26 de maio de 2018, 18h13

Opinião: A esquerda e a greve

É preciso dialogar com esse movimento. É necessário entender suas razões, seus anseios e quais as condições de trabalho e de vida dos caminhoneiros. Devemos ter solidariedade e nos colocar ao seu lado

Por Daniel Trevisan Samways* 

Acho que a esquerda no Brasil está perdida. Vendo uma paralisação que não foi iniciada por partidos ou movimentos tradicionais, seu primeiro impulso foi tentar deslegitimá-la, afirmando que seria um mero locaute, termo que se popularizou na Faculdade de Ciência Política do Facebook. Logo a greve passou a ser chamada de direitista, fascista ou “intervencionista”. Os caminhoneiros foram chamados de massa de manobra ou ignorantes porque não tinham consciência de classe e seriam bucha de canhão dos patrões. Boa parte dessas análises provem de uma parcela da mesma esquerda que falava, a plenos pulmões, que pararia o país contra o impeachment de Dilma, a PEC dos gastos, a reforma trabalhista ou se Lula fosse preso. Pouco conseguiram, infelizmente.

É preciso ponderar e ter muito cuidado com análises simplistas – eu quase fui metralhado num grupo sindical no ZapZap ao propor isso, com a afirmação de que a minha análise é que seria simplista. Li de tudo nos últimos dias, principalmente depois de ontem, quando os sinais de caos começaram a ficar mais aparentes. Resgataram Allende, os protestos de 2013 ou a greve dos caminhoneiros em 2016. O PCO conseguiu a proeza de atirar para os dois lados, logo na sequência. Parte da esquerda que sempre falou em revolução, em luta de classes, em ditadura do proletariado (mesmo sem saber muito o que isso significa na verdade), e que sempre promete a tomada do poder a posteriori, quando as condições forem propícias, ficou atordoada vendo o país parando sem ser pelas mãos de seus movimentos e líderes “orgânicos”.

É preciso sempre fazer várias ressalvas e evitar dicotomias que vêm marcando nossas análises e, literalmente, intoxicando o debate. E proponho algumas delas aqui:

1) Nós, que nos colocamos no campo progressista, à esquerda, e que defendemos causas sociais e condições de vida digna aos trabalhadores, precisamos olhar para os caminhoneiros com mais atenção. Como é o seu ritmo de trabalho, quanto ganham e o quanto precisam ficar fora de casa para terem uma renda digna? Em que medida são duramente afetados pelos aumentos dos combustíveis nos últimos anos? Viver entre postos e uma cama dentro do caminhão é tranquilo? O quanto a dependência química vem afetando muitos caminhoneiros, submetidos a jornadas extenuantes, passando dias sem dormir?

2) A alta do preço dos combustíveis impacta diretamente na economia, e uma reivindicação que tenta, a sua maneira, fazer frente a isso já é um ato que merece respeito.

3) Existem caminhoneiros que são a favor de uma intervenção militar? Lógico. Assim como existem juízes, professores, médicos, jornalistas. Poderia citar vários aqui. Mas também existem caminhoneiros que possuem outras preferências políticas.

4) O movimento pode ser sequestrado pela direita, como foi o do passe livre em 2013? Pode. Mas também pode ser uma oportunidade interessante para que outras categorias parem, e também para que diferentes movimentos mexam com o debate político.

5) O movimento pode abrir um processo de radicalização? Pode também. Mas qual processo de lutas sociais não carrega, em si, a possibilidade do aumento da repressão? Mas, por outro lado, a greve dos caminhoneiros pode levar a outro tipo de debate ou mesmo de ação política.

6) É preciso pensar nas condições de vida da própria sociedade e o quanto a alta dos preços dos combustíveis, antes quase diária, impacta no custo de vida. Análises da academia ou de alguns grupos políticos esquecem que existem pessoas passando fome, vendendo o almoço para pagar a janta, ou que não sabem se terão dinheiro até o fim do mês. A greve dos caminhoneiros, querendo ou não, tem potencial para colocar todas essas questões na mesa e de forma ainda mais profunda que muitas “análises de conjuntura” do partidão. Pergunta no ponto de ônibus ou no posto Ipiranga se o povo sabe o que realmente significa “análise de conjuntura”. Nos colocamos sempre como a voz do povo, representantes dos seus anseios, mas esquecemos, com muita frequência, de dialogar com ele, ou de que eles tem direito a voz e podem falar por si próprios.

7) A greve dos caminhoneiros vem sendo tratada de forma muitas vezes preconceituosa. Os caminhoneiros são vistos como mera massa de manobra, como se fossem incapazes de lutar, reivindicar e fazer a história pelas próprias mãos. Muitos caminhoneiros, arrisco a dizer que a maioria, conhecem um Brasil profundo, com sua desigualdade e miséria, que muitos líderes políticos ou intelectuais nunca ouviu falar.

8 ) Por fim, é preciso dialogar com esse movimento. É necessário entender suas razões, seus anseios e quais as condições de trabalho e de vida dos caminhoneiros. Devemos ter solidariedade e nos colocar ao seu lado. Do contrário, ele poderá ser facilmente capitaneado por movimentos reacionários com colorações fascistas. É preciso não apenas disputar a narrativa, mas também fazer política de verdade, como o MST, que foi cozinhar para os caminhoneiros, ou o PSOL, que também entrou nessa briga. Isso é ação de verdade.

Não podemos esquecer que esse movimento pode abrir outras portas, para outros atores, com pautas populares e que buscam uma sociedade melhor e mais justa. Ainda não sabemos como irá acabar…

*Graduado em História, com mestrado e doutorado em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).