28 de outubro de 2013, 16h07

Não posso ser julgada pelo que visto

A estudante de Engenharia Eletrônica Amina Dkhili, de 19 anos, faz parte do movimento que luta pelo uso do niqab dentro das universidades tunisianas. Para ela, a liberdade trazida pela revolução ainda não é completa

A estudante de Engenharia Eletrônica Amina Dkhili, de 19 anos, faz parte do movimento que luta pelo uso do niqab dentro das universidades tunisianas. Para ela, a liberdade trazida pela revolução ainda não é completa Esta matéria está na edição de abril da Fórum. Para comprar  pela internet, clique aqui. Leia também: Quando o véu não é apenas um detalhe Fórum – Por que vocês estão protestando pelo uso do niqab? Amina Dkhili – No início, fizemos nossas matrículas sem nenhum problema, sem saber que existia uma lei contra a entrada de mulheres com niqab. Após três semanas, alguns professores nos...

A estudante de Engenharia Eletrônica Amina Dkhili, de 19 anos, faz parte do movimento que luta pelo uso do niqab dentro das universidades tunisianas. Para ela, a liberdade trazida pela revolução ainda não é completa

Esta matéria está na edição de abril da Fórum. Para comprar  pela internet, clique aqui.

Leia também: Quando o véu não é apenas um detalhe

Fórum – Por que vocês estão protestando pelo uso do niqab?

Amina Dkhili – No início, fizemos nossas matrículas sem nenhum problema, sem saber que existia uma lei contra a entrada de mulheres com niqab. Após três semanas, alguns professores nos excluíram de suas aulas e disseram palavras ruins sobre nós. Fomos para a administração e perguntamos o porquê disso. E eles disseram que existe essa lei contra mulheres, há cerca de um ano, mas não aplicavam porque não havia muitas mulheres, somente cinco ou seis. Mas, neste ano, somos 17 ou mais, por isso eles aplicaram. Não todos professores, só alguns. Talvez dois ou três professores sejam contrários. Eles dizem que é por segurança. Mas não aceitaram ver nossas identidades, eles nem mesmo falam conosco, nem mesmo nos olham ou escutam. Dizem para irmos embora e que não podem ensinar “alguém como vocês”. Tentamos por muito tempo buscar uma solução. Falamos com a administração, com o professor responsável por questões acadêmicas da universidade, e quando encontramos uma solução para todo o problema, eles disseram não.

Fórum – O que você acha dessa proibição?

Dkhili – Antes da revolução, eles nem mesmo permitiam às mulheres fazer qualquer coisa que queriam. Mas, após a revolução, a ideia de liberdade e de ter dignidade foram buscadas, mas ainda não encontramos. Não posso me expressar, eles sempre estão nos insultando, dizendo que somos monstros e que somos pessoas inconvenientes. Por quê? Eu tenho uma identidade. Posso mostrar minha identidade, mas penso que isso é uma questão privada. Eu mostro quando vou fazer um exame por exemplo. Nós temos mais de mil assinaturas de estudantes dessa universidade. Todos estão a favor da liberdade das mulheres. Eles acreditam que é uma questão de liberdade pessoal, porque não entramos na liberdade uns dos outros. E respeitamos e não queremos que ninguém seja forçado a fazer algo que que não acredite.

Tentamos muito encontrar uma solução antes do FSM, mas eles não nos dão nenhuma importância. Esse é o trigésimo terceiro dia sentadas aqui pacificamente. Por isso, não nos dão nenhuma importância, porque estamos sentadas aqui pacificamente. Não fazemos nada, não criamos nenhum problema nessa universidade. Nós deixamos a administração trabalhar normalmente, nós só dizemos que isso é o nosso direito, nosso direito de sermos educadas como todas as pessoas. Eu sou livre para estar aqui, porque estou aqui para trabalhar com minha mente, não com meu rosto. Você pode me julgar pela minha educação, o que crio, o que eu faço, e não pelo que visto. É realmente um erro julgar uma pessoa pelo que ela veste, como esse comportamento. Penso que roupas nunca foram um problema antes da criação e do desenvolvimento, penso que todas as mulheres são necessárias na nossa sociedade para dar mais, e não para serem excluídas por serem diferentes dos outros. Normalmente, em países democráticos, pessoas respeitam as outras.

Fórum – Como as outras pessoas veem vocês?

Dkhili – No começo, mulheres, com medo, nos viam como pessoas estranhas, algo extraordinário, anormal e não usual. Mas, eu vivo normalmente, o único problema é na universidade. Eu vivo normalmente, vou para cafés, restaurantes, correio, bancos.

Fórum – Após a revolução, o uso do niqab está crescendo na Tunísia?

Dkhili – Sim, está crescendo. Apesar de todos os problemas, e pessoas contrárias, está crescendo. Nós nunca dizemos: “Façam o que fazemos”. Nós os convencemos e aconselhamos. Se eles quiserem vir conosco, respeitamos suas ideias. Mas nunca dizemos “quem é falso” ou que somos “os verdadeiros”. Cada um tem sua própria ideia. E nunca dizemos para alguém aceitar nossas ideias. Aconselho você e dou algum exemplo, mas a maioria, quando lê o Alcorão de nosso profeta, acaba convencido por si mesmo. E uma vez convencidos, tornam-se mais fortes, e podem resistir mais para enfrentar nossos problemas. Desejo, com o tempo, que isso não seja mais um problema. E que possamos respeitar uns aos outros sem necessitar fazer “barulho”.

Fórum – Desde quando você usa o niqab?

Dkhili – Não faz muito tempo, só um ano. Antes da revolução, eu não usava nada na minha cabeça. Eu vivia normalmente, não pensava em religião. Com o tempo, pesquisando um caminho filosófico, encontrei o Islã. Não tomo isso como uma tradição, porque minha família é muçulmana, mas eles não são como eu.

Fórum – O que a sua família diz sobre isso?

Dkhili – No começo, foram contra. Mas, com o tempo, aceitaram que eu tenha essa liberdade.  F