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18 de janeiro de 2019, 22h31

Ordem para o povo, progresso para a burguesia

Raphael Silva Fagundes: “O Brasil é um país que tem tudo para progredir, mas o problema é o tipo de ordem que busca restabelecer o modelo entreguista, de submissão a países imperialistas”

Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Stephen Hawking, ao explicar a teoria da seta do tempo, destaca que a seta do tempo psicológica e a seta do tempo cosmológica aponta para a mesma direção que a seta do tempo termodinâmica. De acordo com esta última, à medida que o tempo passa, “é mais provável que o sistema esteja em estado desordenado do que ordenado […] a desordem tenderá a aumentar com o tempo se o sistema obedecer a uma condição inicial de mais ordem” (1). Para o físico teórico, se, no início, o universo estivesse em desordem, “veríamos copos quebrados se juntando e pulando de volta para a mesa”. “Meu argumento”, conclui Hawking, “é que eles [os seres humanos] teriam uma seta do tempo psicológica invertida […] lembrariam de eventos no futuro e não recordariam de eventos do passado”.

Ou seja, de acordo com as leis da física, a ideia de que antes era o caos e depois veio a ordem estabelecida por Deus, é inconcebível. Primeiro vem a ordem e, em seguida, o caos.

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Mas esse pensamento de cunho cosmológico serve para pautar muitas atitudes políticas, pois os “salvadores da pátria” tendem a se apresentar como aqueles que irão restabelecer a ordem.

No caso brasileiro atual, essa questão vem à tona de forma ainda mais clara, pois o presidente eleito apoiou-se nos elementos cristãos para vencer o pleito presidencial. Acusava o seu adversário (o PT) de violar a ordem estabelecida por Deus, principalmente na questão sexual e ao afirmar que o Brasil é um país cristão, “a minoria que for contra, que se mude”. Esse elemento foi fundamental em sua retórica política conservadora: o discurso anticientífico, excessivamente cristão.

A ordem e o progresso, inimigos naturais

O deus dos hebreus, Yahweh, que era apenas mais um deus em meio a tantos outros do crisol sírio-palestino, venceu o caos ao quebrar as cabeças dos monstros das águas, as cabeças de Leviatã. Como Ba’al, sustentava o mundo ordenado (2).

Cristo também restabeleceria a ordem violada pelo Império Romano, a desordem que se estabeleceu com a helenização do Oriente Médio. E seu retorno, o Apocalipse, também está pautado no restabelecimento da ordem após o reino do anticristo.

Em momentos de crise, a retórica política que resgata essa lógica milenar tem grandes chances de vitória. Aconteceu com o surgimento do nazismo e agora com o ressurgimento da extrema direita no mundo.

O discurso progressista venceu em tempos de crise por meio da Revolução, como, por exemplo, na França e na Rússia. Em momentos relativamente estáveis, a retórica progressista tende a vencer democraticamente, pois o discurso da ordem tem menos força que o do progresso. Talvez seja por isso que a ordem e o progresso tem dificuldades de conviverem.

Bolsonaro venceu afirmando que o Brasil estava mergulhado no caos da corrupção e se apresentou como a ordem. Cortou a cabeça do Leviatã, aqui simbolizado em Lula. Mas isso aconteceu diversas vezes na história do Brasil. Do Golpe da Maioridade a Collor de Mello.

Mas, na verdade, esse tipo de ordem (sem progresso social) tende a gerar a desordem. O que nos lembra mais as leis da física que as leis cosmológicas judaicas. O Brasil é um país que tem tudo para progredir – riquezas, gente honesta e trabalhadora -, mas o problema é o tipo de ordem que busca restabelecer o modelo entreguista, de submissão a países imperialistas (antes a Inglaterra, hoje os EUA).

Esse tipo de ordem recupera e amplia a riqueza da burguesia, mas arranca o direito dos trabalhadores que podem perder a seguridade do emprego em tempos de alto índice de desemprego. Um modelo que retrocede a um período pré-Vargas quando não existia Ministério do Trabalho, mas a retórica da ordem, vomitada pela mídia e pelos aliados do governo, convence muitos de que se trata de uma modernização das relações trabalhistas. Seria cômico se não fosse tão trágico.

(1)HAWKING, S. Uma breve história do tempo. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015. p. 182.

(2)COHN, N. Cosmos, caos e o mundo que virá. São Paulo: Cia das Letras, 1996. p. 178.

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