Os Entendidos

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Debater a diversidade com bom humor.

07 de dezembro de 2013, 13h11

Quem tem medo da Mulher Maravilha?

A espera acabou. Depois de décadas de especulação e do desastroso episódio piloto de uma série que nunca aconteceu, finalmente o mundo tem uma nova Mulher Maravilha. A atriz israelense Gal Gadot é a escolhida para seguir os passos de Lynda Carter e dar vida à princesa amazona nos cinemas! A cultura pop é curiosa. […]

A espera acabou. Depois de décadas de especulação e do desastroso episódio piloto de uma série que nunca aconteceu, finalmente o mundo tem uma nova Mulher Maravilha. A atriz israelense Gal Gadot é a escolhida para seguir os passos de Lynda Carter e dar vida à princesa amazona nos cinemas!

A cultura pop é curiosa. No início da semana eu nem sabia quem era essa moça – nunca assisti a nenhum “Velozes e Furiosos”, franquia da qual ela participa – e agora tenho certeza de que em dois anos a cara dela estará por todos os cantos da minha casa, em mil pôsteres, brinquedos e “mini-versões” realistas em formato de boneca. É no que dá interpretar um ícone. E é isso que a Mulher Maravilha é, razão pela qual tudo que diz respeito a ela assusta tanto.

Feminismo

_ Com meu novo penteado, não estamos mais tão parecidas! _ Estou feliz de conseguir minha posição de volta, mas invejo a sua de esposa e mãe.

– Com meu novo penteado, não estamos mais tão parecidas!
-Estou feliz de conseguir minha posição de volta, mas invejo a sua de esposa e mãe.

Criada em 1941 pelo psicólogo William Moulton Marston – que também inventou o detector de mentiras – a Mulher Maravilha era uma resposta ao domínio masculino na indústria de quadrinhos. Apesar de algumas coisas que não envelheceram muito bem, o que Marston enxergava como “a propaganda do tipo de mulher que deveria governar o mundo” acabou virando um fenômeno pop e um símbolo feminista. Naquelas páginas, o papel de “donzela em apuros” e interesse amoroso era vivido por um homem, o capitão Steve Trevor, e nenhuma corrente era forte o bastante para prender a heroína por muito tempo. Ainda assim, quando ela entrou na Sociedade da Justiça – grupo que originou a atual Liga – foi na função de secretária porque néam, os editores acharam uma boa ideia ignorar sua popularidade crescente.

Nos anos 60, embora o rumo das histórias já tivesse mudado bastante após a morte de Marston (1947), a personagem passou por uma mudança drástica: Diana Prince perdeu seus poderes divinos e mudou de roupa, virando uma espécie de agente secreta com treinamento ninja. Um reviravolta que não agradou em nada a geração de mulheres que cresceu inspirada pelo quadrinho, fazendo com que em 1972 a jornalista Gloria Steinem estampasse a Mulher Maravilha na capa da edição de lançamento da revista feminista Ms., com seu uniforme original e um pedido para que ela fosse eleita presidente – a personagem voltaria à capa da revista 40 anos depois. Era a época do seriado de TV protagonizado por Lynda Carter, que criou a imagem da Mulher Maravilha ideal para o mundo: a princesa Diana de Themyscira é uma embaixadora da verdade e da justiça no mundo dos homens que faz parte da trindade da DC, servindo de ponto de equilíbrio entre o “bom moço” Superman e o atormentado Batman. Ela luta pela justiça, pelo amor, pela igualdade entre os sexos e pela paz, o que a transformou na ilustração perfeita das lutas e conquistas femininas do século XX.

Machismo e Cultura Pop

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Recentemente, a personagem – e todo o universo DC – passou por um reformulação. Se antes os altos valores morais da maravilhosa pareciam deixar as histórias arrastadas, o resgate das origens mitológicas com os deuses do Olimpo e a cultura das amazonas trouxe uma Diana mais durona, sem medo de usar a força bruta. Em sua essência, ela continua uma emissária da Paz, mas suas ações e o equilíbrio moral entre sua divindade e sua humanidade a transformaram na nova deusa da guerra, numa reviravolta que é a cara da Mulher Maravilha. Melhor, ela agora é ainda mais relevante – e poderosa – nos quadrinhos da editora. Não é de espantar, então, que a demanda por um novo filme dela seja grande. Infelizmente, essa é a batalha contra o mundo do patriarcado que Diana parece incapaz de vencer…

Gal Gadot

Gal Gadot viverá a Mulher Maravilha nos cinemas, mas não será num filme dela e sim em Batman vs. Superman, a continuação de Homem de Aço dirigida por Zack Snyder. É uma resposta à pressão para que a Warner unifique os filmes do universo DC e pavimente o caminho para um filme decente da Liga da Justiça, nos moldes do projeto cinematográfico da Marvel. O problema, no caso da Mulher Maravilha e desse filme, é que as coisas não parecem estar sendo pensadas com o mesmo cuidado.

