Luiz Roberto Alves

14 de março de 2019, 11h57

Os Crimes de Suzano e o Instintivismo Brasileiro

Por coincidência, em duas sociedades cada dia mais infelizes, como Brasil e EUA, seus dirigentes máximos primam pelo discurso midiático, instintivo e ignaro, informe e, às vezes, hediondo

O educador Paulo Freire. Foto: Reprodução

Como professor ligado à educação pública desde criança, sinto horror duplamente: pelas vidas perdidas em Suzano e em razão de que a parolagem geral ensaia a mesmice que se seguiu à desgraça de Realengo em 2011. Por que? Ora, porque, em nome da “participação no debate” o salvacionismo opera seu velho jogo na direção do esquecimento, movido por interesses variados.

As pessoas ouvidas pela mídia durante todo o dia infeliz não arredaram pé em um milímetro de seus esquemas explicativos, de sua sabedoria pronta, seu palpite engatilhado na ideologia da bala e, mesmo entre aqueles de boa vontade, o fato é chamado de complexo e, por incrível que pareça, possíveis soluções são simplificadas. As grandes organizações da mídia colaboram com a linguagem instintivista e ignara: tragédia, atentado, terrorismo. De nada adianta o senhor Moro desejar a não-repetição. Com o devido respeito aos atos de consolo e aos minutos de silêncio, eles nada podem fazer contra a sociedade da mesmice repetitiva. E o espetáculo midiático, muito menos.

O líder do Modernismo brasileiro, Mário de Andrade, ao escrever sobre o escritor religioso Tristão de Ataíde (Alceu Amoroso Lima) em 1931, cunha a palavra instintivismo e afirma: “Entre nós o instintivismo é outro, é ignaro e contraditório: não representa nenhuma cultura nem nenhuma incultura propriamente dita: é apenas uma coisa informe, hedionda, dessocializante, ignara, ignara. É o instintivismo bêbedo e contraditório dum povo que (…) inda poetiza popularmente sobre sereias e Cupido; é o instintivismo que se deixa abater por 30 anos de miséria política; cria de sopetão o entusiasmo revolucionário de 1930, sem razão objetiva pro povo; e depois dessa unanimidade que se acreditara nacional, rompe num rush de cavação, de novo empregadismo-público mamífero da espécie mais parasitária, pedindo paga pessoal do sacrifício coletivo;(…)” Mantém-se a invenção linguística do autor na sua época.

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Nossa predileção pelo instinto antes de tudo não só provoca mudanças sociais muito lentas e tímidas, como faz correr riscos de tremendos retrocessos, como se evidencia hoje nesta república. O difícil aprendizado da cidadania e a história ignorada se encontram, na contemporaneidade, com o mundo irresponsável das redes midiáticas, criando poderes hediondos e ignaros, para citar Mário. Por coincidência, em duas sociedades cada dia mais infelizes, como Brasil e EUA, seus dirigentes máximos primam pelo discurso midiático, instintivo e ignaro, informe e, às vezes, hediondo.

Durante esse triste dia, ouvi horrorizado a predileção pelas explicações psiquiátricas e generalizantes, a par de palpites de especialistas em segurança e discursos de parlamentares munidos dos seus velhos e inúteis instintivismos. Ninguém conseguiu imaginar que os dilemas da educação brasileira podem não ser maiores do que as próprias forças dos que educam e se educam; isto se a sociedade brasileira passar a entender de modo absolutamente distinto o que ela pensa hoje sobre a escola e seu valor maior, a educação.

Para seguir um pensamento de Freire, que cruza toda a sua obra, não há qualquer chance de solução para esse tipo de desgraça que se abate sobre crianças e adolescentes fora da revolução comunitária das unidades escolares, dentro do suporte decisivo da cidadania do entorno escolar. Coligindo-se o pensamento do mestre odiado (instintiva e ignorantemente) pelos donos do poder, hoje, a revolução comunitária da escola compreende relações profundas com as culturas representadas pelos estudantes e suas famílias, bem como sua mudança na direção da solidariedade e da autonomia de cidadãos. Compreende um respeito irrestrito ao ser-estudante, sujeito de direitos e obrigações; por isso, só se aprende conteúdos na comunhão de ensinantes e aprendentes diante dos desafios, das dificuldades, dos confrontos, com rigor e amor. Também compreende uma relação de querer-bem fundamentada no diálogo, que inviabiliza expulsões, linguagem torpe e chula, criação de estereótipos e preconceitos, negação de participação comunitária em todo o ano escolar, mais feriados, fins de semana e férias. A revolução educacional freireana não admite o lugar-comum do mal e a justificativa de se armar pela ideologia da segurança, porque ela exige uma leitura de palavra (estudos e pesquisas) e do mundo (inclusão comunitária) como fenômeno total, que dá respostas cotidianas aos desafios e dificuldades. Não se pode imaginar a sociedade má diante da escola boa e sagrada. Nada disso! A escola revolucionária se nutre do real das gentes representadas pelos seus estudantes (e os professores devem ser sábios para entender e amantes para querer-bem essa gente), o que a leva a ser uma instituição plenamente representativa de uma compreensão de educação de todos. Cada comunidade escolar deve ser o símbolo assumido socialmente do Brasil inteiro se educando. Para tanto, toda a sabedoria pedagógica, as culturas e estéticas populares, os saberes comunitários, a ciência e os livros têm papéis indispensáveis. A segurança está aí, em toda essa ação revolucionária, em movimento de mudanças, que vai da negação do humano em seu cotidiano à liberdade da pessoa humanizada e cidadã.

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Nada disso se desgarra, ao contrário inclui a formação e a valorização dos educadores e demais profissionais da educação escolar, inclusive os ligados às ciências da saúde. Professores formados em universidades caça-níqueis provavelmente estejam longe dessa ideia freireana de revolução, mas carece-se de construir uma educação contínua, para a qual as tecnologias sociais de comunicação são valores formativos, mais que instrumentos.

O que ouvi e vi, horrorizado, no correr do dia (em rota batida para a mesmice e o esquecimento) se aproveita do fato criticado por Mário de Andrade. Interpreto-o para afirmar que a grande maioria das famílias brasileiras não sabe, não quer saber e tem horror de quem sabe o que seja uma educação que leve crianças e jovens à solidariedade social e à autonomia, valores anteriores e garantidores de emprego e renda. De seu lado, provinhas e provonas impostas pelos burocratas às crianças e adolescentes e seus resultados forjados mascaram a incapacidade da sociedade adulta para dar suporte a uma revolução educacional e escolar.

O presidente que passa por nós, atualmente, foi eleito legitimamente por cinquenta e tantos milhões de votos. Idem os/as governadores/as. Ora, em lugar de ele continuar na comunicação instintivista das redes e na conversa ignara de lançar chamas sobre os sinais de Paulo Freire nas instituições federais (pobre presidente, a burocracia do MEC está a milhões de anos-luz de Freire!), melhor seria se os milhões de seus votantes se convertessem realmente ao capítulo 8 de João (inteiro e não somente o verso 32) e começassem a imaginar uma educação e uma escola que nunca mais admitissem a desgraça deste dia. A revolução pensada em Freire terá de começar um dia, pois até lá iremos nos virando no túmulo do instintivismo e da ignorância.

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