15 de novembro de 2013, 13h04

Racismo e as lógicas do desenvolvimento capitalista

Tornou-se um mantra no discurso governamental a busca pelo desenvolvimento. José Saramago, prêmio Nobel de Literatura, em palestra proferida no Fórum Social Mundial de 2005, disse que se discute tudo mas não se discute “o que é democracia”

Por Dennis de Oliveira

Esta matéria faz parte da edição 127 da revista Fórum.

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Tornou-se um mantra no discurso governamental a busca pelo desenvolvimento. José Saramago, prêmio Nobel de Literatura, em palestra proferida no Fórum Social Mundial de 2005, disse que se discute tudo mas não se discute “o que é democracia”. Poder-se-ia fazer o mesmo agora com o mantra do desenvolvimento: “O que é desenvolvimento? Apenas crescimento do PIB?”.

O processo das conferências de políticas de igualdade racial, que deverá ser concluído com a realização da Conferência Nacional em novembro, em Brasília, teve como tema central “Democracia e Desenvolvimento sem racismo”. Como espaço institucional, onde se encontram representações do movimento social e do governo para a elaboração, avaliação e monitoramento de políticas públicas, é o tema possível. Mas, para além dele, é necessário refletir sobre o significado de desenvolvimento e democracia.

(Julien Harneis)

Uma das características mais marcantes do sistema capitalista, já estudado pelo próprio Marx e seguidores, é o fato de que a formação social capitalista engloba modos de produção distintos, ainda que um deles seja o hegemônico. Com a globalização do capitalismo de forma mais intensa nos últimos anos, essa articulação torna-se mais evidente. Assim, a produção de celulares de alta tecnologia engloba desde pesados investimentos em desenvolvimento tecnológico em determinados centros até o emprego de mão de obra altamente especializada e intelectualizada como a exploração de trabalho escravo de crianças para extração do minério tântalo (matéria-prima necessária para a produção das telas de cristal líquido) em países africanos. Desde o cientista mais renomado empregado para o desenvolvimento das tecnologias mais sofisticadas em algum centro universitário de ponta na Europa até a criança escravizada e submetida a condições degradantes de vida em algum lugar da África estão inseridos na mesma máquina produtiva do capitalismo.

É claro que ao primeiro olhar não se verá nenhuma semelhança entre o intelectual empregado por uma transnacional e a criança africana submetida ao trabalho escravo. Enquanto o primeiro enxerga, na sua atividade, a sua razão de viver (e, por isso, investe na sua formação e pode ter até um prazer no trabalho que realiza), a criança escravizada vê no que faz uma opção de sobrevivência (e, por isso, sonha com outra vida). Jamais ambos se verão como produtores de mais-valia para a empresa transnacional para a qual trabalham direta ou indiretamente.

Isso porque existe uma divisão dos recursos auferidos pelo capital para os diferentes tipos de trabalho. A parte mais considerável dos investimentos é no desenvolvimento tecnológico, razão pela qual os trabalhadores deste segmento vivem em um ambiente de maior sofisticação e, portanto, em condições melhores de trabalho e de vivência. E à medida que o modo de produção capitalista exige mais e mais investimentos na inovação, aliado à tendência a concentração e monopolização do capital, há uma redução dos nichos de alta tecnologia e uma concentração de recursos nestes. Esse é o motivo pelo qual o capitalismo, na sua atual fase, demonstra uma brutal concentração de riquezas no mundo todo e internamente nos países. As periferias são mundiais e internas em cada país.

O racismo é um dos elementos legitimadores desta diferenciação. Constrói fronteiras. Aparece como um argumento de fácil assimilação, para que o trabalhador intelectual do setor de desenvolvimento tecnológico da empresa de celulares sofisticados se veja como distinto da criança escravizada que produz a matéria-prima. Aquela mesma cujo perfil o fará se assustar e se proteger caso cruze com uma na rua. E esse mesmo trabalhador intelectual admirará o empresário que explora ambos.

Voltando ao tema da conferência “desenvolvimento e democracia sem racismo”, vem a pergunta – Qual desenvolvimento? A professora Eda Tassara, colega minha do Instituto de Psicologia, disse em uma banca da qual participei que “a lógica da máquina que vivemos coloca para nós duas possibilidades – ou consideramos esta lógica incompleta e, portanto, é preciso completá-la; ou a consideramos perversa e atuamos para sair dela”.

Qual desenvolvimento? É possível pensarmos em uma sociabilidade livre de racismos dentro da lógica desta máquina, apenas “corrigindo os seus erros”, ou a sua lógica é justamente sustentada pelo racismo estrutural, que se manifesta em diversos campos? Evidente que não se espera que um debate como esse flua em um espaço institucional, limitado por sua própria natureza, mas que aconteça na ambiência dos movimentos sociais de combate ao racismo, para que se tenha uma perspectiva autônoma nas relações com o Estado. F