LUIZ CARLOS AZENHA

Presidente da Colômbia diz que Brasil se tornou o principal corredor da cocaína

Quadrilhas escondidas em regiões amazônicas, antes concentradas na produção de cocaína, se envolvem também em mineração ilegal, extorsão e sequestro.

Polícia Federal apreende cloridrato de cocaína na Amazônia.Créditos: DPF
Escrito en OPINIÃO el

“Da maconha do capitalismo de bem-estar e seus jovens rebeldes passamos à cocaína, a droga da competitividade e do neoliberalismo; e agora entramos na droga da morte, o fentanil: a droga do capitalismo da crise climática e da guerra”.

A frase foi escrita pelo presidente da Colômbia, Gustavo Petro, em uma análise ele publicou numa rede social sobre a mudança que se deu nos últimos anos na produção e escoamento de drogas consideradas ilícitas na América do Sul.

Petro sustenta que o Brasil se tornou o principal corredor de transporte de drogas do continente, não só para o abastecimento do mercado interno, mas da África e da Europa.

Para dar conta desta nova dinâmica, os laboratórios de produção de coca se transferiram em massa para uma faixa de dez quilômetros da fronteira da Colômbia com o Equador, na região amazônica.

Região que, segundo Petro, agora concentra os laboratórios de coca da Colômbia

Com isso, portos do próprio Equador e do Peru são a saída das drogas para o Pacífico, enquanto o escoamento no Brasil é feito pelos rios.

A análise de Petro é compatível com a da Polícia Militar de Tabatinga, cidade do estado do Amazonas que faz divisa com Letícia, na Colômbia, perto da tríplice fronteira com o Peru.

Ouvido por este repórter durante uma visita à região, o comandante da PM local disse que os laboratórios estavam se aproximando da fronteira colombiana com o intuito de abastecer a chamada rota do Solimões, na qual barcos descem o rio trazendo cocaína e skunk para abastecer o mercado europeu.

O presidente da Colômbia, em sua análise, diz que o fentanil — um anestésico produzido industrialmente — está causando 100 mil mortes por ano nos Estados Unidos, quando a cocaína mesclada de baixa qualidade jamais causou mais de 4 mil.

Analgésicos como o oxicodona, disponíveis sob receita médica, também estão sendo consumidos em massa, nos Estados Unidos, muitas vezes como substitutos de drogas ilegais. Com isso, diminuem os riscos de prisão para os consumidores. 

Na análise de Petro, a disparada no consumo de fentanil diminuiu a atratividade da cocaína no mercado estadunidense, provocando mudança estrutural na produção.

Agora, diz ele, as quadrilhas escondidas em regiões amazônicas, antes concentradas na produção de cocaína, se envolvem também em mineração ilegal, extorsão e sequestro.

Por isso, sempre segundo análise do presidente colombiano, o Equador se tornou um país mais violento que a própria Colômbia, onde recentemente foi assassinado o candidato presidencial Fernando Villavicencio.

Outros fatores devem ser considerados: em sua “guerra contra as drogas”, os Estados Unidos despejaram bilhões de dólares combatendo as tradicionais rotas originárias da Colômbia que atravessavam o Caribe, a América Central e o México.

Com a nova geografia das drogas, Petro especula que máfias uruguaias e paraguaias poderão se instalar na Bolívia em busca de oportunidades econômicas. Também prevê que a Europa terá seus próprios laboratórios de cocaína, para competir com qualidade diante do avanço do fentanil e de outras drogas sintéticas.

O presidente colombiano disse estar se preparando para combater o consumo de fentanil com uma estratégia de saúde pública, já que o anestésico muitas vezes é diluído em outras drogas para garantir a dependência química profunda do consumidor.