Texto de nosso colaborador Jhow Carvalho.

Hoje eu vou falar de amor.
Hoje eu vou falar de dor.
Hoje eu vou falar de nós.
Dos nós.
De mim.
De você.

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Nós, dois homens pretos, ora dois meninos, fe(meninos), ambos jovens, naquela idade de ser estatística, de ter mais chances de ser mortos pela polícia. Sabe aquela idade que correm de você quando você anda sozinho em uma rua escura? (Talvez também com medo) Quando correm de você porque você tem cara de assaltante, cara não, cor de assaltante? Talvez você não saiba, mas nós sabemos muito bem.

Nós, além de pretos, viados. É, não basta ser preto, tem que ser viado. Enfrentar a sociedade “só” pelo racismo, isso parece pouco para nós, mas não é. Nós dois guerreiros, temos que guerrear até para nos amar. Custa muito para nós estarmos juntos, custa muito para nós estarmos vivos, afinal, quando se é preto e viado você tem apenas o dobro de chances de morrer e de ser agredido, mas isso também faz com que desde cedo a gente aprenda a lutar, a nos defender e a atacar.

E os nossos corpos? Nós descobrimos que temos um corpo a pouco tempo. Sempre nos disseram, nos reduziram a um órgão genital, a um pau grande, fetiche de muitos daqueles que queriam (e ainda querem) colonizar os nossos corpos. Nós agora bravamente resistimos.

Quanto amor e quanta dor carrega o corpo de cada um?

Você tem ideia do quão difícil é para duas bichas pretas demonstrar afeto? O espanto que isso provoca apesar de carinho ser uma atitude muito, muito simples? Ainda mais se considerarmos que há muito tempo existe a ocupação humana na terra? Essas atitudes muito simples não deveriam chocar tanto a sociedade civil, simples gestos como andar de mãos dadas, dar um selinho, um abraço mais forte ou um beijo na boca em público. Ah como isso incomoda! Chega a incomodar mais do que um casal hétero fazendo sexo oral em praça pública.

Nosso beijo incomoda aos que nos feitichizam, aos que nos objetificam, àqueles que acham que nós existimos apenas para saciar os seus desejos, pautados no racismo.

Hoje o choro dessas pessoas lá na canteira é livre, mas por muito tempo o nosso choro que foi livre. Pior, por mais tempo ainda o nosso choro era preso, apesar de na nossa história ter muita dor e muita lágrima. A nossa história é aquela que nunca vai passar na novela das nove.

Quantos nós caminhamos até nos encontrar? Eu gosto dos teus pés por isso. Foram eles que te fizeram caminhar até o nosso encontro. Gosto de quando fazemos do nosso peito o travesseiro – um para o outro. E gosto também de quando a tua mão passeia pelos meus cabelos, assim como gosto de passear as minhas pelos teus, pacientemente, desembaraçando aqueles nós chatos que surgem. Seus cachos, meu crespo. A nossa história é aquela que nunca vai passar na novela das nove.

Até porque, além de pretos e viados, somos pobres, moramos onde aquela gentalha que nos chama de moreninho, mulato, gente de cor, prefere chamar de subúrbio. Moramos onde a gente daqui chama de periferia, perifa ou, carinhosamente de quebrada. A quebrada que resiste e sempre resistirá.

Nós vivemos a margem da sociedade.

A gente daqui é aquela gente que reza [bate tambor] pra ter um trocado no fim do mês, que reza [bate tambor] para o salário não atrasar, que reza [bate tambor] para o salário render, para que dê pra pagar todas as contas e, quem sabe, sobrar algum. Nós também rezamos. E batucamos.

O povo daqui ouve música alta e grita com os meninos. Ah, os meninos! Esses brincam na rua e aprendem a brincar com a mãe do vento na laje. Soltando pipa. Aqui a gente sabe quando é domingo, quando é feriado e quando o povo tá de férias. O povo mesmo. Sabe a massa? A plebe? Aquela legião de homens e mulheres que são a base da pirâmide social e cuja força de trabalho carrega nas costas todo e qualquer playboy.

Sabe aquela mulher negra que cuidou de você, que foi sua empregada e sua babá? A “tia” da escola? É aqui que ela mora, é aqui que, ao contrário do que você pensa, ela é reconhecida como gente. É aqui que ela vive, resiste e re-existe, guerreia, mata um leão por dia e, se precisar, ela vira uma onça pra defender os meninos dela. Quando precisa ela vira leoa e se torna capaz de matar uma selva inteira.

Não somos aquele tipo de casal que consegue se ver todos os dias. Não temos tempo para isso. Temos rotinas muito diferentes e precisamos trabalhar e estudar. Afinal, quando se é preto, pobre e viado é necessário impor a sociedade o respeito que ela finge nos dar.

Aprendemos desde muito cedo o que é racismo. Antes de estarmos preparados e muito antes de sabermos qualquer coisa sobre o assunto. Antes de sabermos o que é a homofobia ou o classismo que hoje encaramos. Aprendemos que precisamos nos esforçar, guerrear mesmo, duas, três ou talvez dez vezes mais do que qualquer pessoa (branca, heterossexual e de classe média, mais ainda se esta for homem cis) para mostrarmos que demos certo na vida – muitas vezes inclusive para as nossas famílias. Para mostrarmos que temos e muito o direito de existir, de resistir, re-existir e de sermos respeitados.

Passamos bem mais tempo com o braço esquerdo levantado e o punho cerrado – Black Power, Ogunhê! – do que de mal dadas.

Hoje eu só queria falar de amor…

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