a possibilidade dos governos estarem nas mãos de “qualquer um”, inclusive dos pobres. Este é o ponto. Esta é a interdição que está posta.

Neste momento da história do Brasil – e da leitura do texto também – cada um pode fazer a sua escolha. Ou continua acreditando que somos um país livre, que as instituições funcionam normalmente, que nossas opiniões são resultado exclusivamente da soma educação familiar + formação escolar + conjunto de informações livres que apreendemos, ou começa a desconfiar que o mundo é pequeno, os interesses econômicos (eu chamaria de o capital, mas não quis parecer sectário) não respeitam as fronteiras dos países e que há forças internacionais que agem nos processos políticos nacionais. Qual a sua escolha?

Observemos alguns pontos.

1-O Brasil tem uma sociedade de elite que ainda está estruturada como sociedade colonial, com suas relações internacionais, participação nas decisões dos governos nacional e locais, controle da circulação de opiniões na mídia tradicional e financiamento eleitoral. Sobre isso, ler mais detalhadamente a nota 2.

2-Desde a eleição de Lula e a definição por uma política externa em favor da multipolaridade que o Brasil é observado ainda mais atentamente pelos Estados Unidos. São as guerras híbridas, conforme Andrew Korybko, autor do livro Guerras Híbridas – das revoluções coloridas aos golpes: “Há uma Guerra Híbrida muito intensa sendo travada no Brasil neste momento e afeta todas os aspectos da vida de cada cidadão. Ao longo dos últimos dois anos, agentes externos vêm tentando muito sutilmente condicionar a população para voltá-la contra o Partido dos Trabalhadores, usando instrumentos como a Operação Lava Jato, apoiada pela NSA [agência norte-americana de inteligência]”.

3-A política externa brasileira foi o primeiro estopim, mas depois vieram outros (ou um principal, pelo menos). Lembremos: o rechaço à ALCA; o fortalecimento do Mercosul; a aproximação com África do Sul, Rússia, China e Índia; a criação da UNASUL e do banco dos BRICS, o isolamento de Israel, a articulação em torno da proteção e promoção à diversidade cultural (cuja resolução na ONU, articulada por Brasil, França e Canadá, recebeu apenas dois votos contrários, justamente de Estados Unidos e Israel; a liderança do G20 pelo Brasil; e por aí vai.

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4-De repente, o Brasil, que sempre fora apenas duas coisas: exportador de commodities e remetente de lucros ao exterior, passou a ter grandes players no mercado econômico mundial (construtoras, bancos e indústria de alimentos, principalmente), descobriu o pré-sal que lhe garantiria, enfim, autonomia política e independência financeira para se tornar um gigante na geopolítica mundial.

5-Com o pré-sal, os BRICS, com a liderança importante de Lula, decidem substituir o dólar nas transações internacionais – o que tinha potencial para abalar ainda mais a hegemonia estadunidense. O primeiro país a topar isso seria a China, justamente o que viria a ser o maior parceiro na comercialização do petróleo do Pré-sal.

Uma tentação aqui é relembrar de personagens menores, como Eduardo Cunha, ou de argumentos inconsistentes, como pedalada fiscal. Melhor ignorar o risco e seguir.

6-Em 2013 o país é varrido por uma turbulência sobre a qual pouco se sabe até hoje. Tudo começou com o aumento da passagem de ônibus em São Paulo e, de repente, as ruas estavam cheias de gente gritando “contra tudo o que está aí”, surgiram black blocs, que sumiram como vieram. Como é que isso aconteceu mesmo?

7-Em 2013 descobre-se que há muito tempo que os Estados Unidos, por meio da NSA, grampearam a presidenta da República, o avião presidencial, ministros e, pasmem!, a própria Petrobras (à época uma das maiores empresa de petróleo do mundo e, certamente, a mais promissora), que estava se tornando o maior risco para os EUA na economia do petróleo.

8-Documento vazado pelo WikiLeaks ainda em 2009 revelou aproximação de Sérgio Moro e outros juízes brasileiros com a CIA, inclusive com a participação em atividades de formação oferecida pelo governo dos Estados Unidos.

9-Cinco anos depois do evento no Rio de Janeiro relatado pelo Wikileaks, a deflagração da operação Lava Jato demonstrou o “aperfeiçoamento” do Poder Judiciário nas investigações sobre caixa 2 e lavagem de dinheiro no Brasil. Ao mesmo tempo, instalou-se no país um clima de instabilidade política interessante aos Estados Unidos.

10-Depois do impeachment de Dilma, Michel Temer escolheu para presidir a Petrobras Pedro Parente. Ele iniciou, já em maio de 2016, um processo de venda de ativos e facilitação da privatização no setor do petróleo. A entrega da camada pré-sal para o capital estrangeiro começou com parcelas preciosas das áreas de Carcará, Iara e Lapa.

