28 de outubro de 2013, 21h39

Uma outra história da Marquesa de Santos

Lançada recentemente, a biografia Domitila, do pesquisador Paulo Rezzutti, traz dados da exumação dos corpos da família real brasileira, realizada em 2012, e desmistifica boatos em torno da principal amante de D. Pedro I

Lançada recentemente, a biografia Domitila, do pesquisador Paulo Rezzutti, traz dados da exumação dos corpos da família real brasileira, realizada em 2012, e desmistifica boatos em torno da principal amante de D. Pedro I

Por Marinaldo Pedrosa

Esta matéria faz parte da edição 125 da revista Fórum.

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Recentemente publicado, um livro de Paulo Rezzutti, pesquisador e membro titular do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, proporciona novos olhares sobre uma figura emblemática do Primeiro Império, a mulher chamada Domitila de Castro Canto e Melo (1797 – 1867), conhecida no imaginário popular como a amante preferida de Dom Pedro I.

A obra Domitila: a verdadeira história da Marquesa de Santos (Geração Editorial, 352 páginas) é fruto de pesquisa realizada por Rezzutti ao longo de 48 meses, nos quais ele fez quatro viagens, assistiu seis filmes, visitou 16 museus e arquivos, acessou 75 artigos de jornais e revistas, examinou 140 livros e analisou 194 manuscritos sobre o tema. “Chegou a saturar. Fiquei farto do assunto”, diz.

No meio da pesquisa, em 2010, Rezzutti encontrou 94 cartas íntimas e inéditas do imperador endereçadas a Domitila, que estavam depositadas há um século em um museu situado nas dependências da The Hispanic Society of America, em Nova Iorque. No ano seguinte, o autor publicou o livro Titília e o Demonão, no qual datou e contextualizou os referidos bilhetes.

A descoberta das cartas adiou o projeto da biografia e possibilitou que, antes de concluí-la, Rezzutti participasse da exumação dos corpos da família real brasileira no Monumento à Independência, em São Paulo, organizada pela arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel, em 2012. Na ocasião, devido à sua formação em arquitetura, o pesquisador foi instituído como responsável técnico pelo dessoterro da segunda esposa de Dom Pedro, a Imperatriz Amélia, cujo caixão, desaparecido dentro da cripta, só foi localizado depois de dois meses de trabalho.

“Da perspectiva arqueológica, a exumação foi uma experiência interessante que contribuiu para a preservação dos restos mortais dos imperadores”, comenta a mestra em História Social pela USP e historiógrafa do Centro de Documentação e Informação Científica da PUC-SP, Viviane Tessitore, “mas, historicamente, com base no que saiu na imprensa, não há nada que a documentação existente já não apontasse”.

É, contudo, com base em dados da exumação, que o livro de Rezzutti desfaz definitivamente a lenda de que Dom Pedro I e Domitila teriam assassinado a Imperatriz Leopoldina. “Essa descoberta é de suma importância para os descendentes da Marquesa e para o povo brasileiro”, afirma a atriz Ignez Polidoro, trineta de Domitila de Castro com Rafael Tobias de Aguiar.

A superação de um estigma social

Desde sua aproximação a Dom Pedro I, a imagem de Domitila esteve ligada
a rótulos como os de “alpinista social” e “amante do imperador”

Desde sua aproximação a Dom Pedro I, a imagem de Domitila esteve ligada a rótulos como os de “alpinista social” e “amante do imperador”. Ainda hoje sua imagem é marginalizada por pessoas que a ela se referem como “assassina da Imperatriz Leopoldina”.

Ignez, que atualmente tem 63 anos, conta que em sua juventude não lhe era permitido falar na escola sobre sua ascendência. “Era vergonhoso ser parente da Marquesa de Santos”, revela, “também não se falava sobre esse assunto na família”. A atriz conta que só superou o estigma social imposto a sua trisavó e familiares quando, em 1998, conheceu o cineasta Dimas Oliveira Junior, que na época dirigia o documentário A Marquesa de Santos, uma história real, que também é parte da bibliografia de Rezzutti. “Foi a primeira vez que vi alguém tratar a marquesa de forma respeitável e lembrar que ela foi casada com meu trisavô, Rafael Tobias de Aguiar, grande homem, na época o mais influente da província de São Paulo.”

De fato, dos 70 anos vividos por Domitila, em apenas sete ela foi amante do primeiro imperador brasileiro. A biografia produzida por Rezzutti, por sua vez, desprende-se dos rótulos e focaliza a plenitude da vida da Marquesa, desde seu nascimento, infância e juventude em São Paulo, passando por sua viagem e estadia no Rio de Janeiro, até o seu retorno, vida nova e morte, em São Paulo. “Uma das coisas que coloco em evidência é que ela não tem uma única e verdadeira face. Ela é plural, como todo e qualquer ser humano. Rica em contradições e idiossincrasias, o que a torna fascinante até hoje”, diz o pesquisador.

Do ponto de vista integral, para Viviane, Domitila não é um livro dirigido aos historiadores profissionais, “mas tem potencial para trazer novas visões, que podem resultar em novas pesquisas sobre a personagem e o período”, reflete.

A historiógrafa assinala três pontos fortes na obra: a narração de fácil acesso ao público geral, “o que é muito positivo para uma sociedade que conhece pouco sobre sua própria história”, diz; a fundamentação em boa pesquisa documental e bibliográfica; e os acréscimos de informações em relação a outras biografias. “Embora o historiador Alberto Rangel (1871-1945) já tenha se ocupado do assunto, Rezzutti, em seu livro, atualiza a narrativa ao expor a vida de Domitila antes e depois de sua permanência na Corte e inclui uma análise da construção da memória cultural sobre a Marquesa ao longo do tempo, pontos habitual­mente pouco explorados”, conclui.  F