O principal argumento contra um filme da musa é de que sagas de ação estreladas por mulheres costumam decepcionar nas bilheterias. Entra Katniss Everdeen para mostrar que não é bem assim e finalmente Diana ganha espaço na telona, mas como coadjuvante de outros dois heróis! Colocar o Batman no próximo filme do Superman já deu polêmica – ainda mais depois do anúncio de que ele será vivido por Ben Affleck – por parecer precipitado. Depois do sucesso relativo de Homem de Aço, o esperado era que a história do azulão se desenvolvesse num segundo filme, já talvez com algum indicativo de uma união vindoura, para que o encontro ocorresse depois, num terceiro filme. Para piorar, esse longa sequer é da “Trindade”, tendo o título de “Batman vs. Superman”. Isso significa que, apesar de ser tão importante, a Mulher Maravilha será mesmo uma figurante de luxo em sua estreia na tela grande, o que parece a receita para o desastre. A história de Diana é muito complexa para ser ignorada ou resumida num filme que não é nem dela, então o esperado era que ela fosse introduzida num título seu e que depois fosse feita a ponte entre os heróis. Pasme, até o Lanterna Verde já teve um filme e ela é muito mais conhecida e significativa do que ele!

É sério, ela é um ícone pop e parece que a Warner não acredita muito nisso. Qualquer filme de herói atual, com um bom roteiro e tratamento adequado, pode ser um sucesso. No caso da Mulher Maravilha, basta o nome para que o interesse da mídia seja redobrado, justamente por causa da expectativa de anos sobre o projeto e das implicações políticas políticas da personagem. É lógico, isso aumenta muito a pressão sobre quem dirige e sobre a atriz escolhida, mas é o tipo de atenção que qualquer produção luta muito para conseguir. No fim das contas, não há justificativa para relegá-la a segundo – ou terceiro – plano que não seja machista. É por não acreditar nela, por medo, que os executivos da Warner preferem ser tão cautelosos com a personagem.

O que esperar?

É cedo para falar. No buzz da internet falou-se muito do corpo magro de Gal Gadot, de como ela não parece “amazona” o suficiente para interpretar Diana. Eu até poderia concordar, embora a insistência em discutir o tamanho dos seios dela certamente não tenha nada a ver com fidelidade à caracterização, mas os poderes da Mulher Maravilha são mágicos, presentes (ou herança) dos deuses, então ela não teria porque ser toda musculosa também. Ainda falta muito para o filme e com certeza a preparação para o papel envolverá malhação pesada, então talvez o resultado não seja ruim. Ainda não está claro, também, em que circunstâncias a personagem será utilizada no roteiro, se usará seu uniforme clássico, se já será apresentada como princesa estrangeira e heroína, etc… Pelo menos Gadot, que foi Miss Israel em 2004 e serviu ao exército, não tem a aparência vulgar que alguns desenhistas insistem em exprimir em sua arte, objetificando a personagem. Além disso, ela parece exótica e interessante e consegue fazer a linha “durona”. De resto, a caracterização e um bom roteiro podem surpreender.

O que faz a Mulher Maravilha ser tão especial é a sua divindade. Ela é superpoderosa, mas não trata desse poder da maneira egoísta que os seres humanos conhecem. Ela se surpreende com a crueza da humanidade mas sempre a perdoa, porque sua missão é a justiça. Sua arma é a verdade e isso é transformador. Foi por causa desses elementos que ela se tornou um ícone. Foi por causa de tudo isso, de todo esse poder, que ficou difícil mexer com ela. Lembram da polêmica quando ela mudou de uniforme? É isso que amedronta (alguns) homens.

Felizmente, agora já temos uma heroína para nos salvar!