PERIGO

EUA tocam fogo no Oriente Médio em defesa de Israel

Joe Biden, o equilibrista

Risco.As Forças de Mobilização do Iraque, atacadas pelos EUA, querem a expulsão das tropas do Pentágono do país.Créditos: Wikipedia
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Os Estados Unidos fizeram seu mais extenso ataque à região do Iêmen controlada pelos hutis, em retaliação pela morte de três soldados estadunidenses em uma base na Jordânia.

Os hutis são muçumanos xiitas aliados do Irã e fazem parte do chamado Arco da Resistência à influência de Washington no Oriente Médio, que se dá especialmente através de Israel.

Os hutis controlam cerca de um terço do Iêmen, inclusive o mais importante ponto de entrada no mar Vermelho, essencial para a navegação -- que leva e traz mercadorias da China e outros portos asiáticos até Israel e o mar Mediterrâneo.

Durante a noite de sábado, 3, os EUA bombardearam treze pontos do Iêmen, alegadamente destruindo depósitos de armas, drones, centros de controle e comando, helicópteros e radares. Na madrugada deste domingo, voltaram a atacar -- desta vez um lançador de míssil de cruzeiro.

A nota oficial do Comando Central dos Estados Unidos se refere aos hutis como "apoiados pelo Irã", numa clara mensagem a Teerã.

Na sexta-feira, o Pentágono havia bombardeado 85 alvos no Iraque e na Síria, alegadamente com o apoio da Jordânia -- que nega.

Neste ataque, foram usados bombardeiros de grande altitude vindos dos Estados Unidos.

JOE BIDEN NA CORDA BAMBA

Em ano eleitoral, o presidente Joe Biden está envolvido em um jogo de equilíbrio de alto risco.

Por um lado, tenta pôr fim ao conflito entre Israel e o Hamas para que não avance sobre a campanha eleitoral nos Estados Unidos.

Seu adversário, Donald Trump, vem faturando com a ideia de que não iniciou uma guerra durante seu mandato, num momento em que o eleitor está preocupado com problemas domésticos.

Por outro lado, Biden não pode abandonar Israel -- apesar do discurso, os Estados Unidos estão dando total cobertura ao genocídio que seu maior aliado comete em Gaza ao tentar eliminar o Hamas.

Biden teve o cuidado de não atacar alvos diretamente ligados ao Irã, pois a expansão da guerra poderia prejudicá-lo eleitoralmente.

Ao mesmo tempo, aos 81 anos de idade, precisa enfrentar a ideia de que é um "velho fraco", promovida pela campanha de Trump.

CONSEQUÊNCIAS INDESEJADAS

Porém, a lei das consequências indesejadas e imprevistas pode ter um custo alto para Joe Biden.

Depois de condenar o ataque ao Iraque como violação de soberania, o primeiro-ministro Mohammed Shia' Al Sudani suspendeu a exportação de petróleo subsidiado para a Jordânia.

Sudani tenta se equilibrar entre os EUA e o Irã, que patrocina várias milícias com presença militar e parlamentar no Iraque.

Porém, para se manter no poder Sudani depende das Forças de Mobilização do Iraque, lideradas por Falih al-Fayyadh, que está sob sanção dos Estados Unidos por suas ligações com o Irã.

Reagindo ao ataque dos EUA, que matou 16 militantes do grupo e feriu outros 36, Falih pregou a expulsão de todas as forças militares estrangeiras do Iraque.

Os EUA mantém tropas no país supostamente para combater o Estado Islâmico.

Porém, o governo do Iraque está sob pressão para não renovar o acordo com Washington.

Uma das bases mais importantes garante o petróleo para o Curdistão, aliado histórico dos Estados Unidos, que tem grande autonomia em relação ao governo do Iraque em Bagdá.

Os curdos não são árabes como os iraquianos. São majoritariamente muçulmanos sunitas, enquanto as Forças de Mobilização e seu líder são xiitas.

O risco para Biden é romper este sutil equilíbrio, uma vez que as milícias aliadas ao Irã provavelmente vão retaliar o ataque estadunidense.

A não ser que haja um acordo entre Israel e o Hamas para cessar-fogo em Gaza, a tendência é de o conflito se estender -- com o envolvimento cada vez maior de atores regionais.

Tudo o que Biden não quer, por motivos eleitorais.

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