A lista é gigantesca e sem-fim. Vale, porém, recuperar o que Karybko disse sobre o funcionamento e o potencial das guerras híbridas: “O estudo detalhado da sociedade de um estado-alvo e das tendências gerais da natureza humana (auxiliado por pesquisas antropológicas, sociológicas, psicológicas e outras) permite construir um quadro de como é o funcionamento ‘natural’ daquela sociedade. Armados com esse conhecimento, os praticantes da Guerra Híbrida podem prever com precisão quais ‘botões apertar’ por meio de provocações para obter respostas esperadas de seus alvos, tudo com a intenção de perturbar o status quo por processos locais de desestabilização manipulados por forças externas. Podem ser conflitos étnicos, movimentos de protesto (‘Revoluções Coloridas’) ou a exacerbação de rivalidades regionais. O ponto principal é produzir o maior efeito com o mínimo de esforço e, então, explorar a evolução dos acontecimentos e a incerteza crescente a fim de realizar os planos políticos”.

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O ódio à democracia não é, portanto, uma narrativa ingênua e espontânea. Aqui está o grande paradoxo no qual estamos: passamos a ser uma nação que, ao negar a política, está renunciando à própria democracia, ainda que faça isso em nome dela. O ódio à democracia como religião, ou seja, o insistente “discurso da antipolítica”, como prefere Rodrigo Vianna, se instalou na sociedade brasileira como um mantra que, repetido de várias maneiras, adere à epiderme do nosso próprio cotidiano. Ele está acima de nossas vontades individuais, está presente naquilo que somos, na visão de mundo que, ao mesmo tempo, compomos e nos compõe. E essa religião só beneficia a sociedade de elite brasileira e os grandes interesses do capital internacional.

Como sair dessa trama que nos mantém presos como papagaios numa gaiola: sem asas, mas com um eloquente talento de repetir estupidezes?

Do ponto de vista das instituições políticas, há a renúncia à democracia como processo em nome de sua redução como sistema piramidal de representações. Isso é um engodo. Esta renúncia não é uma bobagem exclusiva da direita, mas também está instalada nas atitudes dos partidos progressistas. Vejamos o PT: quanto mais dedicou suas energias às eleições, ao controle de governos e cadeiras nos parlamentos, mais perdeu sua potência democrática. É claro que o PT deveria ter buscado ganhar eleições. Quanto a isso não há dúvidas. Mas o fato é que ele fez isso em detrimento do que lhe fazia mais democrático e potente: a força de sua militância popular. E dificilmente voltará a ter força democrática se não eliminar os castelos de princesa que lhes habitam o coração do partido.

Voltemos. É inegável que vivenciamos uma intencional, reincidente e progressiva fratura de nosso tecido social. Essa fratura é a maior expressão desse ódio à democracia (nota 1). É preciso insistir na compreensão de que as eleições de Bolsonaro, Crivella, Dória e a própria derrota das forças progressistas são apenas a expressão de uma visão de mundo já entranhada no todo social. Um desafio importante é entender de que maneira as guerras híbridas se instalaram no nível da vida cotidiana e como fazer para, a partir do cotidiano, enfrentar um monstro sem cabeça.

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Existe uma dimensão que institui a vida cotidiana que são os espaços e tempos nos quais vivemos, nossos territórios de uso. O cotidiano são as questões mais rotineiras que compõem os acontecimentos diários da vida e os significados que construímos a partir de nossos hábitos e rituais. Ele é construído por performances, falas, imagens que, ao partilharmos, o estamos criando. O ódio à democracia no Brasil tem a força que tem por ter se tornado parte da vida cotidiana. E isso se dá nas ruas, nas igrejas, nas escolas, no esporte, nas mídias sociais, na percepção política etc. É nessa penumbra que visões de mundo dominantes – hegemonia – se constroem e instalam (1).

O golpe no Brasil – e também em outros países, ainda que com pequenas nuances – não é um golpe contra os partidos progressistas, mas contra a democracia como arena de participação política ampla, um golpe contra a ascensão dos povos latino-americanos na cena geopolítica mundial. É um golpe que comprime a democracia e a torna refém das oligarquias nacionais e estrangeiras que dominam as regras e a operação do jogo político.

É nítida a quebra intencional das instituições brasileiras por parte do Bolsonarismo. Já é sabida a relação e subordinação de Moro aos interesses dos Estados Unidos. Também já intuímos (!) a relação do núcleo do governo federal e da família do presidente com grupos paramilitares (milícias, se preferir) que atuam no Rio de Janeiro e (por que não?) em outras capitais e, talvez, dentro dos presídios. Muitos já sentimos na pele a atuação das milícias virtuais destruidora de reputações. Assim como também sabemos quem está se beneficiando da Lava Jato e sua tentativa de fundar um partido político multibilionário com dinheiro confiscado da Petrobras.

É possível sair disso? Acredito que sim. Vai ser rápido? Acredito que não. Precisamos de grande capacidade política, articulação internacional e a compreensão de que as tecnologias digitais mudaram o mundo, desde os modos de produção de bens até os modos de produção de opiniões. Se não combinarmos política, cultura e comunicação com as possibilidades das tecnologias digirais estaremos, literalmente, fora de qualquer jogo. Voltaremos a isso na nota 4.

(1)CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994. São Paulo: Studio Nobel: FAPESP, 1997. (p. 40)

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.