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29 de Março de 2014, 14h27

Organizadora de protesto recebe ameaças de estupro

Depois de campanha virtual contra resultado de pesquisa do Ipea ir ao ar, jornalista é atacada no Facebook com mensagens machistas e agressivas Por Carlos Mercuri A jornalista e escritora Nana Queiroz, de 28 anos, organizadora da campanha “Eu não mereço ser estuprada”, recebeu ameaças e ofensas pelo Facebook após o protesto virtual ir para […]

Depois de campanha virtual contra resultado de pesquisa do Ipea ir ao ar, jornalista é atacada no Facebook com mensagens machistas e agressivas

Por Carlos Mercuri

A jornalista e escritora Nana Queiroz, de 28 anos, organizadora da campanha “Eu não mereço ser estuprada”, recebeu ameaças e ofensas pelo Facebook após o protesto virtual ir para o ar. A campanha, que começou na noite desta sexta-feira (28), é um protesto contra os resultados de pesquisa divulgada quinta-feira (27) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Campanha de protesto foi iniciada nessa sexta-feira (28) após resultado de pesquisa do Ipea

Campanha de protesto foi iniciada nessa sexta-feira (28) após resultado de pesquisa do Ipea

Conforme o estudo, 65,1% da população concorda total ou parcialmente que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas” e 58,5% concordam total ou parcialmente que, “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”.

Na campanha – um protesto virtual contra o machismo -, mulheres se fotografaram sem blusa e com cartazes com a frase “Eu não mereço ser estuprada” ou “Eu também não mereço ser estuprada” à frente do peito.  Nana disse que, ao ver o resultado do levantamento, ficou com vontade de sair nua na rua gritando a frase.

A jornalista disse neste sábado ao Portal Fórum que vai denunciar os autores das postagens à Delegacia da Mulher em Brasília. “Estamos reunindo prints das mensagens para levar à delegacia e vou registrar também um boletim de ocorrência por ameaça de estupro”, adiantou Nana.

Ela contou que há postagens dizendo que ela merece “um negão de 50 centímetros”; em outra colocaram foto de uma pia cheia de louça suja “para ela lavar” e ela soube também de montagens com fotos dela em sites pornográficos.

Outras mensagens diziam que a estuprariam se a encontrassem na rua e outra convoca para um estupro coletivo.

“Mas também tenho recebido muito apoio. A cada postagem machista e agressiva, recebo outras dez me apoiando, inclusive de minha família”, disse Nana. “Creio que essa campanha acabou servindo como uma armadilha para os machistas, uma vez que vamos levar à polícia essas mensagens”, afirmou a jornalista.

Nana adiantou que, além do protesto virtual, ela e outras mulheres criaram um grupo de discussão e pretendem apresentar alguma proposta para ser levada ao Congresso Nacional. “Não sei ainda o que podemos propor, mas vamos ver o que é possível fazer para punir mais severamente atitudes machistas”, acrescentou.

eu-nao-mereco-ser-estuprada-facebookAlém da página no Facebook, os organizadores também criaram um site para a postagem das fotos

A jornalista postou no Blog do Sakamoto um texto com imagem de um dos agressores, que postou uma foto com um cartaz com os dizeres “#Eu já estuprei e estupro de novo”. Leia a íntegra do texto de Nana:

“Verdadeiras e falsas coragens, por Nana Queiroz

Acordei de uma noite mal dormida e perturbada. Adormeci ao som das notificações de meu Facebook e acordei com elas. Desde que começou o protesto online “Eu Não Mereço Ser Estuprada”, nesta sexta, às 20h, recebi incontáveis ofensas. Homens me escreveram dizendo que me estuprariam se me encontrassem na rua, outros, que eu “preciso mesmo é de um negão de 50 cm” ou “uma bela louça para lavar”. Se ainda duvidava um pouco da verdade por trás da pesquisa do Ipea, segundo a qual 65% dos brasileiros acreditam que mulheres que mostram o corpo merecem ser atacadas, hoje acredito nela totalmente. Senti na pele a fúria revelada pela pesquisa.

Em algum momento hoje, depois que conseguir descansar um pouco, vou à Delegacia da Mulher denunciar as ameaças. Pior: vou delatar um sujeito, Cirilo Pinto, que não só confessou publicamente já ter cometido um estupro, mas afirmou que o faria novamente. Está aí o print screen [foto no alto] da página dele, para quem duvidar. Espero que ele seja, ao menos, detido por incitar o estupro

Centenas de perfis falsos foram criados e nosso evento bombardeado com frases machistas, pesquisas preconceituosas e montagens com fotos do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) com dizeres ofensivos. Uma imagem dele ilustrou até um evento criado para promover um estupro coletivo. Caro deputado, pense: o senhor se tornou o ídolo de pessoas que defendem o estupro. Não será a hora de pôr a mão na consciência ou no coração?

Por outro lado, estou emocionada com o tamanho que a manifestação ganhou, não só pelo número de adesões, mas pela qualidade das postagens. Um resultado inesperado me comoveu ainda mais: Dezenas e dezenas de homens e mulheres contaram publicamente, muitos pela primeira vez, seus casos de estupro. Quanta coragem!

Alguns me escreveram privadamente para desabafar. Outros publicaram para milhares. Daiara Figueroa, creio eu, fez um dos relatos mais tocantes, contando como superou o trauma do abuso. Em sua foto, vestiu com orgulho um cocar, em homenagem a seu povo indígena.

Quero falar aqui, principalmente, a essas pessoas: vamos exorcizar isso juntos. Vocês nos inspiram, nos movem e comovem. Que o mundo tenha mais pessoas com a coragem legítima de Daiara e menos com a falsa coragem de Cirilo.”