Os Entendidos

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Debater a diversidade com bom humor.

04 de janeiro de 2016, 16h05

5 Conceitos que a militância negra deveria entender

Toda identidade coletiva — todo rótulo social — vem acompanhada de contextos específicos. Vocabulário, necessidades, prioridades, valores etc. Na comunidade que se estabelece em torno da luta cotidiana contra o racismo não poderia ser diferente. Porém, apesar da militância negra comungar de um mesmo ideal, nem sempre os envolvidos possuem o mesmo entendimento dos termos […]

Toda identidade coletiva — todo rótulo social — vem acompanhada de contextos específicos. Vocabulário, necessidades, prioridades, valores etc. Na comunidade que se estabelece em torno da luta cotidiana contra o racismo não poderia ser diferente. Porém, apesar da militância negra comungar de um mesmo ideal, nem sempre os envolvidos possuem o mesmo entendimento dos termos utilizados comumente. Algo bastante compreensível a partir do momento em que sabemos não haver um currículo central — ou seria manual universal? — de empoderamento. Afinal, diferentes pessoas percorrem diferentes trajetórias no processo de conscientização. Então, muitas das vezes, interpretações individuais de alguns conceitos-chave acabam contribuindo para o esvaziamento do sentido originalmente pretendido. Para evitar que isso aconteça e que em 2016 possamos todos nos entender melhor fiz uma lista de termos que mais precisam ser aprofundados – ainda que o espaço aqui seja pouco para tanto.

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Movimento Negro

Parecerá óbvio para alguns militantes, mas participando de alguns debates virtuais — e reais — não é difícil encontrarmos pessoas que se referem ao Movimento como um entidade centralizada e unificada. Algo que ele não é. Não existe — pelo menos não mais — uma frente uniforme e única responsável por concentrar todas as reivindicações da negritude. Então, não é porque alguns grupos de discussão de Facebook há pessoas machistas e homo-transfóbicas atuando na moderação que seja possível — e sensato — dizer que todo o Movimento Negro é machista e homo-transfóbico. O Movimento Negro é composto pelas pessoas que se propõem a combater o racismo através de ações de impacto coletivo. Logo ele é tão plural quanto as pautas possíveis. Os focos podem ser múltiplos — alguns mais urgentes que outros —, porém dificilmente auto-excludentes quando reconhecemos que o centro da luta é a valorização da dignidade de todos as pessoas negras. Sugestão de leitura: Movimento Negro Brasileiro: alguns apontamentos históricos, de Petrônio Domingues.

Colorismo

Já mencionei esse termo anteriormente aqui, mas sempre é bom relembrar… Esse conceito, teorizado por importantes feministas negras estadunidenses, problematiza os privilégios que pessoas negras de pele mais claras e traços “finos” desfrutam em sociedades onde a branquitude é enaltecida a exaustão. Sendo assim, chamar pessoas negras de traços mais negróides de coloristas por questionarem a negritude de quem, no contexto tupiniquim, pode ser — e frequentemente é — lida como branca, soa quase como uma acusação de racismo reverso. Algo que sabemos não existir. Não dá pra uma pessoa oprimida por ter os traços obviamente negros oprimir que tem passabilidade branca num mundo que despreza a negritude. Sugestão de leitura: Colorismo: o que é, como funciona, de Aline Djokic.

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Afrocentramento

Possivelmente o termo mais esvaziado dessa lista, geralmente é empregado como sinônimo de relacionamento afetivo-sexuais entre pessoas negras. Ou a preferência de uma pessoa negra por parceiros(as) negros(as). Não que essa interpretação esteja errada. Apenas bem distante do seu sentido completo.

Se você, como quase toda pessoa negra em Diáspora, não teve uma língua africana como língua materna, muito provavelmente toda a sua concepção e interpetação do mundo vem dos colonizadores. Afrocentramento, portanto, é o caminho escolhido justamente em oposição a essa herança colonizadora. Afrocentrar-se significa um processo de auto-desconstrução e redescoberta da África de onde nossos antepassados foram arrancados e que nos é amputada ainda hoje. Trata-se de um retorno às raízes africanas na busca por uma visão de mundo que nos contemple e sem todo o ranço de séculos de desumanização racista. Representa uma imersão em referenciais – afetivos, filosóficos, espirituais, estéticos, culturais, sexuais, éticos etc. – que tenham origem na África. Na tentativa de contrabalancear – já que anular é impossível – o efeito (banzo) de termos sido socializados numa cultura de supremacia branca que nos faz amar a branquitude e admirar tudo que vem da Europa e rejeitar nossa própria negritude e toda nossa ancestralidade africana. Sugestão: se o objetivo é se referir a relacionamentos entre pessoas negras, há o termo “amor negro” (Black Love) utilizado nos EUA, mas dentre todas as línguas africanas talvez alguma palavra para “amor” ou “enlace” sirva ainda melhor.

