28 de outubro de 2013, 15h36

Vozes Bugras: mulheres desvendam a canção mestiça brasileira

Em sua coluna Toques Musicais, da Fórum 126, Julinho Bittencourt fala sobre o grupo Vozes Bugras e o talento de Edu Lobo, que considera um dos melhores compositores do mundo

Em sua coluna Toques Musicais, da Fórum 126, Julinho Bittencourt fala sobre o grupo Vozes Bugras e o talento de Edu Lobo, que considera um dos melhores compositores do mundo
Por Julinho Bittencourt

Esta matéria faz parte da edição 126 da revista Fórum.

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O grupo Vozes Bugras é um ponto fora da curva no cenário da nossa música. É um caso à parte. É composto por sete valentes mulheres que se arvoraram a descobrir, desvendar e divulgar a canção mestiça brasileira. Um pouco mais do que isso, elas contam causos, mitos, ritos, lendas e tudo o mais que faz parte da tradição oral da gente que se miscigenou por essas bandas.

O resultado, depois de dez anos de existência do grupo, pode finalmente ser ouvido no lindo disco batizado única e tão somente Vozes Bugras. Segundo texto de Anabel Andrés, Vozes Bugras vem de um trocadilho com o Mistério das Vozes Búlgaras. “A denominação depreciativa, bugre, dada aos indígenas brasileiros pelos colonizadores, provém do termo francês bougre, referente aos ‘hereges búlgaros’, resistentes à ocupação de seu território em séculos passados, e estendeu-se a todo aquele que fosse considerado rude ou selvagem, em contraposição uma ideia exclusiva de civilização europeia”, conta.

Assim como Anabel, que é bailarina, coreógrafa e terapeuta corporal, as outras integrantes do grupo também têm funções múltiplas que vão muito além de tocar e cantar. São pesquisadores, compositoras e apaixonadas pela diversa e intrincada cultura popular do Brasil. Anunciação é cantora, compositora e arte-educadora; Cássia Maria é percussionista e arte-educadora, além de compositora, com o lindo disco “De Cara pro Sol” gravado; Célia Gomes é contadora de histórias e atriz; Dani Lasalvia é cantora, compositora e artista plástica; Priscila Brigante é percussionista; Tânia Piffer é atriz, cantora e compositora e Ully Costa é cantora.

O resultado de tantos talentos e multiplicidades é um apanhado de rara beleza e encantamento, onde ouvimos desde canções de roda, lendas indígenas e do candomblé, incelenças, todas tradicionais de várias regiões e etnias brasileiras. Como elas mesmas dizem, semeiam tudo isto com atitude de orgulho, tendo como referência artistas como Inezita Barroso e Dércio Marques.

O disco é comovente, para dizer o mínimo. Encaram e vencem com facilidade o desafio de tornarem vozes lindas, educadas e excelente capacidade instrumental num resultado sonoro sem afetações. Causos e cantos transcorrem com tamanha honestidade e beleza que, ao mesmo tempo em que deixam claro de onde vêm, nos colocam dentro do universo para onde apontam.

É impossível ouvir coisas como a “Lenda da Mandioca”, “Suíte Cabocla”, “Mito de Oxum” seguido por “Mamãe Oxum/Canto de Oxun”, entre outras sem ser marcado pelo resto da vida pela beleza, alegria e espontaneidade de suas recriações. O disco Vozes Bugras vale por tudo. Pela emoção, realização e pela linda capa da cantora e artista gráfica Kátya Teixeira. Lindo.

 

Edu Lobo é um dos melhores compositores do mundo. Não que haja aqui algum campeonato ou qualquer outra forma de medir as qualidades, como no caso do atletismo ou do futebol. O que há no caso é um vasto cancioneiro rebuscado, repleto de ideias musicais novas, construções harmônicas ricas e inusitadas e parceiros também maravilhosos. Há, enfim, um artista sempre novo e produtivo que acaba de completar 70 anos de vida com vitalidade e obra de garoto.

A sua trajetória artística é das mais inusitadas. Quando estourou nos festivais de música da TV Record, Edu era um menino de tudo que já fazia canções de adulto e tinha aversão à fama. Gostava mesmo era de compor, se dedicar às suas melodias, receber as letras dos parceiros, fazer os arranjos etc. Essa história de ser reconhecido nas ruas, dar autógrafos, correr de fãs não era lá muito com ele, não batia com o seu espírito tímido e reservado.

Posto, isto, aproveitando que a situação política por aqui não estava nem um pouco para quem se arvorava a cantar as mazelas de Zumbi entre outras, Edu se mandou para os EUA. Lá se escondeu e estudou música, sempre a música. Gravou os imprescindíveis Sérgio Mendes Presents Edu Lobo e Cantiga de Longe, com arranjos de Hermeto Paschoal.

Quando voltou, ao contrário dos seus companheiros de geração, manteve-se discreto, mas fez uma das maiores obras-primas da história da nossa canção, o disco Missa Breve. No lado A, um apanhado de canções notáveis como “Vento Bravo” e “Viola Fora de Moda” e, no lado B, uma missa popular primorosa, com direito a trechos em latim.

Edu seguiu gravando outros discos, entre eles o lindo “Camaleão”, que conta com o sucesso “Lero Lero” e a inesquecível versão letrada para o “Trenzinho do Caipira”, de Villa-Lobos. Logo em seguida fez Edu & Tom, em parceira com Tom Jobim, um presente inesquecível tanto para ele quanto para o próprio Tom e principalmente para o público.

Foi dai para a frente que Edu deu a segunda grande arrancada de sua carreira. A partir de Jogos de Dança, de 1981, começou a compor para balé e teatro. Em 1983 lança, junto com Chico Buarque, com participação de inúmeros medalhões da nossa música, outra obra-prima. O Grande Circo Místico, para o Balé Teatro Guaíra, é espetáculo inspirado no poema “A Túnica Inconsútil”, escrito em 1938 por Jorge de Lima. Ambientado no circo, rendeu canções inesquecíveis como “Beatriz”, uma das maiores coisas que jamais ouviríamos.

Edu continuou fazendo discos para balés, musicais infantis, escrevendo para orquestra como se esse negócio de tempo não fosse com ele. Teve um aneurisma cerebral em 2004 e se recuperou rapidamente. Ao ser perguntado na época como se sentia, sorriu e disse ao repórter que bem, apenas com o HD um pouco mais lento.

Quase dez anos depois, já com toda a velocidade recuperada, Edu anda por ai a aprontar novas canções e discos lindos. Coisas que não cansamos de ouvir e agradecer e que ele não mostra nem sinal de cansar de fazer. Um grande artista que sempre desafiou o seu tempo. F