Cinegnose

por Wilson Ferreira

07 de janeiro de 2015, 17h11

Os olhos dos mortos retornam nos recém-nascidos no filme “I Origins”

I originsAos 21 anos o diretor Mike Cahill teve um estranho sonho e quando acordou sentiu a necessidade de escrever a seguinte frase: “Os olhos dos mortos retornam nos recém-nascidos”. Catorze anos depois tornou-se interessado no tema da biometria através da íris. Junto com a lembrança da misteriosa frase do passado, Cahill escreveu o argumento do roteiro do filme “I Origins” (2014) – um biólogo molecular obcecado pelo design complexo do olho humano quer terminar de vez o debate entre criacionistas e evolucionistas, conseguindo preencher definitivamente a lacuna do mapeamento evolutivo do órgão humano, provando a inexistência de Deus. Sem ser um filme New Age disfarçado, Cahill opõe os argumentos dos dois lados, mostrando que Ciência e Espiritualidade podem andar juntas, embora em planos separados da existência. E o que as uniria seria o acaso, representado por uma misteriosa garota com a íris multicolorida, a “Sophia” da mitologia gnóstica. Filme sugerido pelo nosso leitor Felipe Resende.

De todos os órgãos do corpo humano, o olho é aquele que ao longo da História foi mais investido de significados poéticos, religiosos, artísticos e científicos. “O olho é a janela da alma”, dizem. Por trás desse provérbio está uma constatação científica: o olho é o único órgão que não muda a vida inteira, mantendo a mesma forma e padrão.

Desde os tempos em que Mike Cahill (Another Earth e Boxers and Ballerinas) estagiava na National Geographic e tomou contato com a história da foto da menina afegã que somente foi reconhecida 17 anos depois através da biometria através da íris, o tema passou a interessar o diretor. E principalmente por uma frase que Cahill escreveu, segundo disse o diretor em entrevistas, após acordar de um sonho: “os olhos dos mortos retornam nos recém-nascidos” – Film Interview: “I Origins” Director Mike Cahill Talks Post Credit Ramifications, Follow Ups and Religious Philosophy.

I-Origins1Mas o diretor não caiu na tentação fácil de fazer um filme new age ou espiritualista com apologias sobre a religiosidade e reencarnação. Ao contrário, o filme I Origins joga o espectador em uma narrativa onde são opostos os argumentos tanto do evolucionismo quanto do criacionismo, sem usar termos religiosos ou místicos.

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Cahill está no terreno de um subgênero de filmes de sci fi chamado “psicodramas alt.sci-fi”, isto é, filmes que utilizam argumentos sci fi para filtrar temas bem humanos com baixos orçamentos e nenhum efeito especial.

I Origins é preciso na utilização de dados científicos e tecnológicos reais: o programa nacional de biometria na Índia, ratos daltônicos com a visão modificada para enxergarem colorido, vermes sem olhos que são alterados geneticamente para desenvolverem a célula que dará origem ao design de um olho primitivo etc.

E é sobre esse pano de fundo tecnocientífico contemporâneo que Cahill vai traçar as perplexidades de um cientista absolutamente ateu e cético onde, aos poucos, vai percebendo que a sua fixação em pesquisar a evolução do design da íris humana o conduz a um campo onde Ciência e Misticismo se confundem.

O Filme

Um biólogo molecular particularmente alérgico a temas religiosos ou espirituais, Ian Gray, apaixona-se por uma misteriosa garota chamada Sofia em um festa de Halloween. Ironicamente, Sofia é uma garota de gostos místicos que dá início a uma série de acontecimentos que poderá, ou não, abalar as crenças racionais e científicas do protagonista

I-Origins 2Ian é especializado na evolução do olho humano. Mais do que um objeto científico, é uma obsessão pessoal: ao longo da vida fotografou centenas de olhos com o propósito de provar que a complexidade do design do órgão nada tem a ver com algum criador inteligente como Deus. Se ele encontrar o gene PAX6, então acabará com toda a discussão entre criacionistas e evolucionistas – conseguirá preencher a lacuna da história do órgão, conseguindo mapear a lógica do progresso da evolução. Para Ian, dessa forma, toda a discussão entre Deus e a Ciência se encerraria em favor da Razão.

Claro que pelo título do filme, pôster promocional e por se tratar de uma parte do corpo humano tão cercada de conotações poéticas e místicas, o espectador desconfiará que a narrativa penderá para o lado do espiritualismo. Porém, a narrativa de Mike Cahill não permite que o filme se transforme em um New Age disfarçado. Pelo contrário, o filme não usa palavras religiosas e a palavra “reencarnação” não é citada uma vez. Somente uma vez é feita uma alusão à palavra “alma”, o que quase faz Ian pular no pescoço da sua esposa e companheira de pesquisas laboratoriais.

Através de uma narrativa de sci fi que não conta com momentos de ação nem espetáculo, mas tem como principais trunfos o roteiro bem amarrado com frases sensacionais, sensualidade e informações científicas, Cahill consegue mostrar como a Ciência e a espiritualidade podem andar juntas.

Como, por exemplo, na sequência em que Sofia desafia o sentido das experiências com os vermes cegos. Ian manipula geneticamente os vermes para criar um olho primitivos neles para, então, mapear a evolução do órgão. Os vermes têm apenas dois sentidos: olfato e tato. A noção de luz é completamente desconhecida para eles. Mas a luz existe e é real.

Seguindo a mesma lógica científica, os cinco sentidos humanos poderiam ser igualmente limitados tal como os vermes: seríamos incapazes de detectar uma realidade que habitualmente chamamos de “mágica” ou “espiritual”, pois estaria num campo invisível à nossa percepção. Ou seja, a mesma conclusão do Mito da Caverna de Platão a partir da própria lógica científica.

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Sophia e “O Viajante”

Explicitamente a narrativa do filme I Origins se estrutura em torno de dois personagens marcantes nos filmes gnósticos: o mito de Sophia representado pela garota misteriosa que vai transformar a vida do protagonista. E o próprio protagonista que reúne as características daquele que denominamos como “O Viajante” – em postagens anteriores discutimos como a subjetividade contemporânea expressa pelos filmes gnósticos representa os protagonistas em torno dos arquétipos do Viajante, do Detetive e do Estrangeiro – sobre isso clique aqui.

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