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11 de Maio de 2018, 17h17

Os 90 anos de Burt Bacharach

Quem não pedalou com Paul Newman e Katharine Ross, o casal mais lindo o mundo, na antológica cena de “Butch Cassidy e Sundance Kid”, ao som de “Rain Drops Keep Fallin’ on My Head”?

Foi o primeiro disco que ganhei na vida. Era um compacto duplo – aos mais novos eu explico – um pequeno disco de vinil com quatro canções, duas de cada lado, normalmente uma pequena amostra de um long playing. Minha mãe comprou em uma pequena loja de discos que ficava no primeiro shopping center da cidade de Santos, na verdade um centro comercial horizontal que está lá até hoje: o Super Centro Comercial do Boqueirão.

Das quatro canções, eu ouvia apenas e tão somente e repetidamente uma delas, a linda “Rain Drops Keep Fallin’ on My Head”, de Burt Bacharach e Hal David, com o cantor americano Johnnny Mathis. A introdução deste texto, um tanto grande e um pouco descontextualizada do assunto, veio com a efeméride dos 90 anos de Bacharach, comemorados nesta sexta-feira (11), 50 anos depois daquele disquinho, o primeiro meu em milhares.

Ouço, hoje, por conta do aniversário, canções de Burt Bacharach em todas as emissoras de rádio e TV, telejornais, enfim, em toda a parte. Ele, mais do que qualquer outro, e isto é uma definição um tanto subjetiva, tem o cheiro, clima, tempero daqueles tempos. Havia, e sempre haverá, aquelas canções que a gente ouve, escolhe, canta, namora. E há aquelas que, a nossa revelia, permeiam um tempo, gostemos ou não. E Bacharach é isto, ou seja, quase um calendário, um hinário de um tempo um tanto mais ingênuo e repleto de uma felicidade que parecia, ao mesmo tempo, tão distante quanto próxima.

Quem não pedalou com Paul Newman e Katharine Ross, o casal mais lindo o mundo, na antológica cena de “Butch Cassidy e Sundance Kid”, ao som da mesma “Rain Drops Keep Fallin’ on My Head”?

Ou ainda, anos depois, quem não se emocionou e se divertiu com a extremamente tola e bem feita cena em que os convidados cantam “I say a little prayer for you”, em “O Casamento do Meu Melhor Amigo” em uma gravação realizada pelos próprios atores, comandados pelo excelente Rupert Everett?

Pois é, réu confesso, também me derramei com as tolas canções de amor de Burt Bacharach e ainda sigo perguntando o que seriam de todos esses filmes não fossem elas. Mais ainda, pergunto o que seria dos selvagens anos 60 não fosse a sua suavidade e ternura, muitas vezes um tanto excessivas.

Burt Bacharach é, acima de tudo, um grande músico. Um compositor de mão cheia que sabe e consegue, como poucos, chegar na alma do povo. Uma espécie de Roberto Carlos um pouco mais sofisticado e em escala mundial.  Um fabricante de canções que se prestaram tanto à versões muito populares quanto a interpretações de clássicos do jazz.

A despeito da participação de Bacharach, ao lado de Elvis Costello, em um lindo dueto interpretando “I’ll never fall in Love again”, na comédia “Austin Powers 2”, os dois fizeram juntos, em 1998, o comovente e nem um pouco comercial, “Painted from Memory”, um álbum memorável.

Nele, encontramos um outro Bacharach, muito distante daquele que sempre nos remeteu aos romances e encontros frívolos. Nos dois casos, no entanto, está no centro o mesmo músico, de grande estatura e, sobretudo, honestidade com a sua música.

O aniversário de Bacharach comemora um tempo bom e vibrante, como todos os outros tempos, cheio de desigualdades e conflitos, mas também repleto de afeto e talento.