Os Entendidos

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Debater a diversidade com bom humor.

18 de julho de 2014, 19h57

Gênero: entre o biológico e o social

Texto do colaborador Felipe Goebel. O que define um indivíduo como homem ou mulher? Um conjunto de órgãos que podem ser percebidos medicamente? Quais são as práticas sociais que definem se um individuo é homem ou mulher? Ao nascer, todo indivíduo imediatamente é enquadrado medicamente dentro do gênero masculino ou feminino. O conjunto de órgãos […]

Texto do colaborador Felipe Goebel.

O que define um indivíduo como homem ou mulher? Um conjunto de órgãos que podem ser percebidos medicamente? Quais são as práticas sociais que definem se um individuo é homem ou mulher?

Ao nascer, todo indivíduo imediatamente é enquadrado medicamente dentro do gênero masculino ou feminino. O conjunto de órgãos que possuem permitem que a medicina e os familiares do bebê o diferenciem e o designem como menino ou menina. A partir daí, esse bebê será educado para se tornar um homem ou uma mulher dependendo da definição biológica que lhe foi designada ao nascer. Entrará em ação todo um conjunto de práticas sociais que irão definir a forma como a criança deverá lidar com sua identidade que desde que nasceu está atrelada a designação biológica que lhe é dada.

Um menino será educado para ser um homem, uma menina para ser uma mulher. Afinal esse sexo biológico designado medicamente é encarado como determinante para a construção da futura identidade da criança. É o biológico que define e que delimita as práticas sociais individuais possíveis em relação ao gênero. Essas práticas deverão estar sempre ligadas e serem condizentes com a definição biológica do indivíduo. O que é aceitável ou não para um menino ou uma menina fazer, está relacionado com a definição biológica que receberam ao nascer.

Um conjunto de órgãos, uma definição biológica bipolar, passam então a regular toda vida do indivíduo. A atuação dessa definição biológica social define de forma exata o que é masculino e feminino. Um menino se veste de azul e com shorts porque têm um pênis, uma menina de rosa e com vestidos por ter uma vagina. A definição de gênero é inicialmente dada biologicamente e não construída. Os padrões comportamentais de masculinidade e a feminilidade são definidos também a partir dessa mesma prática social dada biologicamente.

É justamente essa ação do biológico sobre o social que transforma o gênero em ferramenta de definição social. O social é criado a partir do biológico com toda ampla rede de expectativas e padrões comportamentais que atuarão na formação da identidade da criança. Crescerá sabendo que espera-se que ela seja um menino ou uma menina, seja lá o que isso queira dizer, e que se comporte como tal. É necessário que seu comportamento, que sua frágil identidade, esteja de acordo com seu sexo biológico. Essa definição biológica, inclusive, também atua na esfera da sexualidade: homens sentem desejo por mulheres e mulheres por homens. Esse é o padrão esperado, esse é o biologicamente definido. A maior prova de que o biológico atua e define socialmente o gênero é que qualquer comportamento ou prática que saia dessa definição será invariavelmente considerada como desviante. Mas desviante para onde?

Daí que o gênero, assim como a sexualidade, deveria ser percebido e entendido como socialmente construído e não como biologicamente definido. O conjunto de órgãos que definem o bebê como menino ou menina é apenas isso: um conjunto de órgãos que nada tem a ver com a identidade ou com os hábitos comportamentais desse indivíduo. É essa definição biológica sobre o social que persegue, que tortura e que silencia milhares de pessoas. Olhando do ponto de vista do homem, o menino nasce com uma noção do que esperasse que ele seja para ser considerado macho.

É nessa linha tênue do que lhe é passado como masculinidade que ele deverá construir sua identidade quando crescer. Cresce sabendo que não pode querer brincar com a Barbie da irmã porque é coisa de menina. Sabe que se for confrontado na escola deve resolver seus problemas de forma assertiva e rápida porque qualquer outra coisa não seria coisa de homem. Ao crescer, porém perceberá que esses modelos simples que funcionavam em sua infância não são tão simples assim e que a masculinidade é na verdade um ente frágil, em constante resignificação para se manter no topo, e que quase nada significa. De qualquer forma, todo indivíduo que não tenha sua identidade estando em concordância com sua definição biológica terá seu espaço e sua voz cerceados. No final, homem-com-buceta ou mulher-com-pau é errado e não pode existir por não estar dentro do padrão biológico definido.

Qualquer individuo que apresente um padrão de comportamento desviante da norma masculino/feminino irá imediatamente ser relegado a um espaço de silêncio e ignorância. Ao nascer, nosso bebê  foi definido como menino ou menina, quando crescer irá talvez perceber isso de uma maneira ou de outra e terá que decidir o que fazer com isso. Querendo ou não. Pode ser que ele escolha aceitar os condicionamentos biológicos sobre sua prática sexual e sobre sua vivência social. Pode ser que isso não lhe seja possível.

A questão é que os que conseguirem manter o sexo biológico e o social de acordo com o esperado serão respeitados e aceitos naturalmente na sociedade. Não sofrerão dezenas de olhares tortos ao longo da adolescência, nem serão chamados de ‘bichinhas’, ‘frutinhas’, ‘caminhoneiras’, ‘fanchonas’. Isso independente de sua preferência sexual, independente se preferem transar e se relacionar com homens e mulheres, pois a definição de gênero vai muito além da heterossexualidade e da homossexualidade. Não terão sempre que reafirmar sua identidade de gênero a cada passo que derem. Não irão correr o risco de não conseguirem um emprego por não serem homens de verdade, ou suficientemente femininas.

Nas últimas décadas lésbicas, gays e transsexuais* saíram finalmente do gueto. Saíram do submundo noturno que ocupavam pós o boom da AIDS na década de 1980. Começamos a nos organizar novamente e, com todos os nossos complexos e problemas, temos coragem agora de nos mostrar e lutar por um espaço que deveria nos ser garantido na sociedade, e que, historicamente, nos foi negado. É desse ponto, e por trazermos questões como os papéis frágeis das definições de gênero para o debate, que mudanças amplas podem ser operadas de fato na sociedade. Todos nós, aqueles que não se enquadram nas definições padrões de gênero, desafiamos o sistema simplesmente por existirmos. A visibilidade por si só não basta mais no ponto em que estamos. Parece que finalmente a cerquinha das rígidas definições de gênero e sexualidade estão ficando cada vez mais enferrujadas.

Restá-nos derrubá-las.