Os Entendidos

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Debater a diversidade com bom humor.

17 de dezembro de 2014, 15h32

Quilombos: uma história de luta e resistência

Texto do nosso colaborador Antonio Santos. Se você acredita que os quilombos acabaram com a abolição da escravidão, ou que os quilombos contemporâneos são simplesmente um aglomerado de negros descendentes de escravos fugitivos, tenho duas notícias para você, caro leitor. Confesso que também já compartilhei da noção simplista sobre os quilombos, então vamos desconstruir juntos! Além disso, […]

Texto do nosso colaborador Antonio Santos.

Se você acredita que os quilombos acabaram com a abolição da escravidão, ou que os quilombos contemporâneos são simplesmente um aglomerado de negros descendentes de escravos fugitivos, tenho duas notícias para você, caro leitor. Confesso que também já compartilhei da noção simplista sobre os quilombos, então vamos desconstruir juntos! Além disso, essa ideia está enraizada na maioria das pessoas, devido à deficiência da educação das escolas e/ou universidades públicas e particulares, que raramente ensinam a história afro-brasileira de forma crítica.

No Brasil Colônia, os primeiros registros de quilombos nos levam até o século XVI. Apesar do senso comum insistir em totalizar os povos africanos, a diversidade étnica nos quilombos refletia a variedade de etnias traficadas do continente africano, sendo o quilombo de Palmares o grande símbolo da luta quilombola. Liderado por Zumbi, Acotirene e Dandara, localizava-se em Alagoas e continha aproximadamente 10 mil quilombolas em 1675. No entanto, incomodados com o crescimento vertiginoso do quilombo, autoridades portuguesas maquinaram sua destruição e  o quilombo sucumbiu em fevereiro de 1694. A data da morte seu líder, Zumbi, foi instituída como dia da consciência negra, pela Lei 12.519/11, embora sejam necessário todos os 365 dias do ano para combatermos o racismo estrutural num dos últimos países do mundo a abolir formalmente a escravidão.

Ainda hoje existem mais de 5.000 comunidades quilombolas no Brasil. Elas resistiram por mais de 300 anos de escravização. Em Minas, através do Projeto de Extensão Quilombos de São Francisco da PUC Minas nas comunidades quilombolas de Palmeirinha, Bom Jardim da Prata e Buriti do Meio, os quilombolas relataram-me o descaso dos governantes para com seu povo, em relação ao limitado acesso deles ao transporte público, a falta de infraestrutura, a escassez de recursos habitacionais, a precariedade da educação básica, a descrença nos três poderes, o não acesso a justiça, o silenciamento dos quilombolas por grandes fazendeiros e empresários rurais que ameaçam os direitos reais dos quilombolas, dentre outras dificuldades. Sabe-se que as mazelas relatadas pelas comunidades quilombolas em questão, não são exclusivas delas, mas são comuns a todas outras espalhadas pelo país.

Dialoguei com os quilombolas a respeito de racismo institucional e desigualdade social, utilizando frases que despertassem o senso críticos deles, tais como: “A carne mais barata do mercado é a carne negra”. Apresentei charges que representavam a abordagem policial violenta em relação aos jovens negros e obtive o retorno imediato dos jovens quilombolas que ali estavam, e que vivenciam na pele as agressões da instituição policial. O resultado deste trabalho foi além do esperado, problematizamos o racismo sistêmico e, pensamos conjuntamente em políticas públicas que pudessem conscientizar a sociedade como um todo a respeito das práticas raciais discriminatórias.

Comprovei ainda, a riqueza cultural quilombola, que se manifestou em nosso encontro através de mais variadas formas artísticas que me remeteram a grandiosidade da cultura africana. As danças apresentadas pelas mulheres quilombolas contagiaram a todos. A criatividade e simplicidade dos artesanatos saltavam os olhos. A roupagem, os turbantes e os ornamentos conferem uma identidade étnica característica ao grupo. Enquanto saboreei uma deliciosa feijoada preparada pelas mulheres quilombolas, refleti que aquele prato foi uma estratégia de sobrevivência das populações negras durante o período escravocrata.

O sentimento de pertencimento e a busca por mais direitos fizeram com que eles conseguissem eleger entre eles um representante para defender suas pautas na Assembléia Legislativa. O vereador Agmar Pereira Lima é figura notória entre as comunidades quilombolas atualmente. Representante legítimo do povo quilombola de São Francisco, luta pela efetivação de vários direitos negados dentro e fora do Parlamento.

Contudo, quilombos seguem sendo um local de resistência contra a opressão racial e social. Combatendo a negligencia do Estado, a luta pela concretização dos direitos quilombolas implica em lutar contra genocídio do povo negro, contra o racismo institucionalizado e, a favor do empoderamento do povo preto e quilombola. Cabe aos quilombolas o protagonismo dessa luta, mas todos que possuem empatia podem ser aliados e incorporar esforços no sentido de tornar os povos quilombolas realmente detentores de direitos.