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15 de Maio de 2018, 17h58

Onde está o Centro? Tudo que é ar se desmancha no sólido

Gilberto Maringoni, em mais um texto, aborda a divulgação da nova pesquisa eleitoral CNT/MDA, que mantém a tendência de favoritismo de Lula, com 32,4%

Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

A nova pesquisa CNT/MDA confirma um quadro tendencial de mais de oito meses: Lula, mesmo preso, segue favorito, com 32,4% das preferências. Há um elemento a ser levado em conta: o petista está trancafiado na PF em Curitiba há quarenta dias. Ou seja, consolidou-se a ideia de que ele é um condenado da justiça. Mesmo assim, o eleitor não desiste de sua intenção. É algo inédito em campanhas presidenciais.

A mesma sondagem mostra que a credibilidade do judiciário roça o chão. Entre os consultados, 52,8% consideram o poder judiciário pouco confiável; 36,5% nada confiável; e 6,4% muito confiável. Para 90,3% a Justiça brasileira não age de forma igual para todos. Ou seja, quem condena Lula não tem moral alguma para fazê-lo, diante da opinião pública.

Curioso o levantamento. De todos os 15 postulantes arrolados no cenário principal, apenas Lula, Ciro, Boulos e Manuela posicionaram-se firmemente contra o golpe. Os outros onze – Jair Bolsonaro, Marina Silva, Alckmin, Álvaro Dias, Collor, Temer, Amoedo, Flavio Rocha, Henrique Meirelles, Rodrigo Maia e Paulo Rabello de Castro – apoiaram o tapetão institucional. Ou seja, a direita toda está aí reunida.

ONZE EM CADA DEZ cientistas políticos entrevistados pela grande mídia costuma falar que o grande déficit democrático brasileiro é materializado pela explosão do que se convencionou chamar de “centro”, posição equidistante entre direita e esquerda. O centro seria representado pelo PMDB que, ao abraçar a tramoia de dois anos atrás, teria se deslocado para a direita, deixando um vácuo no meio do espectro político e tirando de cena quem fizesse o papel de ponto morto do câmbio; isto é, de quem transitasse entre todas as variáveis, construindo entendimentos, maiorias e até consensos, essenciais ao jogo democrático.

É muito difícil considerar o PMDB como centro, mesmo antes do impeachment. Basta acompanhar as votações e as causas que patrocinou para ver que a antiga agremiação do dr. Ulysses há muito bandeou-se para o conservadorismo aberto. Entre essas questões estão o Código Florestal, a oposição ao combate à homofobia, as políticas de Sérgio Cabral e companhia etc.

O CENTRO REAL, que cumpre as tarefas de intercomunicação entre todas as forças, é outro. Quem desempenhou tal papel, por suas posições ao longo de 13 anos, pela política econômica liberal e contracionista e pela política fiscal expansiva em alguns momentos, pelos freios colocados em agendas democratizantes, como mídia, Lei de Anistia, combate à homofobia, por não ver nenhum problema em abraçar uma recessão destinada a deprimir o custo do trabalho quando julgou necessário, apesar de ter investido em sua expansão em tempos de vacas obesas, entre tantas outras variáveis, foi o PT.

No presidencialismo de coalizão – ou seja, na institucionalidade da Carta de 1988 – é o centro quem dá as cartas nas composições de maiorias congressuais. E não se governa com estabilidade sem a formação de maiorias.

O que Ciro tenta disputar com a agremiação lulista não é a esquerda, mas o centro. As candidaturas claramente à esquerda são as de Boulos, Manuela, além da indicação do PSTU.

O QUE ISSO SIGNIFICA? Que a direita não quer a emergência de uma força capaz de realizar uma nova pactuação interclasses. Para usar um linguajar mais ao rés-do-chão – próprio de setores ensandecidos da esquerda -, a direita não quer mais a conciliação de classes. (Já escrevi aqui que tal proposição só pode ser alcançada com algum tipo de ditadura. Se um partido de esquerda chega ao poder e não coíbe imediatamente a propriedade privada – o maior interesse da burguesia – a conciliação está dada. O não à “conciliação de classes” também atende pelo nome de “negação da política”).

A direita não quer o centro, neste momento. E por que? Porque ali está a força – na visão da direita – que pode atrasar a implantação das reformas julgadas urgentes para a nova fase do capitalismo internacional, o da competição por empresas com uso intensivo de mão de obra. A teoria – deles – indica ser inviável buscar atrair para cá empresas de ponta, com o aumento da automação e da revolução robótica, que usam ao mínimo o trabalho humano. Nosso diferencial, na industrialização do século XX, foi oferecer força de trabalho barata e abundante – barata porque abundante – para a nata das empresas fordistas.

ESSA FASE ACABOU. O possível é trazer para cá empresas produtoras de mercadorias com baixo valor agregado – têxteis, materiais esportivos, maquiladoras -, voltadas ao extrativismo e ao agronegócio. Isso é para já, senão – em sua leitura – o país afunda. Assim, urge aprovar toda a pauta já em andamento, além da reforma trabalhista e da PEC do congelamento dos gastos. Falta a Previdência e a transformação final das Forças Armadas em órgão de repressão interna.

O centro não fará isso com a celeridade buscada pela direita. Daí o impedimento de Lula, que sempre negociou quase todas as pautas. Daí o não à conciliação com os trabalhadores, daí o veto às marolas.

No atual momento, a direita que se apresenta como centro elegeu o centro real como seu pior inimigo. Está tendo alguma dificuldade em se articular de forma eficaz para fazê-lo.

Os altos índices de intenção de voto de Lula não devem iludir os setores progressistas. Tratam-se de intenções de voto e não de intenção de rebelião. Não é força capaz de ir à rua, mas uma adesão passiva ao ex-presidente. A equação montada é até quando o contingente apoiador do ex-metalúrgico se manterá fiel a ele?

Difícil saber. O que se sabe é que o PT vai de Lula porque não tem alternativa até aqui.

(A partir de uma conversa com Mauro Lopes)