Traduzido por Christian Schwartz e publicado no Brasil pela Companhia das Letras, Middlesex, romance vencedor do prêmio Pulitzer em 2003 do autor norte-americano Jeffrey Eugenides, narra a história de Cal Stephanides, um intersexual.

Diferentemente do que já vimos em Menino de ouro, em Middlesex, a história não é apresentada de forma linear e, embora já saibamos desde o inicio que Cal já foi Callie, o que ele passa a nos narrar é como se deu a sua formação genética, uma mutação do seu quinto par cromossômico, causado pela associação de genes recessivos. Diferentemente, também, de Menino de ouro, Cal só descobrirá o que é muito tempo depois sobre sua intersexualidade, o contrário de Max, que desde sempre sabia de sua condição. Deste modo, temos que a narrativa também segue, assim como Americanah, o modelo de narração em media rés, com algumas idas e vindas temporais.

Assim, Cal, um adido cultural assistente na Embaixada americana da Alemanha, volta no tempo, até os anos 20 do século passado, em meio a pequena vila grega de Bythinios, onde seus avós Desdêmona e Esquerdinha Stephanides nasceram.

Na pequena Bythinios, Desdêmona produz seda e Esquerdinha, seu irmão, as revende na cidade. A relação deles começa a passar por certas tensões. Desde a morte dos pais, Esquerdinha passa a sair cada vez mais e passar as noites em clubes e bares. Desesperada com a situação e lembrando da promessa feita à mãe de ambos, Desdêmona inicia uma busca por uma moça com quem o irmão possa casar. No entanto, na vila onde moram, apenas duas moças são figuras disponíveis, porém nenhuma desperta o interesse de Esquerdinha.

Logo vimos a saber que, tanto Desdêmona quanto Esquerdinha nutrem, um pelo outro, um sentimento mais que fraterno. Na irmã isso se materializa num cuidado e preocupação fortes, com certos toques de ciúmes, no irmão isso se dá nas fugas por meio das prostitutas turcas e jogatina.

O desenlace da tensão acontece quando, na invasão turca do início dos anos 20, Esquerdinha e Desdêmona tem a sua primeira noite juntos e, conseguindo escapar dos turcos, chegam aos Estados Unidos, para  morar com uma prima deles Sourmelina (Lina) e o marido dela, em Detroit. Esquerdinha e Dedêmona já estão casados, cumprindo assim a promessa dela para o irmão, caso ambos conseguissem escapar com vida da Grécia.

Em meio a isso, temos também Milton e Tessie tentando ter o segundo filho. Milton, filho dos Stephanides, e Tessie, filha de Sourmelina; logo primos e associação, mais uma vez, de mesmos genes familiares.

E aqui temos algo interessante, o teste da colher, que serve para que se descubra o sexo da criança e o qual é aplicado por Desdêmona em Tessie, quando essa já se encontra grávida. O teste da colher diz que o bebê será um menino, enquanto o ultrassom indica que será uma menina. A ironia consiste nos dois terem razão, muito embora só descobrirão muito tempo depois, fazendo assim, de certo modo, Cal um novo Tirésias.

A narração histórica, a saga da família Stephanides, dos genes recessivos que levarão a formação genética de Cal, enquanto hermafrodita, se confunde então com a história americana. Das fábricas de Ford, a lei seca, a Depressão, a segregação racial nos bairros de Detroit, passando pelos eventos da Segunda Grande Guerra, vão constituindo a formação dessa narrativa e, por conseguinte, do modo como às coisas se dão. E isso não é nem a ponta do iceberg. Um iceberg greco-americano, construído nas possibilidades do novo mundo, mas sem conseguir escapar dos desígnios do fado, o drama humano costurado pelas três irmãs, que vão tecendo as gerações da família Stephanides, relacionando-os e imbricando-os, por meio das idas e vindas da narrativa feita por Cal.

Em meio a isso, também temos o próprio caminho de Cal Stephanides pelo caminho desconhecido do relacionamento amoroso para além do primeiro e segundo encontro, para uma vida amorosa realizável.

Cal é um narrador quase onisciente, consegue sentir e escutar os pensamentos, estar desde o início de tudo, como se fosse um oráculo ou um poeta inspirado pelas musas. Aliás, são justamente as musas que possibilitam que o narrador não caia na inverossimilhança interna da obra. Logo no início, Cal invoca as musas, solicitando a ajuda delas nesse momento em que ele se dispõe a contar tudo, desde o inicio.

A invocação, recurso também da epopeia clássica, como a media-rés.

Mudando um pouco a rota de assunto, esse é o segundo romance sobre intersexuais que resenho aqui na Estante, o que me leva a um ponto de reflexão.

Na resenha de Menino de ouro, tentei, em linhas gerais, abordar a questão da invisibilidade intersexual, dentro do Movimento LGBT e, mesmo da sociedade brasileira. Na época, tentei estabelecer um contraponto com a invisibilidade e marginalização dos próprios transexuais, da normalização do gênero e da identidade sexual.

Hoje constato, e isso também veio a partir de um comentário lido no Facebook, que, embora a intersexualidade não seja algo discutido ou pelo menos tão abordado como as outras minorias sexuais, ela ainda está, pelo menos no que se refere à produção literária, muito mais representada do que a transexualidade. (E não, gente, Psicose não entra na categoria, pois ali o travestismo acontece por questões de outra ordem).

O livro Middlesex, que além de me parecer uma brincadeira interessante em relação a condição da personagem principal, também é o nome da rua em que a família Stephanides passa a residir em certo momento na narrativa, é um romance com 574 páginas, que além das coisas que aqui dissemos acima, traz umas boas curiosidades sobre intersexualidade, terceiro gênero e coisas afins. No final do livro, na parte dos agradecimentos a menção de obras consultadas sobre tais temas, e que podem ser referencial de leitura para aqueles que se interessam ou passaram a ter curiosidade com a questão intersexual.

E, de modo geral, o livro é leve, no que se refere à maneira em que foi escrito. Uma leitura muito agradável e super recomendável.

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