Ubuntu

Diferente do que muitos demonstram acreditar, Ubuntu não corresponde a fraternidade cristã, nem tampouco a sororidade feminista. De origem milenar no continente africano, o termo pode ser traduzido como “Eu sou porque somos” e inclui a ideia de respeito pelas particularidades alheias. Ou seja, um conceito estruturante bastante diferente da máxima ocidental: “Penso, logo sou”. Talvez daí venha a dificuldade no seu entendimento, a quebra com a ética individualista vigente na nossa cultura.

Se no ocidente pensamos grandes nomes como Beethoven e Van Gogh como gênios — e ilhas merecedoras de créditos individuais —, nessa concepção africana é impossível pensar esses mesmos indivíduos separados de seus pais, parentes, vizinhos, compatriotas etc. Somos todos resultado das relações que nos cercam. Nessa ótica somos todos afetados assim como afetamos o mundo.

Quando empregado por militantes negros não significa apenas que temos laços de proximidade — política, afetiva, genética etc. —, mas que somos responsáveis uns pelos outros. Não no sentido de integração pacífica, mas no de cooperação e respeito mútuos. Apesar dos esforços que nos separam e desumanizam. Vale lembrar que a busca por unamidade e perfeição não cabem na filosofia africana. Logo, uma comunidade que pensa exatamente da maneira idêntica também não. O que dá liga é o reconhecimento de que todos somos dignos de respeito e merecedores de compaixão. Tal qual numa família alargada. Dessa forma, antes de exigir Ubuntu ou reclamar da falta dele entre as pessoas negras, lembre que se você não está acolhendo nem tentando compreender exigir dos outros é muito pouco coerente. Sugestão de leitura: Ubuntu: Filosofia africana que nutre o conceito de humanidade em sua essência, de Natalia da Luz.

Palmitagem

Uma das consequências mais desoladoras e corriqueiras do racismo é a crença de que pessoas negras são as mais difíceis de amar. Que temos mais empecilhos para despertar e cultivar afeto. Tanto pessoas brancas quanto negras são capazes de apresentar diversos argumentos para justificarem porque acabam se envolvendo afetivamente majoritariamente com pessoas brancas. No Brasil, mais especificamente, existe até uma lenda que afirma que pessoas negras são naturalmente atraídos por gringos e afins. Todo mundo compreende que colonos europeus, judeus e asiáticos, tradicionalmente, prefiram casar entre iguais, mas ai da pessoa negra que não deseje “clarear” a família.

Inúmeros são os motivos que, aparentemente, inviabilizam e impossibilitam envolvimentos com pessoas negras para além do meramente sexual — “minas negras são meigas de menos”, “manos pretos brutos demais”, “negras dão muita dor de cabeça”, “negros só tem ‘migalhas’ a oferecer” e outras tantas desculpas que responsabilizam pessoas negras por serem deixadas pra escanteio como um todo. Em crítica a isso, militantes criaram o termo palmitagem para se referirem a pessoas negras que defendem a necessidade de discutirmos os abalos a auto estima de pessoas negras provocados pelo racismo, mas que acabam conservando a “preferência nacional” intacta. Em consequência disso, infelizmente, deu-se início uma caça, irresponsável, aos “palmiteiros”, como se a cor do parceiro de pessoas negras as impedisse de militar. Como se esse aspecto individual fosse da conta da coletividade ou como se não houvessem grandes exemplos de militância que “palmitaram” e que contribuiram enormemente. Sugestão: se você condena a “palmitagem”, não palmite. Militantes negros devem ser cobrados pelo seu engajamento com a causa e não perseguidos. E se você “palmita”, evite defender como aceitáveis pessoas que o racismo já promove como preferíveis. Da mesma maneira que ninguém é obrigado a acreditar no mito do “branco desconstruído” de qual fala a profecia, você não tem a obrigação de dar satisfação da sua vida amorosa.


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