Menino de Ouro, de Abigail Tartellin e publicado no Brasil ano passado pela editora Globo, é um romance que conta a história de Max, um adolescente de 16 anos que parece ter uma vida perfeita. É bonito, fica com todas as meninas do colégio, é um excelente aluno, está no time de futebol, além de ter uma família exemplar, com seus pais bem sucedidos e amorosos e um irmão mais novo que o adora. Mas há coisas na vida de Max que não são comentadas, nem em público e nem na vida particular. Max é intersexual (antigamente denominado como hermafrodita, em relação com o mito de Hermafrodita, filho de Hermes e Afrodite).

Embora o tom seja de que isso não é um grande problema, começamos a perceber o ambiente de paranoia que seus pais vivem, principalmente sua mãe, sobre como as pessoas lidariam com a condição de seu primogênito. Tudo se torna ainda maior já que Karen e Steve (pais de Max) são funcionários públicos, ambos advogados em Hemingway, onde Steve inicia sua campanha de candidatura para o Ministério Público.

A campanha implica prestar mais atenção no segredo de Max, já que Steve é uma espécie de celebridade local – o que fará com que a vida deles fosse constantemente invadida por jornalistas sensacionalistas.

Então acontece algo que vai mexer com todas as estruturas dessa família: Max, após ser estuprado pelo seu melhor amigo de infância (que era considerado como um primo) fica grávido. Envergonhado do acontecido, nosso menino de ouro se considera culpado e não conta pra ninguém além da Dra. Archie Verma, que é quem o atende no posto de saúde.

Aqui as coisas começam a ficar mais interessantes, que é o fato da questão de Max ser intersexual vir à tona com toda a força. Ele sempre se considerou menino, o seu desejo sexual flui em direção de garotas, mas ele começa a cogitar que talvez seja uma menina, que tudo o que ele acha que é, não passa do modo como ele foi criado.

Com a pressão para que ele faça um aborto e uma histerectomia, ele passa também a pensar se essa não seria a única chance dele ter uma família, afinal sempre pensara que a possibilidade do sexo nunca seria algo real em sua vida, que ele seria uma espécie de “tio solteirão” para os filhos de seu irmão mais novo e o cuidador de seus pais, quando estes estivessem muito idosos.

O sexo enquanto ato e a dicotomia macho e fêmea são temas que permeiam a narrativa, porque aqui a discussão chega às raias de uma definição do corpo como sendo uma coisa só – e esse âmbito biológico se mostra uma questão também crucial para o garoto. Pois ele tem que decidir o que seu corpo será. Terá que se decidir por deixar de ser algo que ele sempre foi, porque a sociedade, além dos médicos, acreditarem que as pessoas se dividem apenas entre ser menino ou menina, e não podem “estar ao meio”.

Porém, Max descobre que para ele as coisas são ainda mais complicadas nessa escolha, porque ele é de um tipo intersexual totalmente meio a meio, ou seja, 46XX/46XY.

O que Max fará? Como a família dele lidará com suas escolhas? Qual será a reação de sua namorada? O que acontecerá com Hunter, o “melhor amigo” estuprador?

O livro chama muito a atenção por dar conta de um tema ainda invisibilizado: a interssexualidade, menos discutido que as questões trans*, de uma forma muito intimista, já que não temos uma narrativa com um único narrador. Cada personagem do livro narra uma parte do que acontece ao redor de Max, a partir das suas perspectivas e sentimentos, na medida que as situações vão acontecendo e as envolvendo. Daí que, tudo se torna mais forte emocionalmente no enredo.

Pense na situação de nascer com dois sexos e os seus pais serem orientados a escolher, ainda quando você é um bebê, o seu sexo, a partir da sua aparência externa ou dos seus órgãos genitais mais desenvolvidos? Imaginem a pressão social para que você se encaixe e escolha um lado simplesmente porque as pessoas não conseguem e/ou não querem lidar com essas diferenças, que tudo precisa estar dualmente definido.

Será que, no caso de Max, só por ele ter uma postura mais masculinizada e gostar de garotas, ele deveria se tornar biologicamente um menino? Será que ele não poderia ser uma menina? Será que ele não pode ser os dois?

A quem interessa todo esse trabalho médico que exige a classificação entre apenas dois sexos? Os próprios médicos que, ao invés de uma clara compreensão das nuances, acabam por buscar mais dinheiro, por vias das pesquisas que criam distúrbios e desvios. A indústria farmacêutica, que produz medicamentos que possibilitam o tratamento de tais distúrbios. Ou seja, todo um conjunto de lugares que instituem uma norma e não uma humanização.

Quando a gente pensa em intersexuais, tudo isso se torna mais evidente, mas isso acontece o tempo todo com todo mundo. Conosco, LGBTs, temos as nossas classificações e os desviantes são forçados a se enquadrarem ou viverem excluídos. Tudo pauta-se no que é mais comum, mas o comum, o considerado “norma”, é uma coisa fabricada e naturalizada. Ela não é natural. Daí que tudo se inverte, o natural torna-se antinatural, um erro, que deve ser corrigido, para que as coisas fiquem normais.

Por isso que esse assunto nos diz tão respeito quanto aos intersexuais, porque já sofremos durante muito tempo a patologização da medicina e das ciências psi, ainda hoje há pessoas que acreditam sermos doentes. A questão trans* ainda é considerada um distúrbio. Todos esses movimentos de indiferença e normatização da diversidade sexual, de fato leva à doenças, mas não com origens em sua sexualidade, e sim provenientes de uma sociedade que não aceita nada que não esteja na norma por ela criada. Um filme que me vem à mente sobre esse assunto é XXY, de Lúcia Puenzo. Outro que talvez possa ser mencionado é o Glenn ou Glenda (1953), de Ed Wood com Bela Lugosi.

Portanto, Menino de Ouro, com suas 379 páginas, é uma leitura indispensável, não só para conhecer um pouco mais desse universo intersexual, já que vem cheio de informações sobre o assunto, mas porque nos põe a pensar sobre os valores de nossa sociedade.

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