Pedro: Você é uma fantasia dos leitores. É o que os leitores gostariam de ser.” (p.102)

Quem é essa fantasia? Quem esses leitores gostariam de ser?

Patty Diphusa, estrela pornô internacional, que passa a assinar uma coluna na revista espanhola La Luna, no início dos anos 80, é a fantasia que os seus leitores gostariam de ser.

São os textos dessa coluna que compõe o livro homônimo Patty Diphusa, de Pedro Almodóvar: que poucos conhecem ou sabem de seu trabalho como escritor, antes de se tornar um famoso cineasta.

Em sua coluna, Patty fala de si, essencialmente de si e, ao fazê-lo, vai desenhando um panorama de como era a vida na Madri dos anos de 1980: festas, sexo e drogas. É nessa pegada ególatra e egocêntrica de sua escrita que podemos dizer que Patty é símbolo de uma geração, que é metáfora metonímica da Madri em que vive. Uma cidade que não dorme e que tenta desfrutar de todos os prazeres possíveis.

Assim, Patty vive uma vida superficial e intensa, onde o mundo parece girar ao seu redor, muito embora haja pistas de que muito do que ela diz a seu respeito seja fruto de sua mente megalômana, e toda essa super-importância dada a si mesma fica marcada não apenas no conteúdo dos seus textos, mas declaradamente inscrita graficamente nos “EU” maiúsculos que vão aparecendo em sua escrita.

Ela não suporta falar muito dos outros, a menos que isso acabe espelhando a si mesma, e isso ocorre por ela acreditar que ninguém é tão incrível, comercial ou gostosa como ela.

“[…] não quero dedicar tantas linhas à Addy, porque a Addy não é comercial – E EU sim.” (p.22)

E mesmo quando o que ela tem a falar de si não é algo tão glamouroso, ela faz ser, dando aquela melhoradinha básica no script, como ocorre no encontro que ela tem com um garoto, pra quem ela está pedindo carona, após ter sido estuprada e largada no meio de uma estrada.

“Deixa eu entrar e prometo que conto tudo”, respondi. E logo contei tudo, inclusive coisas que não aconteceram.”

Aliás, justamente a parte anterior desse conto que nos revela a preocupação exagerada com a imagem, que Patty tem. Para ela, não basta ter um vida sempre incrível, sua imagem tem que corresponder com o que ela pensa ser sua vida e nada menos do que isso.

“Nem em ‘Porcas Gêmeas’, uma das minhas mais famosas fotonovelas, estive com um aspecto tão repugnante. Realmente aquilo me incomodou e compreendi que há situações em que o único remédio para as mulheres é virar feministas. Esta era uma delas.” (p. 25)

Detalhe que, a situação que a deixou repugnante é o estupro que ela sofreu na mão de dois homens, mas isso não pareceu lhe incomodar tanto quanto a aparência com a qual ficou depois disso. Ela até mesmo pensa que, antes ter sido estuprada por dois, do que por mais caras…

– Vamos fazer uma pequena digressão.

É bastante comum, quando se debate o comportamento homossexual, principalmente no que se refere aos homens, uma busca pelo ideal heteronormativo de conduta, vide os inúmeros perfis em aplicativos e sites de relacionamento em que ser discreto, não dar pinta é a tônica dos gays procurados.

No entanto, percebo que, na outra ponta, há um movimento com mesma força e intensidade e em sentido contrário: o que idealiza o viado fabuloso, o viado DIVA.

– Voltando à Patty.

Patty encarna a diva. Ela é a fantasia que todos gostariam de ser (ou pelo menos a maioria). É, entre nós, a bicha destruidora, lacradora e de atitude, sempre sorridente, bem vestida e cheia de sucesso em tudo o que se dispõe a fazer. Todos os outros são cópias, querem ser iguais a ela – ou serem ela.

Contudo, a maioria dos que assim querem parecer utilizam sempre dos mesmos recursos discursivos de Patty, como o de falar sempre de si e sempre em aspectos muito positivos, nem que para isso se tenha que fantasiar um pouco a realidade, menosprezar os outros com comentários ácidos, que tem como único objetivo se mostrar  melhor do que realmente é.

Para mim, tal comportamento, revela uma insegurança acerca a própria imagem que a pessoa tem de si e da que acha que os outros tem dela, para se manter firme em sua fantasia, ela precisa constantemente reiterar a sua fabulosidade. É como o poema “Quero”, de Drummond, em que no momento em que não se diz mais repetidamente, ininterruptamente que se ama o ser amado, inexoravelmente ele saberá que deixou-se de amá-lo. No caso dessa pretensa fabulosa, no momento em que deixarmos de dizer que ela é isso, ela o deixará de ser. Ela só é no momento em que o elogio está acontecendo, pois no momento exato que ele finda, a fabulosidade se acaba, como se nunca tivesse existido.

Esse tipo de diva não compreende que, assim como aconteciam com os bardos celtas ou com os poetas de Aristóteles, não somos nós que nos nomeamos alguma coisa, os títulos nos são dados por outros. São os outros que nos fazem ser fabulosos. São os outros que nos outorgam o status de divas. Tomemos como exemplo Cher e Madonna, que não ficam por aí reiterando o quão maravilhosas são, mas apenas sendo quem são e nos fazendo ficar maravilhados com isso.

Parece que essa busca por ser fabulosa a qualquer custo também passa a incomodar a Patty dos textos finais do livro, que foram escritos após um hiato de 10 anos sem ter produzido uma linha sequer. É o início da década de 90 e toda a loucura da década passada ficou no passado, daí que ela se irrita com o fato de todos quererem ser o máximo, muito embora ela já tenha passado e feito isso.

“É insuportável essa necessidade que todo mundo tem de mostrar que é o máximo”, diz ela na página 98.

Sim, é. Ainda mais insuportável quando, esse “ser o máximo”, implica em debochar e menosprezar as não tão fabulosas que existem por aí.

No mais, Patty Diphusa é um livro de Pedro Almodóvar publicado pela Coleção Devassa, da Azougue Editorial. Contêm cenas de sexo, romance, relacionamentos homoeróticos, com pessoas trans e reflexões das mais inusitadas.

Ah, para saber dos livros que eu comprei, li e resenhei, bem como a lista dos melhores de 2014, só conferir a postagem no Folhetim Felino: Os livros de 2014.

Estante, uma sexta sim e outra não, falando de livros e outras coisas mais.

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